A leitura no ecrã

Do papel para o digital

(Texto originalmente publicado na revista Super Interessante de Maio de 2014)

Tradição e inovação. Quase quinhentos anos depois de Gutenberg, o ecrã digital tornou-se num rival de peso do livro impresso.

O mundo digital, com os seus ecrãs e as ligações em rede, veio criar uma nova forma de ler que é diferente da dos livros e jornais em papel. Perante o novo paradigma, surge toda uma cultura e um conjunto de competências que urge aprender, com muitas potencialidades e desvantagens à mistura. Já agora, a mudança vai-nos tornar mais estúpidos? Os neurocientistas respondem.

Johannes Gutenberg, o pai da imprensa de caracteres móveis, ficaria espantado com a diversidade de aparelhos e gadgets que, hoje em dia, usamos para ler. Dos computadores aos smartphones, passando pelos tablets e pelos leitores de livros digitais, existe de tudo um pouco, tecnologias tão dissemelhantes do livro analógico que o próprio ato de leitura acaba por ser diferente, quanto mais não seja porque, além de ser possível interagir com o texto, também podemos fazê-lo com outros leitores, em tempo real. Da mesma maneira que a oficina de Gutenberg revolucionou os últimos 500 anos, ao possibilitar a produção em massa do conhecimento, também os ecrãs digitais são vistos por muitos como uma poderosa fonte para a sua disseminação, embora esteja bem longe de se ficar por aí. É o novo paradigma.

A leitura numa plataforma digital tem a grande peculiaridade de ser disponibilizada através de um ecrã, o que permite aliar o texto a imagens, vídeos ou ficheiros de som. Porém, o que a torna cativante e radicalmente diferente é a possibilidade de manter o leitor, assim como o próprio texto, ligado em rede, através da internet, o que permite navegar de texto em texto ou mudar de uma obra para outra com apenas alguns cliques. A juntar a isto, as edições eletrónicas beneficiam de uma maior capacidade de armazenamento de informação, seja de livros, jornais ou revistas digitais, com a sua produção e disseminação a serem também muito mais rápidas.

Mais literacia e cultura. Na opinião de José Afonso Furtado, as pessoas não estão informadas sobre os desafios e exigências de ler num ecrã digital.

Contudo, existe uma grande e subtil diferença que a muitos passa despercebida: “O que acontece, sobretudo, é que, enquanto a leitura tradicional permite ler diretamente os textos, para se ler no digital já precisamos de uma mediação tecnológica.” Quem o diz é José Afonso Furtado, antigo presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura e, até há pouco tempo, membro do conselho consultivo do programa Leitura Digital, da Fundação Calouste Gulbenkian, além de autor de várias obras sobre esta nova realidade, como O Papel e o Pixel (2007) e Uma Cultura da Informação para o Universo Digital (2012).

A grande questão que se levanta é que “o mundo do livro sempre foi estranho à mediação tecnológica, nunca precisou dela, ao contrário do que acontece com a música, o cinema ou a televisão; neste momento, para lermos um livro que esteja numa edição digital, precisamos de um descodificador (ou transferidor) que passe a linguagem de código (da máquina) para a linguagem alfanumérica”. Para tornar tudo ainda mais complexo, há que contar com o facto de esta mediação ser diferente consoante o aparelho de leitura que se use.

Essencialmente, o leitor digital é transposto para um ambiente que, durante o monopólio do livro e dos jornais em papel, não existia. “Em vez de a pessoa estar apenas confortavelmente a ler, está agora confrontada com um computador, as redes, o ecrã, a interface da máquina, a web e as suas diferentes formas ou serviços. Ou seja, além de saber ler signos alfanuméricos, é também preciso perceber que o ambiente em que se está é digital e que, além do mais, às vezes não tem qualidade”, salienta. “Tal como referiu Bernard Stiegler [filósofo francês], a leitura no ecrã é uma leitura industrial, que é como quem diz, não foi pensada para ser lida.”

Aprender a ler no digital

É inegável que a era da internet veio mesmo para ficar, e é com essa realidade em mente que se tenta delinear uma estratégia para ler no ambiente que criou. Tal como referem os sociólogos Gustavo Cardoso e Tiago Lima Quintanilha, em A Sociedade dos Ecrãs (2013), ao mesmo tempo que existe uma aposta cada vez maior em tecnologias assentes em ecrãs, vemos também uma tendência para os processos e ferramentas de mediação dependerem dessa “ecranização”, sendo ambos um “resultado do crescimento sustentado do modelo Web”.

