Solidão “Parda”

João Pedro Pereira
Nov 7 · 17 min read

Esse sou eu.

Bisneto de uma mulher negra e nordestina e de uma mulher branca e nordestina por parte de mãe. Bisneto de uma mulher negra e de uma mulher branca com ascendência portuguesa por parte de pai. Bisneto de dois homens negros, de um branco e nordestino e de outro branco. Neto de duas avós negras e de dois avôs brancos. Fruto de um casamento que carrega toda essa miscigenação, onde minha mãe é branca, de olhos claros e traços caucasianos, e meu pai, até minha grande descoberta de identidade, era branco, diante dos meus olhos — e também diante dos olhos dele — repletos de falta de conhecimento. E eu sempre me entendi como sendo um homem branco, mesmo que nunca me encaixasse nesse padrão.Primeira foto: Eu e meu pai; Eu e minha mãe, Eu e minha avó; Eu e minha mãe. Segunda foto: Eu, minha avó paterna e minhas primas; Eu; Eu criança; Eu minha mãe e Aquiles (meu cachorro)

Primeira foto: Eu e meu pai; Eu e minha mãe, Eu e minha avó; Eu e minha mãe. Segunda foto: Eu, minha avó paterna e minhas primas; Eu; Eu criança; Eu minha mãe e Aquiles (meu cachorro)

Acredito que minha primeira crise de identidade aconteceu no ano de 2010, quando eu ainda morava em Magé, na Baixada Fluminense. Essa crise apareceu diante de mim quando as bandas de pop rock no Brasil começaram a fazer muito sucesso com o público adolescente. Essas bandas eram marcadas principalmente pelas cores extravagantes de suas roupas e pelos seus cabelos. E foi aí que começou o problema. Como eu, que admirava essas bandas, ia me apropriar desse estilo de penteado, se meu cabelo nunca ia ficar daquele jeito (liso e escorrido)? Lembro como se fosse hoje, de eu passando horas durante as semanas pesquisando sobre qual tipo era meu cabelo, torcendo para que eu descobrisse que ele fosse no mínimo "liso ondulado" e desejando um dia ter um cabelo liso. A partir daí, começaram as ondas de baixa autoestima.Nessa época eu nem me importava tanto em ter meu primeiro beijo ou então ter uma "namoradinha", eu só queria ter uma identidade, assim como qualquer criança ou pré-adolescente. E como eu ia me sentir parte de alguma coisa, se minhas referências de estilo, de beleza e de expressão, não tinham nada a ver comigo? Como eu sozinho, com 10 anos, iria conseguir lidar com isso? Bom, para começar, eu alisei meu cabelo. Pedi à minha mãe, e ela concordando que eu iria ficar bonito, permitiu. Até que fiz a escova e finalmente me senti bonito. Depois disso, meu desejo por ter a pele mais clara aumentou, meu desejo por ter um nariz mais fino aumentou, meu desejo por ter um cabelo loiro aumentou e meu desejo por ter lábios menos carnudos aumentaram também, ou seja, meu desejo de ser algo que eu não era aumentava cada vez mais.

Aumentando minha autoestima com essas mudanças estéticas consegui mais amigos e entrei em um grupo de pessoas com o estilo e gostos parecidos, mas de certa forma, eu ainda me sentia insuficiente. Me lembro vagamente de uma ocasião com algum parente, onde eu falava sobre meu problema de aceitação com meu nariz, e ele me disse para, no dia a dia, apertar minhas narinas para que ele ficasse fino. E o que eu fiz? Isso mesmo! No meu dia a dia comecei a tentar afinar meu nariz, e eu te juro que achava que estava fazendo diferença.

Os anos foram se passando e cortei meu cabelo algumas vezes, mas sempre me incomodava com a forma natural dele, e em alguns momentos continuei com o cabelo alisado, achando que aquilo ali seria quem eu era, mesmo que no fundo eu soubesse que não. Até que em 2012, me mudei para a Barra da Tijuca — bairro nobre localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro — ,onde as crises de identidade voltaram, só que dessa vez vieram muito mais fortes devido ao enorme contraste social, econômico e comportamental entre o atual lugar onde eu morava (Barra) e Magé, lá na Baixada.

