A Bruxa

Vê, e ao ver encontra, ao encontra muda, e ao mudar pratica o Tantra. Há muito tempo havia uma. E essa uma era a primeira. Ela estava andando pelas florestas, entre as raízes rasgando a terra como as veias velhas do mundo. O manto a envolvia em sua aura mística. O véu de Maya estava terminando de ser formado. Mas as pessoas ainda tinham um pouco de luz em suas íris, a inocência e a ignorância da fé desmedida. Da crença, do mito, da tradição. Toda a certeza era uma massa de argila sobre seus espíritos frágeis, mas fortes. Ela não. Ela estava livre. Ela via o brilho púrpura nas bordas das coisas, escutava o assobio dos segredos das árvores, ouvia o choro das formigas, ela via pelos olhos das corujas. A bruxa se sentou na terra úmida, fechou os olhos e pensou em seu nome, um nome que não podia ser pronunciado. Suas letras formavam todos os cânticos ocultos, da linhagem das eras negras e bem vindas. Seu som invocava espíritos e correntes invisíveis. Era Nyzette Cheveron, Dora Golub, Hipátia, era Kolgrim, Sidonia, Micheé, Helena e Ursulina, era Joana D’arc, Fabiane, era Uppala. Era bruxas do futuro, do passado, era as mulheres que viam através da membrana, as cantoras dos enigmas, as rainhas do obscuro, as inertes manipuladoras do tempo.

Sentou-se encostada à uma sapucaia, que um dia daria nome ao rio que escutava passar perto dali, no fluxo cadente carregando a vida na sua forma mais pura. Ela sabia o quão valioso aquilo era, ela conhecia, na Era de Leão, a ambição escondida no coração dos homens. E sentia já, em toda sua intensidade, o sofrimento e agonia do coração das mulheres que viriam. Ela sabia que aquelas águas translúcidas um dia teriam a cor do barro que a margeia, via a abundância das espécies que um dia sucumbiriam à fome e à luxúria humana. Ela estava acordada. Estava ciente. Vigilante. Sentada fechou os olhos e respirou. Foi o ar entrar em seu pulmão, que sua consciência expandiu. Ela entrou em Appaṇā Samādhi, a perfeita, correta e pura atenção. A concentração exata para a compreensão de todas as coisas. Então compreendeu.

Primeiro sentiu destacar do corpo a alma, como se saísse de um lago de mel. Quando entrou no continuum quântico, ela viu as espirais mandálicas verdes como vaga-lumes pairando no cosmo espiritual. Ela ouvia um singelo e sutil sonar, um assobio bem fino e melódico, a música do mundo invertido, a trilha sonora do universo. Ela andou então, onde o tempo não fazia diferença. Ela via como seria nas Eras seguintes, ela via seus avatares do futuro andando, vivendo suas vidas fantasiadas na realidade invisível que acreditavam estar inseridas. Se preocupando com suas tarefas, suas contas, suas metas e cobranças, enquanto ainda eram inocentes de seus propósitos, quando ainda não sabiam que seria A Bruxa. Ela acompanhou com os olhos suas jornadas, andando como em uma casa de véus de cores púrpuras, róseas, acres, cinzentas e brancas, espiralando, soprando, se dissolvendo e revolvendo as imagens e as formas, transluzindo as lembranças, os futuros e as memórias, a primeira era aquela que não tinha nome.

E as eras passaram, coroas subiram, desceram, castelos esfriaram, as glórias viraram pó e Atlântida afundou. A fertilidade veio, junto à emoção, ao culto, e o matriarcado teve seu suspiro breve e sucumbiu. E veio a era de Hermes, onde tudo que corresponde se transforma, onde os extremos se tocam, os opostos são iguais, o universo como criação da mente, tudo vibra, tudo move, tudo firma e desfaz. E a irrigação das águas do conhecimento floresceu da inteligência o tato para a arte que se manifestou, na matéria que se firmou, no touro que pisou na terra, mirou o alvo, nele se chocou como um estrondo voluptuoso desse mundo atroz. E então veio a cólera, o impulso, as armas, o orgulho e a virilidade. As bruxas porém, eram as mesmas. As mulheres que viam através das eras, que viram a imensa roda da fortuna girar o destino de todos. E então veio Peixes, e a grande expiação humana.

