Anotações Éticas

Participei do evento, Desafios Culturais e Éticos em Tempos de Crise, realizado pela Unimed. Evento fantástico com ótimos palestrantes e ótimas discussões.

Parabéns a Unimed por essa nona iniciativa, evento gratuito e aberto a todos.

Eu, como de praxe, de caderno em punho fui colocando anotações, insights e correlações. Formando o fio da meada para depois verbalizar essas ideias em um texto. Faço aqui, para minha memória e compartilho também.

Tudo meio aleatório, meio disperso, com ideias dos palestrantes e minhas e também interpretações, talvez erradas, podendo parecer até antagônicas, mas no fundo não são. Nem todas estão aqui, algumas são difíceis de expressar claramente e podem causar interpretações erradas. Se alguém ler esse texto e discordar de algo. Me chame de canto, vamos achar um ponto em comum.

Para começar, uma coisa que não consigo entender -Como, em uma palestra sobre ética, pessoas furam filas? Presenciei mais de uma..

Tudo começou com uma palestra do Leandro Karnal, gaúcho de São Leo e hoje em SP. Não o conhecia. Visualmente e até no jeito de falar, além do profundo conhecimento filosófico, lembra o Pondé, só que sem direcionar a artilharia para determinado grupo.

Ele de cara já deu argumentos para em encarar furadores de fila, disse ele: “Sabemos o que é certo ou errado”. Então, a partir de agora, quando alguém furar a fila somente perguntarei, -Você está furando a fila? Somente isso, ele sabe que está errado e por mais que crie desculpas.. ele sabe que está errado e vai ter que conviver com esse conflito.

Ética está em constante dilema, conflitando com necessidades e oportunidades. Invertendo o ditado, a ocasião faz o ético.

Moral = autoridade = julgamento externo = pecado

Ética = interno = ausência de juiz

A ética é adquirida.

A amizade é baseada em ética, quando não existe ética é cumplicidade.

Conceitos éticos no Brasil são para os outros, excluem o Eu, o problema está nos outros.

Bem comum -versus- individual.

Em determinado momento da palestra me senti como, quando fiz minha primeira viagem para o exterior. Me senti dentro de um mundo diferente, integrado a um ambiente que eu imaginava não existir. Vi que existem lugares e pessoas com valores, aspirações iguais as minhas, e olha, são coisas bem simples, até banais, como; respeitar a individualidade, não achar que todos gostam das mesmas coisas e nem por isso os tornar diferentes, respeito, só isso. Não falo de amigos e alguns ambientes que frequentamos, afinal isso nós escolhemos. Falo de ambientes coletivos, rua, trânsito, lojas, restaurantes onde ninguém, infelizmente, respeita ninguém.

Ética é disciplina, treinar sempre. Lembro que eu tinha uma medida para meu comportamento. No caminho para o trabalho havia uma sinaleira para pedestres (com pardal e caetano) e, por falta de planejamento, tinha um desvio lateral onde era possível contornar as multas sem problemas, os pedestres que se ralem. Inúmeras pessoas passavam pelo desvio, nunca passei ali, mesmo atrasado, mesmo tendo pego bem no início do sinal vermelho.. era meu “teste” de disciplina. Pode parecer bobagem, mas funciona para mim.

Falta de ética dá trabalho

Quem não é ético vive se espiando, se escondendo, controlando para não ser pego.

Brasileiro só vê os efeitos de quem é bem sucedido, não vê o esforço para chegar lá. Aqui tem um gancho para outra percepção minha, que tenho que desenvolver individualmente. Brasil é o pais da remediação, tudo é visto e tratado nos seus efeitos, nada é feito na causa, afinal (ironia), isso poderia resolver os problemas.

Não existe governo ético com povo corrupto.
Não existe governo corrupto com povo ético.

Ética é liberdade

Esse foi um dos grandes insights da manhã, sempre fui movido pela liberdade, ela é um dos meus maiores valores. Sendo ético se está livre do “grilo falante”, sendo ético, pode-se perder “vantagens”, mas nunca se “prende o rabo”. Liberdade e independência são mais importantes, para mim, do que vantagens.

Leandro Karnal diz: -A vaidade, primeiro pecado capital, é a raiz de todos os outros pecados. A vaidade, se achar melhor, mais esperto, centro de mundo, intocável, realmente é causa de muitos males. Hoje vivemos em um mundo narcisista, não só de nos acharmos melhores, mas de precisarmos que os outros nos digam isso, nos aprovem com “curtidas” em redes sociais. Onde crianças são criadas para serem centros do universo, seres especiais, com direitos exclusivos diante dos outros. Um sociedade assim não pode esperar muito das gerações futuras.

Cultura do macho alfa.

Aqui não é só o fortão, não é só o homem, é qualquer forma de se impor por força física, econômica ou por influência.

Não ser ético é ser injusto.

Justiça = Ética = Justiça

Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Sempre fui meio desconfiado com o hino riograndense, não com ele, mas com quem infla demais o peito para cantá-lo. Frases prontas alimentam hipócritas facilmente. Tirando a cultura da força e do bairrismo do hino, essa estrofe faz todo o sentido com a ideia de que, ética (virtude) é liberdade (não escravo).