Bairro nobre, maioria branca e de alto poder aquisitivo. Em sala de aula, já era extremamente visível esse contraste, haviam apenas dois negros numa sala de 40 alunos, e no máximo 6 na escola toda. Enquanto, nos meus antigos colégios na Baixada Fluminense existiam mais alunos negros (nem tantos). Logo, meu novo círculo de amigos eram apenas garotos brancos e garotas brancas. A maioria dos garotos com cabelos longos, lisos, pele clara e traços finos. Então, de certa forma existia uma barreira estética e cultural entre eu e esses meus amigos. E para eu consolidar cada vez mais uma amizade com essas pessoas eu tinha que me igualar a eles, já que era eu quem estava por fora. Comecei, então, a deixar meu cabelo crescer para descolori-lo e me sentir de uma vez por todas parte do meio em que eu vivia, só que eu tinha muita vergonha da fase de crescimento dele, pois como eu costumava dizer: "ele não cresce pra baixo, cresce pra cima", então durante essa fase eu nunca me sentia confortável, pois bastava eu entrar na sala de aula com ar condicionado ligado que meu cabelo já começava a armar e ficar “bagunçado”.

Olha a cara de nerd KKKKK. Essa foto foi na minha formatura do Ensino Fundamental, e eu estava com a auto estima lá embaixo por conta do cabelo, daí achei que devia alisar ele uns dias antes.

O tempo se passou e acabou que eu descobri uma nova paixão: o rap, e foi em 2013 que comecei a, de fato, me interessar e buscar entender o que era esse tipo musical, que por mais que já conhecesse diversos artistas, eu não era muito ligado nesse meio. Na época eu até que ouvia aqueles grandes sucessos do hip-hop, como 50cent, Jay-Z, Chris Brown, Akon e The Black Eyed Peas, mas nunca fui ligado ao que realmente significava a cultura do hip hop no mundo e nem no Brasil. Comecei então, a ser fissurado em rap nacional, ouvindo Emicida, Funkero, O Rappa, Marcelo D2, Racionais, Felipe Ret e outros artistas que estavam bombando na época. Fiquei tão movido com tantas letras de questionamentos sobre a vida e protestos que resolvi fazer o mesmo e começar a escrever. E consequentemente me revoltar com tudo que acontecia ao meu redor. Fui me esclarecendo aos poucos sobre questões políticas, religiosas, sociais e entendendo como as coisas aconteciam no país em que eu vivia e percebendo as enormes desigualdades. E foi conhecendo mais a cultura hip-hop e ouvindo, principalmente, Mano Brown, que me aprofundei um pouco mais sobre a questão racial no Brasil, daí comecei mais uma crise de identidade, mas essa foi maior do que aquela citada no começo, pois comecei a entender que aqui havia uma complexidade do que é ser negro. Entendi o quanto o rap fazia parte da cultura negra e o quanto essas discussões estavam presentes nas letras. E pensando sobre à que eu pertencia, me veio um vazio, pois eu nunca tinha pensado sobre essas questões, mas sempre me sentia deslocado da maioria das pessoas à minha volta. E foi nesse momento em que eu comecei a perceber como as coisas aconteciam ao meu redor e que tinham a ver comigo. Lembrei, por exemplo, que ninguém nunca me chamava de branco, a não ser alguns antigos colegas da rua onde eu morava em Magé, que são negros, e meu primo que também é negro. Lembrei também que eu nunca fui chamado de negro, pois quando vinha tal assunto, eu escutava coisas do tipo: moreno, pardo, mulato, marrom, bronzeado, café com leite e outros que não me vem à cabeça. Então, enquanto eu me questionava sobre quem eu era, nunca me sentia "branco o suficiente" para ser branco, nem "negro o suficiente" para ser negro, logo, não me sentia alguém importante, com nada para me identificar.

Brincadeira, calma! (Sem essa de “racismo reverso”)

Eu tinha 13 anos, mas eu me sentia alguém com muita coisa pra falar e pra questionar, então ao menos, consegui essa liberdade e espaço escrevendo letras contra todas as formas de preconceito, contra corrupção, contra o capitalismo e sobre questionamentos religiosos, junto à um de meus melhores amigos, o Alfredo. E de certa forma, toda essa fase de revolta me ajudou a questionar muitas outras coisas, ainda mais pelo enorme contraste entre o lugar onde eu morava antigamente e o atual.

