A concentração dos media leva a que as críticas aos filmes sejam tendenciosas?

A questão já tem barbas, fazendo levantar todo o tipo de teorias da conspiração. Nos últimos vinte anos, assistiu-se a todo um conjunto de aquisições e fusões sem precedentes dentro do universo dos media (Portugal não ficou incólume), o que levou ao surgimento de grandes conglomerados capazes de concentrar diferentes empresas, da indústria do entretenimento ao jornalismo, do cinema à televisão, tudo debaixo do mesmo tecto.

Exemplos não faltam. A News Corporation, um dos maiores grupos de comunicação social a nível global, não só detém o estúdio de cinema 20th Century Fox, como a cadeia televisiva Fox e o diário económico Wall Street Journal. Mas a lista parece não ter fim. Para o ano fiscal de 2014, a empresa anunciou receitas na ordem dos 6,9 mil milhões de euros.

Outro dos gigantes, mas com um apetite ainda mais voraz, é a Time Warner. Só em 2013, o valor somado das suas receitas ascendeu a uns vertiginosos 24 mil milhões de euros. Debaixo das suas mãos estão nomes bem conhecidos como a da revista Time, o canal CNN, a Warner Bros, a HBO, a New Line Cinema ou a DC Comics. Basta atentar no número de subsidiárias para ter noção da sua dimensão e poder.

Chegados aqui, será que existem razões para torcer o nariz às críticas e avaliações que costumamos ler nas nossas publicações ou websites preferidos? Quem nos diz que não nos estão a vender gato por lebre, só para nos convencer a ir ver um filme que foi produzido por uma das subsidiárias à qual pertence a casa-mãe? E não existirá a tendência para depreciar ou atirar para debaixo do tapete (omitir) alguns dos filmes ligados ao conglomerado concorrente?

Stefano DellaVigna, da Universidade de Berkeley (Estados Unidos), e Johannes Hermle, da Universidade de Bona (Alemanha), respondem que não a ambas as dúvidas, num trabalho de investigação que publicaram em Outubro. Debaixo da lupa estiveram, precisamente, as publicações dos grupos News Corporation e Time Warner, em busca de possíveis sinais de enviesamento nas críticas que nelas foram publicadas. Contudo, não foram encontrados conflitos de interesse na classificação que davam.

As conclusões parecem desafiar algumas das percepções mais negativas que temos, pois é fácil pensar que quem escreve e avalia um filme vai ser simpático para quem, ao fim e ao cabo, lhe paga o ordenado no final do mês. Mas porque não acontece isto? Segundo DellaVigna e Hermle, a justificação está no medo de que a reputação das publicações, junto do público, seja ferida. “Concluímos que a reputação dos media, nesta indústria competitiva, actua como uma poderosa força disciplinadora”.

Trocado por miúdos: tanto no papel como na Web abriram-se as portas a um número crescente de críticas e opiniões, espalhadas por mil e uma fontes, pelo que basta as pessoas notarem que se está a cozinhar uma opinião favorável, em relação a um qualquer filme, para logo se mudar para uma fonte que acreditamos ser mais fiável. Simples e directo.

Todavia, e porque se trata de uma área pouco investigada, serão necessários mais estudos para confirmar estes resultados. Não obstante, o debate está aberto.

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