Basicamente, um ecrã que esteja ligado à rede propicia uma experiência de leitura que recorre ao multimédia, à interatividade e à existência de hiperligações. Com o advento da Web 2.0, a norma passa igualmente por ter o leitor a produzir e publicar conteúdos, seja na blogosfera, nas redes sociais ou através de um website que tenha criado.

Mexer sem pensar. É em casa que os mais jovens melhoram as suas competências junto das tecnologias digitais. Contudo, os especialistas advertem para a necessidade de adquirirem uma capacidade crítica e reflexiva.

Perante este novo ecossistema, vem ao de cima a necessidade de uma cultura digital que dote o leitor de uma capacidade crítica e reflexiva, de modo a saber procurar e lidar com a informação que tem em mãos, não bastando dominar a vertente técnica das tecnologias que se usam: podemos saber guiar um automóvel, por exemplo, mas se nos faltar a capacidade de analisar cada situação que se nos depara na estrada, o erro e o desastre são quase certos.

Para José Afonso Furtado, “com a velocidade a que as coisas estão a mudar, as pessoas têm de ter uma cultura da informação que seja suficientemente flexível e ágil para se habituarem a lidar com problemas inesperados”. Acima de tudo, “a prática da leitura digital implica novas competências para a apropriação do texto”, entre elas: a capacidade de navegar por entre os dados a que temos acesso; a marcação daquilo que verdadeiramente nos interessa; saber copiar os dados que queremos; fazer uma boa prospeção, capaz de encontrar com precisão o que necessitamos; realizar anotações às informações que reunimos; armazenar de forma organizada os dados que usamos, para a eles recorrermos quando necessitarmos (memória); e aprender a publicar a informação que reunimos.

À margem. Saber anotar a informação que encontramos é uma das competências essenciais para uma boa leitura digital. O mesmo acontece no papel impresso, como atesta este exemplar de O Livro das Maravilhas, de Marco Polo, anotado por Cristóvão Colombo.

Textos sem fronteiras

Como explicou o filósofo e filólogo francês Michel Foucault, “as fronteiras de um livro nunca estão claramente definidas”, pois existe, dentro dele, todo um “sistema de referências a outros livros, outros textos, outras frases: é um nó dentro de uma rede, uma rede de referência”. Nunca estas palavras se revelaram tão apropriadas como hoje.

Douglas Engelbart, um dos pioneiros da indústria da computação, deu um importante contributo para toda esta história na década de 60 do século passado, ao prever um futuro em que seria possível aceder, instantaneamente e por via de ecrãs, a qualquer texto. A sua visão contemplava um mundo de interligações, passíveis de serem criadas e partilhadas por qualquer indivíduo, bastando usar um computador: era o mundo do hipertexto e a sua utopia consistia em aumentar o intelecto humano.

Explicado de forma sucinta, este conceito designa um conjunto de documentos (de texto, imagem ou noutro formato qualquer) que estão associados entre si, organizados numa estrutura em rede e de forma não-linear, sem uma hierarquia e desprovidos de uma raiz. Atualmente, para navegar no interior deste mundo, tudo o que temos de fazer é clicar nas hiperligações que vemos nas páginas digitais. No entanto, foi preciso esperar até à década de 80, dominada pelo advento do computador pessoal e pelo desenvolvimento da internet e da Web, já nos anos 90, para estarem reunidos os ingredientes capazes de colocar em marcha, pelo menos de forma parcial, o sonho de Engelbart.

Velhos hábitos. Os antigos rolos manuscritos, como o Torá da religião judaica, influenciaram a maneira como “deslizamos” e lemos muitos dos textos digitais.

Com tudo isto, a escrita e a leitura linear, tão características do texto manuscrito e impresso, cedem espaço à sua versão não-linear, potencializada pelo hipertexto e pelas hiperligações digitais, permitindo fácil acesso a outros documentos ou pedaços de informação. A leitura linha a linha, em que somos compelidos a ler do início ao fim do texto, passa a ter como rival uma outra que é fragmentada. Qual a vantagem?

Apesar de se saltar de um pedaço de informação para outro, temos um tipo de leitura que pode ser construído à medida de cada leitor, moldado por ele, com o caminho percorrido a ser determinado segundo aquilo que quer saber e ler. O revés? O grande problema é que o hipertexto parece totalmente desadequado para uma leitura de profundidade, limitando a capacidade de produzir pensamentos complexos enquanto se lê.

