Casa na Árvore.

(“E lá se vai mais um dia”)

Mais um dia de chuva.

A gota que escorre da folha, sua vida é preciosa como prece,

A lágrima que corre da fonte, escorrega com apenas uma regra: não se apresse.

Os primeiros passos da criança; A arte de uma folha rabiscada;

A imaginação como brinquedo; O querer de tocar as nuvens subindo a escada.

A música predileta do surdo; Do ateu, a oração mais comovente;

O discurso do mudo; A paisagem favorita do cego; A dor mais profunda do sorridente.

A gargalhada do bebê; O espreguiçar de um gato;

A dúvida para o sentido da vida; O frio que faz pedir um abraço.

A partida sem despedida; O cheiro que lembra uma história;

A foto de um encontro esquecido; A vontade que nos guiará à vitória.

O inseto que contorna o invisível; A canção lembrando o dia que não aconteceu;

Ver arte numa folha que cai e na neblina que sumiu quando amanheceu.

O cantar desafinado; O voar sem asa da humildade;

A casa de uma árvore; A liberdade desta prisão sem grade.

A espontaneidade da atuação; A gratidão por servir;

Um dia sem se opor ao sol; a esperança sobre tudo o que está por vir.

Um sincero sentimento, explicado; O silêncio antes da declaração;

A busca por aquele amor que para sempre dura; O frio na barriga provocado pelo sopro do coração.

A lágrima que surge, mas não cai; A caridade pura tornou-se rara;

O abraço daquela pessoa; A graça, a coisa mais cara.

O sofrimento que alerta a vida; Essa estrela com a missão de salvar o mundo;

O engatinhar de um propósito de existência; A certeza que o amor é o sentimento mais profundo.

Aquele canto apertado, tão apertado de amor que sempre sobra espaço.

Da simplicidade mais complexa, para tudo que cabe num infinito abraço.

E enquanto olho para o céu, a chuva cai mais uma vez…

O sorriso do seu filho, o olhar…

A pequena fragilidade do motivo mais importante para continuar a respirar.

A expressão emocionada, ao ver aquele brinquedo antigo de infância.

Observar uma criança, sentir a delicadeza, ter vontade de mudar o mundo e saber que ela, assim como todos, somos uma esperança.

Ver nesses pequenos passos a dimensão de uma vida inteira,

Filha, vá… encontre o sentido, agora que precisa deixar para trás essas brincadeiras.

Mas nunca se esqueça de brincar, como o silêncio que contempla os mistérios de tudo.

Dos traços inefáveis que compõe um destino, até as folhas, o vento, formigas… o mundo.

Devemos aprender a sorrir de boca aberta. Sermos fiéis até a morte pela devida atenção de estarmos sempre, sempre alertas.

Sentiremos uma emoção crescer, quando o sol e o mar se casarem.

A lua não é tão grandiosa como o sol, mas possui a vantagem de ser apreciada até os olhos cansarem.

E na superfície do mar vejo, pingos de chuva caindo e formando círculos…

As águas dos rios desaguaram no mar, preparadas para subir, seguindo para o verdadeiro lar.

Vencer o mundo, missão cumprida, bem comprida. Um dia chegaremos neste alto-mar, neste alto-amar.

As nuvens, oceanos que navegam pelo céu. As águas transcenderam,

A luz que há em si, acenderam. Por ela, subiram até a união das nuvens, à espera de seu troféu.

Sobre justos e pecadores, a chuva assim como a luz do sol, vem do alto nos agraciando a vida com sua humilde servidão imensa.

Porque é grande o vosso galardão nos céus: Evoluir é o sentido, servir é a recompensa.

A chuva continua molhando as plantas que se recusam a crescer,

Aquelas que trancaram seu amor com correntes do ego, com o cadeado da maldade que ignora seu verdadeiro ser.

A prece sempre é ouvida, ainda que feita raramente,

Uma alma perdida sempre é atendida quando se faz a oração que, com o molhar da chuva, enferruja aquelas correntes.

A medida da maldade, ainda incalculável: tristeza. A medida do amor, também: o alento.

O mal, uma realidade criada pela ilusão, pela cegueira da inveja, da mentira que torna o espírito denso.

E com o simples ato de abrir as cortinas, a luz nos toca.

E, então… a chuva para de cair.

Uma vida que serviu, por saber que melhor lugar não há, tal amor divino o preencheu tanto, que tornou-se necessidade amar o próximo.

Agora encontra-se em seu leito de morte, só. Olhando para o mundo, tentando crer que alguma coisa mudou. Porém, ele sabe que a morte não passa de um mito diante da verdadeira vida.

Uma vida dedicada por cada um. Cada inspiração, cada expiração por um propósito: (Ser)vir para cres(Ser), Cres(Ser) para (Ser)vir. Apenas… Ser a nossa essência.

E do alto vem um anjo, e diz:

— Vamos!? Você venceu este mundo! — disse o anjo sorrindo, inclinando levemente seu corpo e estendendo sua mão direita.


Lembra daquela lágrima e da pressa que ela não tem? Neste momento ela caiu…

E mesmo ainda com essa crueldade, esse ódio ainda preso na humanidade,

Antes dos segundos restantes desta vida terminarem… olhou para o céu e viu uma estrela…

E abriu-se lentamente um sorriso…

- João Oberlaender.