Vale o que está escrito nas redes sociais ou o que fala o pai de santo do seu terreiro?
As redes sociais produzem atualmente uma série de informações. Algo muito positivo, diga-se de passagem. Ocorre que quando nos deparamos com tradições religiosas que são baseadas na Oralidade, muitos conteúdos são tratados com antagonismo. Vale o que está escrito nas redes sociais ou vale o que fala o pai e mãe de santo?
Essa pergunta é fácil de ser respondida e a maioria das pessoas que estão lendo o nosso texto, sendo umbandistas ou dos candomblés, vão responder sem pestanejar: claro que temos que ouvir nosso pai ou mãe de santo! A questão, contudo, não é simples. Se isso é verdade, por que, mesmo assim conteúdos obtidos pela internet diuturnamente são levados para questionar o sacerdote da casa ou mesmo substituir o que eventualmente ele diz para sua comunidade?
Vou relatar a experiência de uma RAB (Religião Afro-brasileira), em especial a chamada Umbanda Iniciática. Em hipótese alguma buscamos tratar essa umbanda como melhor (ou pior) que quaisquer outras denominações afro-brasileiras. O motivo é simplesmente a vivência. Sou filiado e iniciado nela, tendo a felicidade de estabelecer uma relação genuína de aprendizado com meu pai de santo.

Na Umbanda chamada Iniciática, naturalmente a iniciação é algo central e tem toda atenção de seus adeptos. Sendo assim, existe uma hierarquia iniciática muito clara que é observada em 7 graus e 3 ciclos. Indo do mais velho ao mais novo temos:
1. Mestres de Iniciação,
2. Iniciados Superiores,
3. Guardiões do Templo,
4. Artesões do Templo,
5. Neófitos em provas e
6. Neófitos.
O Mestre-Raiz, aquele que conduz o nosso templo iniciático e guardião máximo da tradição, verdadeiro “cabeça de axé”, é reconhecido como Mestre Espiritual na Umbanda Iniciática ou Mestre Tântrico Curador dentro do que chamamos Umbanda Tântrica[1].
Os Iniciados de graus mais elevados, Mestres de Iniciação, reportam-se ao seu Mestre Tântrico Curador que na minha Escola Umbandista é fundada e conduzida pelo Mestre Arapiaga (F. Rivas Neto). Ou seja, em nossa visão iniciática, o Mestre é Mestre porque foi discípulo e sempre será discípulo do seu Mestre estando nesse ou do outro lado da vida.
Nessa relação se constitui uma verdadeira dialética. Mais do que isso, uma abordagem profundamente ética, pois a ética trata de juízo de valores e/ou conceitos como certo e errado. Em nossa caminhada espiritual acreditamos que não temos condições de saber todas as características que formam o caminho a ser trilhado. É o oculto, o desconhecido, principalmente porque falamos do caminho interno, de nos conhecermos profundamente. Algo que a maioria simplesmente não quer (ou será que não aguentaria se buscasse verdadeiramente?).
O Mestre é justamente Aquele que passou por isso com êxito e sabe como nos conduzir de tal forma que encontremos a realização espiritual, a felicidade em última instância. Ele é um sábio e sua sabedoria está manifesta em suas realizações no meio social, mas, principal e profundamente, com sua autorrealização.
Não acho equivocado buscar informações em outros meios. Aliás, nunca vi o Mestre (de fato e de direito) tolher esse direito. Pelo contrário, sempre estimula conhecer mais e melhor. A questão é que não sabemos os próximos passos da Iniciação, o que justifica a busca por um Mestre em um templo iniciático. Em sendo verdade, não posso terceirizar o processo de aprendizado que requer atenção, foco e compromisso. Exige paciência e persistência. Ou seja, leva tempo, porque exige pisar no terreiro, cheirar e respirar radicalmente a vida iniciática nele.
Ao importar conceitos fast foods da internet para nossa Iniciação, estamos criando atalhos ilusórios. Afinal, se essas informações estão corretas e o realizam, por que procurou um pai de santo? Siga seu caminho espiritual por seus próprios passos. Se deu errado, não culpe seu Mestre. Foi você que optou misturar conhecimento de uma fonte viva que é seu Pai de Santo com palavras ao vento publicadas aqui ou ali, nessa ou aquela rede social.
Muito comum observar reclamações de quem está começando que o pai de santo não conta tudo, não abre fundamento ou não dá função para exercer no terreiro. “Por que ainda não incorporo? Se incorporo, por que não dou consulta? Se dou consulta, por que não sou consagrado Pai de Santo?”. Não é raro ouvir de quem faz esses questionamentos afirmações como: está com ciúmes dos meus guias, não quer dar oportunidade, diz que não pode falar porque de fato não sabe (sic).
Convido aos que pensam dessa maneira refletir sobre o seguinte fato. Por que até ontem o pai de santo era bom? Se você já incorpora, por que as entidades que se manifestam em você, reverenciam o pai de santo ou as entidades que se manifestam na coroa do pai de santo?
Sinto uma vontade enorme em continuar o texto, mas não quero mais cansar o nobre leitor. Apenas para encerrar o presente raciocínio sem pretender ser conclusivo, gosto de pensar que blogs, redes sociais, cursos e livros são sempre informativos. São todos válidos se você tem afinidade e vontade de aprender com os mesmos. Contudo, para quem segue a Umbanda, apenas o terreiro proporciona conteúdo formativo. Ou seja, permite formar pais e mães de santo, médiuns, cambonos e demais funções de uma casa espiritual. Livro informa, terreiro forma. Curso informa, pai de santo forma. Batemos cabeça para o peji e não para o youtube. Não é mesmo? E deixa a Gira girar!
João Luiz Carneiro — Mestre Yabauara
Discípulo de Pai Rivas — Mestre Arhapiagha
[1] Sobre a Umbanta Tântrica, sugerimos a leitura atenta da obra “Sacerdote, Mago e Médico” de F. Rivas Neto. Disponível neste link: https://www.archeeditora.com.br/product-page/sacerdote-mago-e-m%C3%A9dico