Contudo, os defensores de uma leitura mais tradicional podem ficar sossegados: aquilo que se espera é que estes dois modelos (linear e hipertexto) possam coexistir em simultâneo. Tudo dependerá daquilo que se pretende ler e para que fins, escolhendo-se em seguida o modelo que mais se adequa ao caso.

Primórdios. Actualmente, os leitores digitais podem clicar em hiperligações para aceder a informações que estão associadas ao texto que lêem. Na imagem, o protótipo de uma consola de hipertexto desenvolvida em 1969, na Universidade de Brown, nos Estados Unidos.

Ficaremos mais estúpidos?

Em 2008, o tecnólogo Nicholas Carr escreveu na revista norte-americana The Atlantic um artigo devastador sobre os efeitos nefastos que a internet teria sobre a cognição humana. O texto, com o sugestivo título de “Estará o Google a Tornar-nos Estúpidos?” (Is Google Making Us Stupid?, no original), numa referência à forma desfragmentada como acedemos à informação através deste motor de busca, acabou por ter uma enorme repercussão na blogosfera e em muitos círculos científicos. Estas ideias controversas foram depois expandidas no livro Os Superficiais — O que a Internet Está a Fazer aos Nossos Cérebros (2010), no qual Carr continua a defender a tese de que a leitura digital está a diminuir a nossa capacidade de concentração e contemplação.

Segundo o autor, a mente linear, calma, focada e atenta, que brotou da leitura linear, “está a ser afastada por um novo tipo de mente que quer, e precisa, de receber e distribuir informação em pequenos soluços descoordenados, muitas vezes sobrepostos”, assente na lógica do “quanto mais rápido, melhor”. As reprimendas não se ficam por aqui: “Ao combinar vários tipos de informação num único ecrã, a internet multimédia ainda fragmenta mais os conteúdos e perturba mais a nossa concentração.”

Muitas dúvidas. Sim, estamos a ficar mais estúpidos devido à internet, diz Nicholas Carr. No entanto, os seus críticos afirmam que este fez uma escolha seletiva das investigações científicas que mais interessavam aos seus argumentos.

Para justificar estas observações, Carr recorreu a vários estudos no campo das neurociências que demonstram como os caminhos neuronais do nosso cérebro, devido à sua plasticidade, estão a ser reconfigurados por causa do intenso uso que fazemos dos media digitais. Dito de outro modo, estamos a mudar neurologicamente, e para pior, à medida que abandonamos a leitura tradicional em prol da leitura digital.

As reações não se fizeram esperar. Uma das maiores críticas prende-se com o que parece ter sido, por parte do autor norte-americano, uma escolha seletiva das investigações científicas que mais interessavam aos seus argumentos. A questão não pode ser vista somente a preto e branco, existindo muitas áreas cinzentas que convém iluminar.

O neurocientista Jonah Lehrer, num artigo publicado no New York Times, em 2010, não nega que os nossos circuitos neuronais estejam a mudar por causa da internet e dos media digitais (quanto mais não seja porque tudo o que nos cerca pode ter esse efeito), mas coloca em causa a ideia de que o resultado seja para pior, contrapondo-a com alguns estudos que indiciam o contrário.

É o caso de uma investigação feita em 2009 por um grupo de investigadores da Universidade da Califórnia, na qual se conclui que fazer buscas através do Google leva a uma maior atividade do córtex dorsolateral pré-frontal, a zona do cérebro responsável pela atenção seletiva e pela capacidade de deliberar uma análise, precisamente aquilo que Carr afirma estar a desaparecer. Isto poderá significar que estas áreas, responsáveis por nos tornar mais espertos, estão a ser exercitadas.
Google Smart. Para Jonah Lerer, fazer buscas no Google não nos torna burros, muito pelo contrário.

A lei do menor esforço

Em 2011, coube a uma equipa de investigação das universidades de Columbia, do Wisconsin em Madison e de Harvard, todas dos Estados Unidos, debruçar-se sobre o assunto, tendo confirmado que as funções cognitivas do cérebro humano se vão alterando à medida que aumenta a nossa interação com as ferramentas de busca da internet.

De acordo com os autores do estudo, “estamos a tornar-nos simbióticos com as ferramentas dos nossos computadores”, enrolados num sistema interconectado que não para de crescer, em que a tónica está mais em lembrarmo-nos do sítio onde podemos encontrar a informação que queremos do que propriamente em recordar a informação em si mesma.

