Nudez de sereno

No útero dos sonhos, ela se esparrama em ritmo circular. Gira, bailarina, ao redor do próprio eixo. Seu corpinho, nudez de sereno, se torce na contramão do fluxo, seiva perfumada, que corre fluido dentro de si.

Seu movimento é todo um sorriso de galáxia. Suspende-se alta, elevando-se em comunhão com a existência. Tomada de vento, flutua orvalho no sopro primaveril.

Desce graciosa num passeio rasante. Sorridente, ritmada, floresce seu rastro de renascimento. Voa com os bracinhos abertos, pulsos dançando com o ar em movimento. Coração escancarado e olhos fechados.

Dá de tecer, em fios de estrela, saia azul de renda. Do brilho cintilante lapidou sua matéria-prima. Veste-se, então. E gira noite, chovendo vaga-lumes.

Infla-se de lua. Ventania em seu coração acelerado. Fita as gigantes criaturas da escuridão a arrastarem-se mar a fundo. Atreve-se atrás delas, cortando o oceano encrespado em lamento e inundado de pranto ancestral.

A flechinha de saia cintilante submerge fundo. Mantém-se firme como o tempo às investidas da melancolia submarina que lhe cercavam em escuridão de assombro.

Alcança, uma a uma, as afundadas monstruosidades. E encara seus olhares de precipício. Medem vinte vezes o seu tamanho. Afundam-se pesadíssimas e mórbidas. Sangram, de enormes feridas, um caldo virulento que o mar recebe indiferente.

Enfraquece por um instante para, num impulso, inflamar determinação. Conecta-se a eles com compaixão desmedida, lhes preenche a carcaça num sopro vital. Revigora seus batimentos e seca suas fendas em operações que movem o eixo dos céus.

Então cresce novamente à noite suspensa. Junta-se à lua em conexão ardente. Torce seu corpinho em sorrisos e chove de novo, num giro derradeiro de eternidade.

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