É Aqui Que a Gente Vive?

Adiei em muito tempo a escrita desse texto, mas os eventos recentes me deixaram com muita coisa ruim entalada na garganta.
No dia 06/09/2018 o candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, foi esfaqueado na região do abdômen e encaminhado às pressas para um hospital. O corte foi profundo, a situação não era nada boa; Bolsonaro, no entanto, já se encontra estável, sobreviverá.
Me entristece pensar que vivo em um país onde entrar para a política pode significar risco de vida. Não é como voltar para a casa de noite e ser vítima de um latrocínio, apesar de o resultado ser virtualmente o mesmo: um cadáver.
Me entristece pensar que existem pessoas que “comemoraram” ou “relativizaram” o fato, que não ligam para o que aconteceu, que vêem graça nisso, que encontrem nessa situação uma forma de cassoar ou desejar o mal para alguém que, no caso, é uma vítima.
Eu não gosto do Bolsonaro enquanto político. O vejo como uma pessoa de ideias rasas e também como o retrato de um péssimo conservador. Mas o que as pessoas pintam dele nunca foi verdade, ter um discurso péssimo não o torna um estuprador ou fascista, no máximo um babaca; um tolo.
Esse processo de demonização das ideologias contrárias é um dos grandes motivos pelos quais o Brasil é como é. Quando se demoniza seu opositor, fecham-se as portas do diálogo, qualquer esperança de encontrar uma solução para os problemas enfrentados pelo país é jogada no lixo.
Se nós temos a pretensão de mudar as coisas na base da bala (ou da revolução armada, sei lá), então estamos no caminho certo. Alguém lembra do caso Marielle? Será mesmo que a gente não consegue traçar um paralelo entre esses dois atentados?
Eu tenho péssimas notícias pra quem comemorou o atentado contra Jair Bolsonaro: Você é um filho da puta tão grande quanto quem comemorou a morte da Marielle (ou quem tocou o foda-se). Não só isso, mas muito provavelmente esse cara acabou de ganhar as eleições.
Pois bem, até quando vocês vão insistir na narrativa polarizadora em que existe no Brasil “o bem e o mal”? Até quando vão agir exatamente igual aos seus “inimigos”? Alguém realmente espera que o que tem sido feito nos últimos 30 ou 40 anos vai começar a dar certo de repente? Vocês ainda compram a narrativa de uma oposição malvada?
Ontem, um candidato à presidência poderia ter morrido ISSO é democracia? Matar quem está errado? Esse talvez seja o pior texto que eu já escrevi, o choque de pensar nisso tudo mata a minha vontade de me expressar de forma coesa.
Enquanto devolvermos tudo na mesma moeda, continuaremos sendo tão maus quanto aqueles dos quais acreditamos estar nos defendendo. Essa alegação faz sentido pra mim, eu gostaria que alguém me dissuadisse disso, aí quem sabe eu estaria em paz, tudo seria muito mais fácil, é só sentar a mão em quem eu não gosto.
Talvez alguém leia isso um dia e ponha a mão na consciência, duvide de si mesmo, sei lá. Infelizmente as pessoas são todas muito ariscas à ideia de que podem não ser tão boazinhas assim, e preferem insistir na mesmice ao invés de se tornarem boazinhas de fato. Recomendo abrir qualquer livro de ética básica (talvez até mesmo um que seu filho de 5 anos compreenda sem dificuldade) e lê-lo sendo honesto consigo.
Sinto que no final das contas, não disse nem 10% do que eu precisava dizer. Vai ver é um tema que exije olhar muito para dentro de si mesmo, o tipo de coisa que não se explica como fazer. Ou vai ver eu só tenho uma escrita muito imatura. Nos dois casos, o texto acaba aqui e eu espero não me decepcionar com isso depois.
