Tecnologia vrs cultura

Ouvi esses dias um discurso a favor da tecnologia como o grande difusor de cultura. A expansão do rádio, a expansão de carros que passaram a carregar rádios e toca fitas; VHS, o computador e a internet.

Ou seja a tecnologia é como um rio ou artérias que permitem espalhar e difundir cultura. Quando falo em cultura é o conjunto de ideias e características de um povo, também entretenimento e arte. Pode-se pensar que cultura vai homogenizar de cima para baixo, de uma forma “imperialista” odeio essa palavra e desconfio da maioria das pessoas que a usam.

Mas vamos lá, vamos analisar; normalmente uma tecnologia quando lançada é cara e só é acessível para quem tem dinheiro ou a quem a quer muito, pois um pobre pode economizar e comprá-la se tiver muito interesse. Ou seja a aquisição dessa tecnologia será usada inicialmente por uma elite, seja econômica ou cultural, sim pobres podem fazer parte de uma elite e elite não é palavrão, também desconfio de pessoas que a utilizam como palavrão.

Dito isso as tecnologias com o tempo tendem a baratear e criar desejo em classes que tinham menos acesso de início, seja por status ou por real utilidade.

Agora imaginemos que é lançada uma nova mídia de música com acesso a apenas 10% da população e nessa mídia existem dois canais de transmissão. Agora imaginemos que esses 10% escutem majoritariamente samba, provavelmente esses dois canais de transmissão executarão somente esse tipo de música. Então uma empresa consegue baratear muito essa mídia e ela atinja 90% da população (10% iniciais + 80% novos). Só que, os outros 80% da população com acesso a essa tecnologia gostem de polca, mas digamos que a tecnologia seja barata apenas na recepção e não na transmissão e continuem somente dois canais de transmissão. Qual será o tipo de música que atrairá mais público e mais anunciantes? Com 99% de certeza, afirmo que a polca.

Uma vez difundida e homogenizada essa cultura única, mesmo que saiam novas transmissoras nessa mídia, dificilmente o “samba” irá tirar mercado da polca, no máximo irá gerar uma polca samba universitária.

Fiz essa análise, pois após ouvir a teoria do cara, que falava que a tecnologia permeava e ditava tudo em termos culturais e comportamentais, questionei aqueles argumentos de que a tecnologia “democratiza” o conhecimento e a cultura, que apresenta os menos favorecidos aos itens que só a “elite” tem acesso.

Por que a tecnologia parece nivelar por baixo e não um pouco mais acima a cultura em geral?

Sempre penso na analogia da alimentação, o acesso a mais alimentos e de modo mais fácil (sem pensar em termos econômicos), tende a puxar para uma alimentação menos saudável.

Sou contra a tecnologia? Quem me conhece sabe que não, mas o fato de gostar e trabalhar a vida inteira com ela, não me tira o questionamento sobre a sua importância e utilidade. Sempre disse que a tecnologia é um amplificador e dá poder a coisas boas e ruins, seja lá o que for isso.

A tecnologia não traz agregado os desejos de seu criador, se crio um novo instrumento musical ele poderá tocar músicas que não gosto.

Vejo muito ressentimento em relação a tecnologia, como se o acesso à computadores, smartphones e wifi fosse levar junto cultura para classes menos favorecidas, como se acesso à essas tecnologias fosse resolver problemas culturais e de ensino. Enquanto isso bibliotecas e diversos outras fontes de cultura gratuita estão vazias e os poucos frequentadores fazem parte de uma “elite” onde não é necessário nenhum centavo para consumir, somente ou pouco de vontade e incentivo.