Bom, os anos se passaram, fui amadurecendo minhas ideias e construindo meus valores e ideais aos poucos. Era 2015, quando eu exalava uma alta, mas falsa autoestima, onde me achar o melhor, mais foda e mais legal, era uma defesa para minhas fraquezas e inseguranças. Foi um ano conturbado, sempre arrumava problemas no colégio, querendo arrumar brigas na rua, tentando resolver tudo à base do grito e violência. Fui ao psicólogo por um tempo, mas não adiantou tanta coisa, pois eu ainda acreditava que tudo que eu fazia era correto.

Lembro que nessa idade, todas as dúvidas que eu tinha sobre questões raciais, ou eram pesquisadas na internet ou por reflexões individuais, pois eu nunca tive coragem de perguntar para alguém, com medo de sofrer algum tipo de ridicularização ou descaso, como já havia acontecido uma vez. Mas foi na sala de aula que eu, de fato, dei uma pequena esclarecida sobre quem eu sou.

Nas aulas de História, ministradas pelo professor Pablo, que comecei a ver sentido nas coisas, principalmente quando começamos a estudar história da África, seus processos de colonização, sua diáspora e além disso, estudos sobre o Brasil, seus processos de colonização, miscigenação e sobre a identidade negra no território brasileiro. Ou seja, os "pingos"começaram a serem colocados nos "is". Aos poucos, expressava a dúvida sobre minha identidade para alguns amigos e raramente eu conseguia ter a coragem de me afirmar negro, e quando me afirmava, sentia a necessidade de explicar o porquê, então na maioria das vezes, eu discorria rapidamente sobre a miscigenação no Brasil, os processos de embranquecimento da população, sobre minha família e principalmente explicava que também existiam negros de pele clara, mas que, de fato, eram menores alvos de racismo e demais preconceitos, e nunca deixando de afirmar que não eram privilégios.

Iniciei uma conversa sobre esses assuntos com um grupo de colegas de classe, onde nele, uma garota, também negra e de pele clara, me deu um pouco da voz que eu precisava, pois ela se afirmava negra sem qualquer dúvida ou medo, e quando apresentei questionamento sobre mim, ela esboçou uma reação do tipo: "Do que você tem dúvida?".

Eu lembro que aquilo liberou um peso das minhas costas, pois era alguém que tinha as coisas tão esclarecidas me esclarecendo algo que foi uma grande dúvida na minha vida. Sem contar que esse mesmo professor de História, em um dia, dentro de sala de aula, em que estávamos falando sobre como questões sociais afetavam os negros, contou quantos negros havia na sala. E por minha surpresa ele contou comigo. Incrível como apenas um dedo apontado me ajudou tanto. E pelo que me lembro eu esbocei uma reação assustada, e ele (professor) disse: Sim, João.

A partir daí foi foda demais começar a perceber quem eu sou. Comecei a me afirmar com mais coragem, comecei a ter um pouco mais de alto estima (foco no “um pouco”) e a estudar um pouco mais a fundo a identidade e história negra. Mas eu ainda não me sentia parte disso tudo.

Alguns anos se passaram, e com eles foram surgindo novas descobertas, aprendizados e amadurecimento. Ainda continuei inteirado no rap, em questões políticas, raciais e em muitos outros assuntos. Já entendia o porque que eu nunca me senti tão bonito, o porque que existiam cotas raciais, o porque que eu não era tão alvo de discriminação quanto negros de pele retinta e entendia mais sobre muitas outras coisas.

Até que aconteceu uma grande merda comigo, a primeira merda! A merda que sempre vou lembrar.