Após a palestra do Karnal começou uma mesa de debates com Demétrio Magnoli, Roberto Romano e o Leandro, mediando Augusto Nunes. Aproveitei para ir ao banheiro enquanto o Magnoli falava, não é dos meus favoritos.

Não é dos meus favoritos porém, elencou algumas das causas do nosso caos político atual. Penso igual;

Profusão de partidos (aumenta a oferta e baixa o valor de compra)
Coligações (Supermercado, meio de comercialização de cargos e propinas)
Cargos de livre nomeação (moeda de compra)

Também não conhecia o filósofo Roberto Romano. Eu, que gosto de filosofia como alimento de ideias e não como finalização delas, preferi o Karnal como pensador.

Outra conclusão, preciso ler Aristóteles, conheço um pouco os precursores (caras de ideias) e outro pouco dos posteriores (concretos, mais pé no chão, ou não), mas ele fez a ponte entre esses pensamentos.

Ética é física. Seja no, não respeitar o espaço alheio ou na imposição. Ética não são palavras, são ações.

Romano citou: Alguns partidos enquanto palavras (oposição) eram éticos, quando receberam a “ação” se mostraram antiéticos. Citado por todos da mesa a frase -Aprender a lição. Como sendo, entender que só é possível se manter no poder fazendo concessões, se corrompendo. Complemento com o velho George Orwell, “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Situação interessante que veio a mesa, que não vou saber expressar corretamente, mas que serve para eu entender esse insight no “futuro”. Aqui um link, meu,com a Teoria dos Jogos e Goldratt. Muitos calculam as vantagens de alianças (teoria dos jogos) só com cenários presentes, sem a variável futuro. Goldratt propõe acrescentar o futuro na visão de uma empresa. Normalmente as empresas colocam a visão somente de lucro no seu lema, Goldratt coloca lucro hoje e no “futuro”, que faz toda a diferença. Então, ao tomarmos decisões, temos que pensar sempre no futuro, tudo é mutável, atitudes presentes com vantagens no hoje, podem ser totalmente erradas no futuro. Volto a ética como liberdade. Sendo ético, os resultados sempre significarão liberdade no presente e no futuro. Muitos que estão presos na Papuda ou Curitiba não fizeram o cálculo correto, assim como, fascistas e oportunistas na segunda guerra. Para os nerds, não escolher o lado negro da força.

Todos dizem que a educação é a solução, alguns dizem “ensinar a pensar”, mas sinceramente, a maioria pensa em educação como ideologia.

Não se ensina a pensar, se ensina mecanismos que levam a pensar autonomamente, ensinar a pensar é lavagem cerebral.

Já perguntei muito. -Por que estou aprendendo isso que nunca vou usar? Ou, por que calcular, na mão, isso se existem calculadoras? Hoje entendo que são mecanismos de exercício do cérebro, isso é aprender a pensar! Se queremos uma vida saudável temos que praticar exercícios físicos, logo, se queremos um pensamento saudável..

Foi colocado algo parecido como defino esquerda e direita. Alguns acreditam que todos são bons e o sistema os corrompe (O Bom Selvagem de Rousseau), outros que todos são maus e o sistema os corrige (Pecado original).

Ainda sobre ensino, uma frase interessante do Romano;

As universidades, hoje, são clubes sociais (Playgrounds) de estudantes.

Concordo com essa ideia, vejo nas instituições públicas e privadas uma mistura de ideologia e capitalismo, ou na contestação por contestação (pública), ou a ideia de cliente (privada). O cliente tem sempre razão. Mas no final tudo acaba em festa e não são preparados para um mundo real.

(Pensamento aleatório). Minha decepção com a percepção política/ideológica de alguns conhecidos, não tenho nada contra o lobo que se apresenta como lobo e sim do lobo disfarçado de cordeiro. Não confie em cordeiros, já lobos, sempre desconfiamos.

Emendo aqui uma anotação sobre a “Arrogância do bem”, ditadura militar, situação desse século no Brasil, Robespierre, Nazismo, Cuba.

Frases de efeito e palavras de ordem são cômodas.

Internet, blogueiros e redes sociais falam para a torcida, se retroalimentam num circulo vicioso.

Jornal fala para todos, quem gosta e quem não gosta.

Vamos para tarde.

A minha motivação para ir nessa palestra foi a presença do Contardo Calligaris, que participou do primeiro debate desse turno, Literatura (cultura e ética).

Iniciou com Nilson May, presidente da Unimed, escritor e fã de literatura, graças a pessoas assim que ocorrem eventos desse tipo. Comentarei adiante, mas muitos debatedores falaram não acreditar no coletivo, coisas ocorrem de iniciativas pessoais e se propagam para o coletivo.

Calligaris, li livros, leio todas as colunas, vejo e leio entrevistas. É o pensador que mais admiro atualmente.