“As pessoas, no digital, não têm nem persistência nem paciência, e este é um dos grandes problemas”, identifica José Afonso Furtado. Além disso, “a maneira como nos posicionamos face a um ecrã é diferente de como nos colocamos frente a um livro, desde a postura física até às habilidades de que precisamos para lidar, à vontade, com a informação que aí surge”. O mais preocupante acaba por ser a “falta de informação das pessoas” sobre estas matérias.

Para complicar, há dados que vêm tornar tudo ainda mais difícil de destrinçar. Por exemplo, vários inquéritos e experiências laboratoriais demonstraram que quando lemos num ecrã fazemos um esforço cognitivo maior, o que poderá desviar os recursos mentais de que a nossa capacidade de compreensão necessita.

Foi essa a ilação que Anne Mangen, da Universidade de Stavanger, na Noruega, retirou em 2013, ao fazer um estudo sobre uma pequena população de alunos: uma vez que os livros em papel são mais simples de navegar do que muitos documentos digitais, como é o caso de um ficheiro PDF, isso implicará uma maior facilidade na absorção da informação que está contida no texto, já que a carga cognitiva é menor e isso liberta os recursos mentais necessários para uma melhor compreensão.

Outros estudos avisam ainda que a luz emitida pelos ecrãs dos smartphones e dos tablets, por exemplo, fazem cansar a visão. Para contrariar o problema, a tinta eletrónica, usada em alguns leitores digitais, que reflete a luz ambiente, como se fosse uma folha de papel impresso, poderá ser a solução, embora restrinja, e em muito, as potencialidades cromáticas e multimédia de um ecrã.

Outras pesquisas indicam a necessidade de nos focarmos na atitude das pessoas, pois ela muda conforme a tecnologia que se está a usar. De acordo com esta teoria, os leitores, quer se apercebam ou não, utilizam um computador ou um tablet num estado de espírito menos propício à aprendizagem, algo que não é tão vincado quando se trata de um livro.

Aborrecido. A tinta eletrónica, usada em alguns leitores digitais, reflete a luz ambiente, como se fosse uma folha de papel impresso. Poderia ser uma alternativa à luz emitida pelos ecrãs dos smartphones e dos tablets, que fazem cansar a visão, mas acabam por restringir, as potencialidades cromáticas e multimédia de um ecrã.

Portugueses leem pouco

Qualquer discussão sobre as vantagens e desvantagens de ler em suportes digitais arrisca-se, por agora, a eternizar-se. Em 2013, a revista Scientific American abordou o assunto e constatou que, antes de 1992, a maior parte dos estudos científicos concluíam que as pessoas, nos ecrãs, leem mais lentamente e de modo menos compreensivo. Acontece que as investigações publicadas depois desse ano já não são tão incisivas quanto a esses aspetos, pautando-se por uma grande inconsistência de resultados. Uma pequena maioria confirma as conclusões anteriores, mas a quantidade de estudos que encontram apenas pequenas diferenças entre os dois tipos de leitura (em termos de rapidez de leitura e compreensão) tornou-se quase tão grande.

Apesar de a esmagadora maioria dos indivíduos preferir ler em papel, por proporcionar uma experiência mais profunda e intensa, vários inquéritos recentes mostram que as atitudes estão a mudar, com as diversas plataformas de leitura digital a disseminarem-se pelo público mais jovem, quanto mais não seja porque estas também permitem socializar em rede e partilhar informação.

O choque entre o novo e o velho paradigma pode causar crispação, mas o grande desafio, provavelmente, não estará aqui, pelo menos para os portugueses. Segundo um dos eurobarómetros da Comissão Europeia, datado de 2013, sobre o acesso e a participação cultural dos cidadãos da União Europeia, apenas 40 por cento dos portugueses afirmaram ter lido um livro (em papel ou não) nos últimos 12 meses. O número causa vergonha, quando se constata que é o valor mais baixo dos 28 países em análise. Pior: a principal justificação para não o fazerem foi a “falta de interesse”, um argumento que destoa de todos os outros estados-membros, em que a principal queixa é a “falta de tempo”. Logo, parece não haver dúvidas de que a maior dor de cabeça, em Portugal, não reside numa hipotética escolha entre o analógico ou o digital. Poderá uma maior cultura digital conseguir inverter a tendência? Fica a questão.

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