Velho Rádio Empoeirado

Ele estava lá, dentro do armário guardado. Na solidão do entardecer o busquei.

Tosse e espirros são o prelúdio de seu despertar. Mau o cumprimento e ele começa a falar, falar, falar e falar a tossir e a espirrar.

  • Velho Rádio Empoeirado, há quanto tempo estamos juntos?

Sei a resposta, mas quem disse que ele me responde? Limpa seu paletó e abre a matraca cheia de abobrinhas, cantarola e ri.

  • Fale o que eu quero! Estamos há 12 anos juntos, lembro quando chegaste lá em casa, de paletó novo, cheio de botões brilhantes e e agora está aí, todo velho e empoeirado. Velho Rádio Empoeirado, conheceste todos os meus amores, todas as minhas paixões, me consolaste nas horas tristes, me alegraste nas felizes. Me fez companhia quando sozinho estava. E agora te calas frente a mim?

Ele tinha passado um ano e meio calado, no canto do armário, acumulando poeira e mudo.

  • Agora desembestou em falar e falar, sem ao menos sintonizar na estação que eu quero!
  • Nem meus CDs tu toca! Nem minha rádio tu sintoniza, inútil! Não tens mais antena, teus botões estão estragados, traste!

Depois de cantarolar músicas e sacudir seu palito, finalmente dirige-me o olhar. Me disse gravemente:

  • Quem me atiraste naquele armário foste tu! Eu que acompanhei todos teus amores, tua companhia e tua solidão, agora queres que eu faça o que tu queres? — ingrato!

(Silêncio)