Ela sempre esquece o isqueiro

Ilustração: @gisme.art

No alvorecer da ressaca esfumacenta, ainda pelejava com a manhã que despertava tóxica e caudalosa dentro de si. Demorou uma fração de tempo para se situar no ainda embaçado ambiente do quarto. A cabeça explodia debaixo de dois travesseiros — o terceiro jazia inerte no piso –, que não bloqueavam a entrada da luz, mas sufocavam o já abafado ar que não circulava dentro do cômodo.

Arreganhada em iluminado despudor, a tarde baforava seu calor de janeiro na nuca empapada de suor. À medida que despertava, o corpo mergulhado no estofado sentia os efeitos de uma noitada da qual nem se lembrava ainda. As cinzas dos excessos acenavam implacáveis, encrostando-se aos neurônios e enrijecendo de dor os músculos. Era impossível, ainda, lembrar o quê ocasionara a hecatombe etílica.

A lembrança veio gorda, surgindo a passos contrariados, expressão de cu ao avesso, lá no fim do corredor da memória. Sim, o improbabilíssimo encontro com a Maria. Ex-namorada. De uma outra existência. Caralho!

Inibe uma primeira tentativa de se levantar, insiste numa segunda e, na terceira, investe resoluta determinação para enfim se postar em pé. Uma larga espreguiçada é sucedida por um bocejo gutural. Colado nas pálpebras, o visgo da noite anterior comprimia em ardência os olhos.

Tateou recibos, tampas de cerveja e guardanapos de bar até derrubar, numa tacada só, óculos e celular. Encolheu-se dolorido. Ajoelhou-se e encontrou os óculos. Com os três graus de miopia corrigidos pela lente, juntava as peças espatifadas do aparelho. Pela luz dura que esquentava o quarto, presumiu que já se aproximava o meio-dia.

Após travar a tampa que fecha a bateria, habilidade motora ainda prejudicada, sentou-se para constatar que, além de ainda funcionando, o telefone trazia consigo (como uma mensagem anunciando a boa-nova do celular ressuscitado) um lacônico e displicente questionamento: at home. u? Releu.

A lembrança substancial daquele inglês dela, calejado pelo obstinado interesse em viajar o mundo, despertou-lhe a memória dos sentidos. O idioma sorria em sua boquinha definida pela prática do saxofone, que lhe rendeu um levíssimo, quase imperceptível, biquinho no lábio superior. Calosidade que inexplicavelmente aflorava aos sons de thougs, thanks ou thirstys que lhe saíam com precisão de english school advanced teacher.

Não respondeu à pergunta imediatamente. Esperou. Ainda sem saber se o fazia para sorver o paladar do momento ou para ganhar tempo de concatenar uma resposta que o manteria ainda vivo naquele inesperado xadrez amoroso que lhe desafiava ali na sua frente. A verdade é que a preocupação velada daquela frase incógnita lhe deixara mesmo sem ter o que dizer. Eras depois da última vez que a viu, Maria era o oposto ardente daquilo que fora.

O envolvimento com as lembranças, que suscitavam da curta e enigmática mensagem, acalmou o ímpeto da ressaca. Agora as cenas do encontro ocasional surgiam coesas, num cineminha que se repetia dentro da cabeça: sentados à mesa, cadeiras de madeira, voláteis como o álcool que umedecia as lembranças, desenrolavam fios etílicos de uma memória há muito inabitada.

Da sobriedade característica dos vinte e poucos anos, Maria não guardava nem vestígio. Fora, agora — ou vá lá saber há quanto tempo — substituída por voluptuosos ataques aos copos, que virava em encharcados goles urgentes. Havia também uma amiga nova, que dividia a mesa com o antigo casal. Prudente, atinha-se às bitoquinhas de amor tímido ao copo de Seleta que, por sua vez, não demonstrava qualquer pudor em ser arrastado ali de mão em mão.

Qual não foi o espanto geral quando, gesto desleixado de quem faz isso o dia inteiro, Maria tirou da bolsa um box de Malboro, ascendeu com perícia, baforando as primeiras tragadas do cigarro para cima. Ao mesmo tempo, abanava a fumaça num movimento que empregava todo o braço, no intuito que sua transgressão tabagística não incomodasse os incautos tupiniquins da mesa.

Maria estava mais magra. Cabelos bem mais longos do que aqueles curtinhos que costumava usar. Descansavam emaranhados num coque que se aninhava no cocuruto. Usava saia jeans curta, um par de Havaianas, que abandonava no chão enquanto os pés descansavam na base da mesa, e uma Hering branca.

Ela sabia do espanto que o causava. E dava por isso muito bem. Contornava com elegância os galanteios atropelados que recebia, tangenciando, gole após gole, suas investidas estabanadas. Após uma delas, apertou-lhe com carinho o queixo. Antes de se levantar para pagar a conta, virou o box aberto de seu Malboro como quem diz: está aí a única porta que te abrirei hoje.

Sentado na cama, sentiu-lhe o isqueiro Bic apertando o bolso. Tirou a caixinha de madeira de dentro da gaveta e colocou-o ali, junto dos outros. Enquanto apagava a mensagem, que desistiu de responder, outra lembrança emergia na cabeça: ela sempre esquece o isqueiro.