O segredo místico da história contada na beira dos berços, das escolhidas avatares da Bruxa, foi caçado. Elas foram penduradas, enforcadas, massacradas, mutiladas, estupradas, feridas. Mas elas nunca, nunca eram destruídas. Entre as cabeças rolantes no morro da agonia, entre as labaredas de fogo da Inquisição maligna, caminhava sorrindo a Bruxa, cintilante, os olhos abertos, a visão fluindo. Enxergando o breu na alma dos padres. Naqueles malditos pais da escória drenada de essência. A linguagem desfragmenta-se nas linhas psicografas, da onisciência mítica, da orientação embaçada pela fumaça das fogueiras altas de palha e mentira e sofrimento.

Finalmente ela voltou para seu corpo, uma pele etérea e fria mergulhando no mel dos sentidos palpáveis. Abriu os olhos e olhou para a noite que se aproximava. Tinha fome e precisava encontrar abrigo. Seguiu seu caminho pela floresta sinuosa, mas sem medo, e se havia algo que a Bruxa não estava, era perdida. Foi até a primeira aldeia que encontrou, e pediu humildemente por alimento e um lugar longe da escuridão da mata. Acolheram-na, inocentes de sua natureza transcendental, de seu conhecimento de fatos que ocorreriam dali a três mil anos, de sua memória de mil séculos. Ela tomou a sopa da cuia de madeira, o líquido grosso e quente desceu por sua garganta inebriando os sentidos por um momento. A anfitriã sorriu para ela. A nudez daqueles índios era bela, as tintas no corpo desenhavam intrincados padrões, seus olhos emanavam empatia e altruísmo. “Vocês sabem”, disse na língua dos arianos. “Sabemos, agora beba e coma”.

Ela comeu, e bebeu. Aquela noite, e muitas outras que viriam. Ela aprendeu com os índios e os ensinou. Aprendeu como moer ervas para curar dores do tutano dos ossos. Aprendeu como pintar o corpo com os desenhos da proteção de Tupã. Aprendeu como chamar os gigantes do fundo da terra com uma dança secreta que nem os homens viam suas esposas dançarem. E ensinou como conjurar a chuva. Como hipnotizar os animais. Como andar com os olhos fechados. E então seguiu sua jornada.

Aquela vida foi uma das infindáveis vidas vividas nos corpos das mulheres que receberam em seu sangue a marca da Bruxa. De todas as vezes que a feiticeira das feiticeiras passava pela Terra, e de alguma forma mudava tudo. Seus cérebros eram muitos ao longo da história, mas quando despertava, a memória era a mesma, sempre, sempre e sempre. E o tempo passou, e os conhecimentos acumularam-se como uma montanha de tesouros, escondidos na derme da alma da Bruxa. Ela aprendeu a pintar os segredos e os feitiços em símbolos que tatuariam seu sopro vital, seu espírito pairando. Naquela encarnação ela era…

Ananta se arrumava para o sarau. Estava tarde, já perdera basicamente um terço do evento, e algumas das atrações que mais queria. A pressa fazia derrubar as coisas pelo caminho. Tinha que achar a bolsa para pegar o batom, mas tinha que buscar o pão que estava na chapa, ai lembrou que tinha que retocar a unha antes que secasse, e ai apertou a bexiga. Ela correu para o banheiro, derrubando mais coisas pelo caminho. Estava difícil. Ela parou de frente para o espelho e abriu para pegar uma escova de dente, e fechou. E então fechou. E por um momento Shiva parou de tocar o Damaru, o universo desapareceu, os tambores se ajustaram, e então tudo voltou. Ananta não. Sua expressão petrificou. No seu ouvido sibilava a sílaba sutil do mundo espiritual, a música do universo. O Om. Ela ouvia o Om, e via tudo. Todas as memórias do despertar. Acordou então a Bruxa.