Ele falou sobre como teve sua formação moral (não vou definir aqui moral e ética) através da literatura. Não fiquei decepcionado com os comentários dele, mas foi um pouco disperso. A grande sacada que ele trouxe para mim foi essa. — Não formamos a moral através de aulas e conselhos, isso nos é ensinado em condições ideais de “pressão e temperatura”. A literatura (a boa), nos traz dilemas éticos e morais no extremo, na vida real, e a partir da análise e empatia com personagens e situações formamos a nossa moral, a real, não a imposta. Falando sobre isso com a Vania, ela comentou, — É no Brasil não se lê, se assiste novela.. bingo, conclua você mesmo.

Adianto que esse debate foi disperso, ou pela falta de mediação do Juremir Machado ou por afobamento e tietagem do Nilson May. Tornou-se um programa de debate de radio, tipo cafezinho, pânico ou pretinho básico.

Contardo Calligaris estava com as emoções a flor da pele, seja pela indignação da cultura do estupro, pela bancada evangélica e a falta de ação pelos ditos políticos progressistas. Quando se questionou da literatura como remédio para a alma, não esqueçamos que no público estavam muitos médicos. Calligaris falou de um caso de uma paciente adolescente que ele tratou até a morte, ela tinha uma doença degenerativa. Ela escrevia um diário, não descrevendo seu dia a dia de progressiva morte, mas como uma jovem normal, que saia com amigos e passeava por parques e ruas. Por três vezes o psicanalista desmoronou, teve a voz embargada, teve que afastar o microfone e conter a emoção. Foi muito emocionante ver isso em uma pessoa que admiro muito.

Já tinha ouvido falar no escritor Ruy Castro, mas nunca me chamou a atenção, foi uma grata surpresa ouví-lo. Falou acreditar que a literatura pode estar menos interessante hoje, pois outras meios e disciplinas roubaram um pouco da literatura; a psicanalise, cinema, ciência, biografias. Antes o romance era único, agora ele se fragmentou e diluiu.

Ruy Castro descreveu algo muito interessante, de como ele, criança, 4 ou 5 anos, aprendeu a ler espontaneamente e a partir daquele momento tudo ao seu redor se revelou, fez sentido. As placas, anúncios, rótulos, jornais tudo passou a ter significado. Ele falou como se fosse um novo sentido, além da audição, visão, tato, gustação e olfato existe um sexto sentido, a leitura.

Também descreveu como a leitura o fez se sentir parte de algo, sentir-se integrado a um grupo de pessoas que se expressam através da palavra escrita, perpetuam conteúdo nas palavras. Logo vem a lembrança dos mecanismos para aprender a pensar, ensinar a ler é ensinar a caminhar, o caminho? cada um que escolha o seu.

Muito se falou de ética e cultura. Aqui um pouquinho da crise. Calligaris chama a etimologia da palavra, crise = julgamento, escolha, decisão.

Ruy Castro fala sobre editoras, distribuidoras e lojas. Qualquer um que consuma livros, ou mesmo música, com maior afinco, sabe que essa indústria está em transformação. Onde vai parar? Qual o destino de escritores, industria e leitores? Vamos aguardar as melancias se ajustarem na carroça. Minha percepção leva a crer que todos querem ir pelo lado mais fácil, do “fast food” cultural. Talvez tenhamos que esperar que as gerações futuras adoeçam com “gordura, pressão alta e colesterol alto, cultural” para valorizarmos a boa cultura, praticar exercícios e consumí-la corretamente.

Calligaris, como provocador nato, afirma que existe uma necessidade latente da sociedade de controlar indivíduos, a ponto de comemorar a Aids como um castigo moral.- Valores positivos são amorais.- Tudo que é coletivo é suspeito. Aconselho a pensar sobre isso, eu, como defensor das liberdades individuais tenho muito respaldo no pensamento do Contardo.

O último debate foi com cineastas, Carlos Gerbase, Jayme Monjardim e Paulo Nascimento, como mediadora Bruna Lombardi.

O que chamou a atenção foi que, dois deles, utilizaram vídeos para expressarem suas posições. Gerbase colocou a experiência em “domar” alunos rebeldes lá em 1984. Deu-lhes câmaras para se expressarem e eles conseguiram externalizar o que pensavam de um modo subjetivo, que não conseguiam nas palavras. Paulo apresentou uma versão beta do trailer de seu novo filme, que trata de um cego que volta a enxergar, contra sua vontade, por insistência de amigos e familiares e não consegue se adaptar a essa nova realidade. O lance de acharmos que o melhor para os outros é o que desejamos, lembro de ter falado sobre isso num post.

Bem a palestra encerrou, o evento se torna parecido com uma viagem, nos primeiros dias tiramos muitas fotos (anotações) e conforme vamos nos acostumando com o novo ambiente elas diminuem.

Me sinto privilegiado por ter participado desse evento. Fiz esse resumo para eu ler e repensar no futuro, se alguém o ler, espero que possa ajudar a pensar um pouco.

Lembro que, esses eventos estão acontecendo a todo o momento em lugares como o youtube e TED, é só procurar e assistir. Alguns são longos, mas para quem é capaz de ver uma hora e meia de um jogo da terceira divisão do campeonato de goiano ou horas a fio de novelas não é problema.

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