Bom, era de noite, e eu tinha ido à casa de uma amiga para encontrar ela e outros amigos, e ao ficar tarde tive que ir embora pra casa. Estava vestido com um casaco cinza, bermuda de basquete e chinelo, andando à beira da Avenida das Américas às 2 horas da manhã sozinho (sim, eu me achava muito gangsta para ser assaltado), até que a uns 10 metros de distância de mim, um homem de terno me percebeu andando em sua direção e parou de andar. Achei muito estranho (no mínimo), mas continuei de cabeça levantada andando como se não houvesse nada, pois não queria demonstrar que eu estava com medo, quando na realidade, eu estava morrendo de medo. Ao me aproximar dele, o idiota saca a porra de uma arma e aponta para baixo, enquanto falava alto mandando eu levantar as mãos. Levantei as mãos sem reclamar. Ele pediu para que com uma das mãos eu levantasse meu casaco pra ver se eu tinha algo na cintura. Só tinha meu celular. Pediu para que eu mostrasse o celular e me perguntou para onde eu estava indo às 2hrs da manhã. Mostrei o celular e disse que estava indo para casa. Com isso, ele guarda a arma e fala que eu to liberado enquanto me dava um tapinha no rosto. Mas eu fiquei muito puto com essa abordagem e não gostava de levar desaforo pra casa, então perguntei: “Por que que tu tá me parando?”. Acredito que ele não gostou desse questionamento, mas respondeu o seguinte: “Te parei porque quis, tem que ter cuidado com pessoas da sua raça. Agora vai embora sem olhar pra trás, moleque”.

Lembro que eu fiquei sem reação e comecei a correr, pois ele mais uma vez colocou a mão na arma. E enquanto eu estava correndo, gritei: “Vai tomar no c*!”. Só pra não sair tão por baixo.

Protesto contra violência policial em Lisboa. Foto por: Fernanda Conofre/GlobalVoices

Enfim, essa foi a primeira vez que sofri esse tipo de coisa. Lembro que cheguei em casa, entrei no quarto e comecei a chorar, me perguntando o porquê que isso aconteceu e pensando nos racismos que pessoas negras retintas e pobres passam no dia a dia. Tudo veio à tona. Percebi que mesmo não sendo o maior alvo, ainda sou um.

Impressionantemente, esse enquadro típico de policiais, me ajudou a abrir mais os meus olhos ao que eu sou e ao que meus iguais também são e sofrem. Lembrando que racismo nem sempre é um ato tão concreto como esse. Racismo é estrutural e está impregnado em nossa cultura.

A partir daí só foram mais descobertas, mais auto-afirmação e conhecimento da luta negra e história. Cada vez mais aumentando minha bagagem cultural e buscando referência em pessoas negras, buscando cada vez mais ter um bom conhecimento do que eu sou e pertenço, para ter um real propósito e assim, conseguir conscientizar o próximo.

Era 2017 quando comecei o meu primeiro namoro, o nome dela é Amanda e foi uma das pessoas mais importantes para o aumento da minha auto estima e posicionamento como negro. Ela foi uma pessoa à qual eu poderia me abrir por qualquer coisa, logo, essas minhas questões foram levantadas durante nosso namoro. E mesmo ela sendo uma mulher branca, ela teve uma enorme capacidade e esforço para entender como eu me sentia e o que se passava comigo, então sempre me deu forças nesse quesito. Sempre estando ao meu lado quando eu tinha minhas crises de identidade e medo de me posicionar. Ela teve muita empatia, visão e paciência para me ajudar nisso.

Nosso namoro terminou em 2018, e mesmo assim, até hoje ela busca compreender melhor tais questões e busca também utilizar seu privilégio branco para difundir o que acabou aprendendo. Mas, mesmo assim, ainda sinto que ela não compreende totalmente o que se passa comigo e com meus iguais. Até porque ela não pertence à isso, então é inviável cobrar total entendimento.

Até então, me relacionei com outras mulheres e percebi que cada vez mais eu precisava de qualquer pessoa que passasse pelo que eu passo para me ouvir, para ser ouvido (a) e assim, haver uma real conexão. E eu falo isso em relação às minhas amizades também, falo de qualquer relacionamento. Isso tudo estava e está me sufocando muito, parece uma angústia sem fim não ter alguém que você consiga expressar exatamente o que você passa e sente e alguém que não consegue compreender isso. Tenho poucos amigos negros, não era comum, como eu já disse, ter negros na escola em que eu estudei, então meu círculo de amizade é formado por pessoas majoritariamente brancas, o que aumenta mais meu sentimento de estar sozinho.

Toda vez que encontro algum amigo/colega negro, questões que nos envolve vem à tona, e eu consigo de uma vez por todas, mesmo que por pouco tempo, liberar tanto peso das costas que eu saio aliviado e feliz. Lembro que em uma festa de aniversário que eu estava, fiquei por muito tempo conversando sobre essas coisas com um desses meus colegas, e consegui me abrir bastante e liberar muita coisa que estava presa em mim, assim como ele também conseguiu.

