Fluido Uterino do Sagrado

Da varanda, debruça-se magnetizada pela figura de Vênus, que acena ao sol poente. Esférica, a entidade se veste em irresistível indumentária de sofisticação. Regente de seu signo solar. Regente de seu signo ascendente. Culpado direto pelo seu fascínio e incursões delirantes aos mares das artes. O astro compõe, em síncrono com o azul pálido do céu de verão, quadro minimalista de feições irretocáveis.

Um buda glorioso, inabalável, flutuando sua iluminação banhada em infinito. Diferencia-se das estrelas, lhe explicaram certa vez, pela continuidade firme de seu brilho. Enquanto, cintilantes, aquelas soam como corpos em desespero sôfrego, a Vênus paira seu alinho harmônico sobre os emaranhados de cegueiras e urgências terrenas.

Chapada de magnetismo celestial, ela se abriga no aconchego da rede que corta, em sorriso diagonal, a curtinha extensão daquele anexo suspenso do diminuto apartamento. A renda instantaneamente se molda, piedosa, para abraçar suas formas num embalo de consolo.

Ela encosta o ouvido contra a malha. Vênus mantinha seu curso perfeitíssimo num plano inimaginavelmente distante. Ela encosta o ouvido contra a malha, em clamor de desalento. A rede lhe confortando num acolhimento maternal. Absorvia as lágrimas entornadas do súbito choro convulso. Ela espremendo as mãos contra as entranhas encaracoladas dos cabelos. Esforço inútil de estancar a erupção sentida que lhe rebentava dos olhos espremidos.

O movimento pendular murmurava, manso, um ronronar macio. Quanto mais avançava na escala de agonia o choro, mais orgânico tornava-se o envolvimento com a peça que sustentava a dobrada força de sua gravidade existencial. Submergia, tateando sentimentos, no fluido território uterino do sagrado.