Justiça impõe regras ao Candomblé? O que isso significa mesmo é…

Recentemente fomos surpreendidos com a notícia que obriga um terreiro de Candomblé “executar as atividades somente nas quartas-feiras e em um único sábado do mês, utilizando apenas um atabaque. Caso as normas não sejam cumpridas, o terreiro está sujeito a multa diária de R$ 100. O documento proíbe, inclusive, a prática de cultos silenciosos fora das datas”[1]. Essa decisão foi proferida pela justiça de Santa Luzia. Sim, é exatamente isso que você acabou de ler.
O que penso disso tudo pode ser resumido em: Como é difícil conviver em comunidade para algumas pessoas, não é mesmo?
Aquilo que é dito no aforismo popular e sacramentado na voz de Bezerra da Silva explica bem o motivo: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Explico meu ponto de vista.
Se não é legal, as elites caem em cima. Se é legal, deturpam a interpretação ou execução das leis em favor dos seus interesses. As comunidades afro-centradas, sejam religiosas como o Candomblé, sejam históricas como os Quilombolas, são provas vivas disso. Simples assim.
O que está em jogo é a mantença do status quo. Algo que de forma lúdica, em primeira instância, e inconsciente, considerando aspectos estruturais, propostas negras como o Candomblé: identificam, denunciam, combatem e revertem de acordo com a capacidade e vontade de cada grupo religioso organizado.
Tenho plena consciência que minha roça de Candomblé permite penetrarmos os 4 níveis supracitados. E recordo das palavras do meu Babá ao lembrar o quanto é difícil de viver em comunidade, ou seja, viver e ser Egbé.
É isso que a sociedade civil ampliada não consegue sequer “cheirar” e que nós temos o privilégio de ouvir e aprender na fonte, na cabeça do Asé.
Minha revolta com as questões como essa da reportagem é grande. Na condição de cidadão brasileiro, mas — principalmente — iaô do Ilè Funfun — é envidar o máximo de esforço e vontade para viver bem em comunidade. Não de forma piegas ou maquiada, isso é bobeira.
Falo de em qualquer atividade que estiver envolvido com irmãos e Irmãs de santo ser honesto e transparente, agindo digna e eticamente. Olho para o passado e com alegria observo que sempre agi assim com tdxs. Vejo hoje o Ase do Candomblé me propiciar potencializar isso. Só posso ter boas perspectivas sobre o nosso destino.
Podemos e devemos demonstrar, pelo exemplo, a esses hipócritas, -paradoxalmente -marginais elitistas que: farinha pouca, Esu reparte, multiplica e divide com tdxs!
Ibá Babá Mi!
Okè Árò Áròlé! Verdadeiro caçador que enxerga múltiplas realidades e as domina!
[1] Fonte: http://justificando.cartacapital.com.br/2017/07/20/justica-impoe-regras-para-cultos-de-candomble-em-mg/