Por essa falta de pessoas à minha volta que entendem completamente o que se passa comigo, que eu me sinto sozinho nesse espectro de identidade. Me sinto negado entre as pessoas, parecendo que não devo ter voz alguma. Já ouvi de um pessoa negra que eu não posso ser negro por ter “um pé na raça branca”. Já ouvi de um branco que na real eu não sou preto nem branco , sou mulato (termo bem errado de se usar). Então, são essas dificuldades de me afirmar algo que me assombram durante o tempo todo. Por isso, toda vez que uma pessoa negra me reconhece como sendo igual, sem eu ter falado nada ou me posicionado, faz o meu dia e me dá mais forças. Tenho muito medo de vocês leitores estarem achando que estou me vitimizando, quando na verdade só estou expondo o que causa minha sensação de estar sozinho nesse caminho.

Sei muito bem que não sou o principal alvo. Sei muito bem meu posicionamento. Sei muito bem também que nunca passei e nunca passarei por tantas dificuldades que os negros de pele escura passam. Mas nesse meio eu me sinto um pouco à mercê do que os outros de fora acham. Já ouvi que assumir a identidade “parda” é aceitar e abraçar o embranquecimento e o racismo estrutural que esse termo carrega e que eu devia sim continuar me posicionando como negro, pois isso é do meu direito e ainda auxilia na luta. Mas também já ouvi que eu devo falar que sou pardo, pois minha pele não é tão escura e eu por eu estar ocupando um espaço que não é meu.

Em uma matéria sobre as complicações de falar de raça e classificações no Brasil do site ALMA PRETA (almapreta.com), um seguinte parágrafo que traz uma fala de Clodoaldo Arruda (rapper e filósofo) que me chamou atenção. Veja:

“Em relação à tonalidade, Clodoaldo afirma: “não existe uma matiz de cor para definir quem é e quem não é – quem é sabe. Ponto. O que existe no Brasil é um esforço em não se reconhecer isso e essa questão está diretamente ligada ao racismo estrutural”.”

O Brasil sofreu sim um processo de embranquecimento da população, e foi proposital. Clarearam nossa pele pois ela não era bem vista. Instauraram nas raízes da nossa sociedade que ser negro é algo ruim, e isso é um fato que eu vejo dentro da minha própria família. Alguns parentes chamam a minha irmã (claramente negra) de morena. Minha irmã, assim como eu quando menor, teve a mesma ideia de apertar o nariz para afina-lo e já me perguntou várias vezes se ela era bonita. Isso me mata. Uma avó minha até hoje alisa seu cabelo para se encaixar em um padrão, e ainda já ouvi ela falando que é morena e não negra. Até que ponto nosso povo tem que se esconder e se embranquecer? Até quando temos que nos lembrar que somos descendentes de reis e rainhas?

Arte exposta no Queermuseu. Foto tirada por mim. (2018)

Tem um trecho da música Lágrimas de Odé do rapper Coruja BC1 que me tocou muito, pois eu me identifiquei bastante:

“Mas num enredo genocida a guerra vem como herança

E eu nunca me senti porra nenhuma, normal

Ferida fruto de um relacionamento bi-racial”

E na mesma música, ele diz: “A guerra tem como alvo pardos e retintos”. Ele separa os dois termos, mas ao mesmo tempo ele afirma que é um povo só, o povo negro, e pardo seria apenas um termo para designar uma pele mais clara. Alias, se voltássemos no tempo de escravidão, todos teríamos um dono branco.

Não existe etnia parda. O termo “pardo” foi criado para definir cor, apenas. E é um termo que nos afasta da nossa ancestralidade, cabendo unicamente ao indivíduo decidir se abraçará uma filosofia branca e racista se denominando branco ou pardo, ou se vai abraçar seus ancestrais e se posicionar como negro. Mas isso tudo acaba sendo muito complicado aqui no Brasil, principalmente por conta dos processos de miscigenação da população que por muito tempo foram marcados pelo estupro da mulher negra, com o principal objetivo de embranquecer a sociedade brasileira. Então, quanto mais você se afastava de sua ancestralidade negra, mais você se afastava da senzala e era socialmente mais aceito. É por conta disso que até hoje, a identidade negra é negada, gerando um problema de identidade entre os ditos “pardos” e mestiços.

