As vísceras também guardam memórias


«Com o tempo, fui-me convencendo de que não conservamos as coisas que recordamos apenas na cabeça, não ficam todas na mesma zona do cérebro: fui-me convencendo de que também outros órgãos têm memória. O fígado, os testículos, as unhas, o tórax. Quando ouvimos palavras definitivas, é nelas que ficam presas. E, quando essas partes recordam o que ouviram, enviam para o cérebro aquilo que gravaram. Cada vez mais me dou conta de que recordo com o estômago, que armazena o belo e o horrendo. Sei que é aí que estão certas recordações, sei-o porque o estômago mexe-se. E, por vezes, também a barriga se mexe. É o diafragma a criar ondas: uma lâmina subtil, uma membrana aí instalada, com as raízes no centro do nosso corpo. É daí que tudo parte. O diafragma faz ofegar, arrepiar, embora também mijar, defecar, vomitar. É daí que parte o impulso durante o parto. E também tenho a certeza de que há lugares que reúnem o pior: que conservam o desperdício. Não sei onde fica dentro de mim esse lugar, mas está cheio. E agora está saturado, de tal forma repleto que nada mais lá cabe. O meu lugar das recordações, ou melhor, dos desperdícios, está farto. Poderia parecer uma boa notícia: já não há espaço para a dor. Mas não é. Se os desperdícios ficarem sem sítio para onde ir, começam a enfiar-se também onde não devem. Cravam-se nos lugares que reúnem memórias diferentes.»

Roberto Saviano; “ZeroZeroZero”