A garota respirou fundo, e sentiu uma sensação de dor muito pungente no centro da cabeça. Depois respirou novamente, e sentia como se tivesse acabado de morrer, e ressuscitado após um milhão de anos. Mas no relógio ainda marcava sua hora atrasada para o sarau. Correu e arrumou o que faltava. Seguiu o trajeto distraída, com pensamentos soltos que ela mais escutava do que criava. De longe viu a imensa faixa “Voz das Mina”, em sua terceira edição. Encontrou a galera na praça e se sentou no banco. Bebia alguns goles do vinho barato que adoçava e amargava a boca ao mesmo tempo, tragava algumas vezes a fumaça que doía a garganta e observava. Ela via as pessoas indo e vindo. A música, o movimento dos corpos. As falas jogadas, os sorrisos, as intenções infantis, desveladas. Ela via os olhares em desencontros, ela via as aspirações, as ansiedades, os gozos, as paixões. Não sabia por que, mas sentia-se fora de si, uma presença enxergando, apenas, sem julgar. Mas ela via como nunca vira antes. Ela via nas mulheres correntes do passado arrastando para longe a liberdade que lhes era de direito. Ela via nas garotas a segurança frágil dos valores outorgados como um diagnóstico médico. Ela via nos garotos a presunção e ignorância, a ingenuidade de pensarem estar no controle de algo. Ela via, via, via e via.

Seus amigos saíram para fumar e ela os seguiu. Chegou até a esquina e escutou um sino. O sino entrou profundo em sua cabeça, passou pelo momento exatamente anterior, sentada ali entendendo as coisas à sua volta, e um pouco mais atrás, vindo para a praça absorta, e antes ainda se maquiando, e um pouco antes quando o universo deixou de existir por um segundo para acordar a Bruxa, e antes acordando de manhã em seu quarto, e no dia anterior, e nas semanas anteriores, e nos anos, décadas, séculos, milênios, eras… Ela regrediu, regrediu, e sentiu através de si o cântico sagrado da Antiga Religião. Ela se lembrou da dança proibida que acordava as montanhas, das pinturas que protegem contra o desejo, se lembrou de seu nome impronunciável. E então voltou. Ela se virou e foi resoluta, até o palco do sarau. Todos pararam para vê-la. Todos sabiam, sem saber. Todos estavam envolvidos pela aura de magia, mornos pela quente energia emanando, da Kundalini Shakti explodindo por sua coluna, eclodindo em sua pineal, despertando o sétimo vórtice, pronunciando baixinho, num sussurro só para ela, as oito verdades supremas. E lhe deram o microfone.

“Vou banindo pela Terra e Ar. Vou banindo pelo fogo e mar. Vou banindo, vou banindo pra purificar. Vou banindo, vou banindo pra exterminar. Espiral, Espiral, Espiral. Sugue o que há de ruim. Leve todo mal.”

Do fundo de sua garganta veio a canção, sem que ela tivesse pensado, imaginado, pronunciado. A canção reverberava do seu peito e se espalhava pela mente de cada ser vivente ali. Eles sentiam a energia lhe atravessar, os tambores invisíveis vibrando seus corações.

“Eu sou a deusa. Dos dez mil nomes. Infinitas possibilidades. Todos os poderes dela são meus. Todos os poderes dela estão em mim.”

A Bruxa hipnotizou a todos. Embriagou com a euforia do espírito. Com a força do mistério. Com a sensualidade, com sua feminilidade. Ela hipnotizou sem a lua, tornou-se. Ela hipnotizou toda a rua, compôs-se. Destrancou as portas da Gnose santa, da oculta revelação. Transformou cada mente, vontade, pensamento e respiração. Tocou na membrana da derme etérea de cada ciente são. Do mantra retirou para a deusa a mais sincera e verdadeira oração. Emoção sentiu ao ver descer do céu. A magia de volta às veias, nas mãos que retiram o véu. A Bruxa chegou à Era de Aquário, livre e libertadora, não mais um doce avatar, mais abundante do poder do hoje. Do agora. Da história que acumulou, pilhou de conhecimento e saber. A Bruxa está acordada de novo. E ela vai encontrar você. Ela vê, e ao ver ela encontra, ao encontrar ela muda. Para salvar todas as mulheres, para libertar todas as bruxas.