Entretanto, o que é ser negro no Brasil?

Vi esses dias um vídeo do youtuber e militante negro Spartakus, onde ele fala sobre colorismo, passabilidade, eugenia e o que é ser negro de pele clara no Brasil. E ele cita o trecho a seguir de Leopoldo Duarte, retirado de um artigo do blog Geledés:

Pessoalmente, prefiro pensar no termo “negro” como uma identidade sócio-cultural e, sobretudo política, daqueles povos oprimidos pelo sistema racista da supremacia branca eurodescendente. No Brasil, mais especificamente, seriam os índios e os descendentes de africanos, que tem sua não-branquitude como justificativa para o menosprezo.

Concluindo, negros de pele escura e negros de pele clara, estão em posições de oprimidos pela supremacia branca, mas o negro pele clara tem algo chamado de passabilidade, ou seja, não são em todos os espaços que somos vistos como negros, o que de certa forma nos dá vantagens (não privilégios) em relação aos retintos. Mas ainda sim ambos somos excluídos e desvalorizados em relação à pessoas brancas.

A seguinte fala de Spartakus me chamou atenção:

Sofrer menos racismo não é a mesma coisa que não sofrer racismo (esse é o lugar da branquitude). Sofrer menos racismo é uma vantagem que faz o chicote bater menos, mas a dor é igual. Pardos foram escravizados juntos com os pretos, existem registros que mostram isso. Muitos pardos são confundidos com bandidos e são vítimas do genocídio negro.

Por fim, escolho ter consciência da minha posição social, abraçar meus ancestrais e ocupar meu lugar na luta. É difícil pra mim me afirmar dessa forma, mas se eu não o fizer, quem vai fazer por mim? Como eu vou querer mudança?

Não sei aonde quero chegar falando isso tudo. Talvez eu comecei a escrever essas coisas pois precisava me libertar ou porque eu sinto que não tenho feito nada a respeito de quem eu sou ou apenas por querer contar um pouco sobre mim. Talvez todas as opções.

Hoje em dia, eu estou mais seguro de mim mesmo, de quem eu sou. E parece que, com isso, automaticamente as pessoas começam a me enxergar mais como negro. Eu, de verdade, sinto que só foi em 2018 pra cá, que eu comecei a me achar um cara bonito e isso se deve muito a essa minha evolução de posicionamento e identificação de quem eu sou. Se deve muito ao rap, e eu cito nomes: Mano Brown, Marcelo D2, deus Djonga, Coruja BC1, Emicida, Criolo e outros nomes importantes. Se deve à minha avó Maria Da Luz, que já disse pra mim: "Meu nego, tenho orgulho de ser preta… nossa história é muito rica". E por fim, se deve à mim, e às pessoas que de alguma forma tentam me entender.

Minha maior missão hoje, é dar o maior apoio possível à minha irmã Maria Cecília. Deixando bem claro, que ela é a menina mais linda do mundo, e que se ela quer alguma coisa, ela vai ter, pois ela é preta e pode tudo. Eu preciso que ela se sinta a menina mais foda, mais forte e mais poderosa, para que ela não sofra de baixa autoestima, solidão e negação de sua própria identidade. Sentimentos esses que, caso aconteça, serão mais fortes que os meus, visto que ela nasceu mulher, negra e de pele escura.

Termino esse desabafo por aqui, mesmo achando que não concluí da melhor forma toda essa história. Caso este texto consiga alcançar diversas pessoas (eu espero que sim), sei que vou ouvir muitas opiniões diferentes e que podem me machucar ou me ajudar, mas manterei minha postura, como sempre. A partir de agora vou me dedicar a escrever algo infantil e didático, dedicado à minha irmã, para que ajude ela a se empoderar e conhecer sua própria história.

Fomos educados à nos afastar de tudo aquilo que nos aproxima de nossa ancestralidade. Descolonize-se.

Obrigado por chegar até aqui.

João Pedro P. P.

João Pedro Pereira

Written by

Apenas mais um praticante da escrita, da poesia, da pintura, da fotografia e do rap. Negro, publicitário e com o sonho de entrar pra história e mudar o mundo.

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