Em minhas elucubrações não consigo me furtar do pavor da existência de um deus conforme supõe as maiores religiões do ocidente: apenas diante de sua hipotética presença espectral já sinto um pavor, um medo e uma agonia que duraria todos os meus dias de vida. Diante de sua face que se estende através das eras apenas o terror — um fútil terror humano e finito, indigno de sua horripilante antiguidade — apenas ele seria um sentimento possível e sensato que rivaliza apenas com o de confrontar uma entidade como “Cthulhu”, dos mitos de H.P. Lovecraft.

Qualquer ser humano que se põe a pensar mais em deus do que em tentar se embriagar de sua graça perceberia a imensidão do pavor que sua presença causaria, pavor que só o faria querer desaparecer imediatamente e agonia superior por saber que não pode fugir daquela horrorífica face onipresente. Entre o medo de uma vida anônima ou o pavor de existir sob a observação de olhos eternos, a primeira opção é a menos desesperadora, apesar de seu pavor insensível. Já o olho da providência, insone e mudo, nunca se fecha, sempre vigilante acima dos homens observando sua miserável pequenez.

Talvez não haja como fugir do desespero: tanto sob as asas de deus quanto sob a égide do acaso só nos reste o pavor, o primeiro advindo do sufoco da onipotência, o segundo da apneia da vacuidade. Só consegue permanecer sob a sombra e um deus ou de uma existência vazia alguém que teve seu instinto de conservação danificado seriamente: a embriaguez é o remédio contra os sintomas de ambos, para o niilista, há o prazer e a gula — para o crente há a graça e o frenesi divino.

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