Round Midnight

Volto ao ponto em que começamos: sua inesperada recusa ao vulgar do óbvio. Frente à hostilidade do ambiente, que se escancarou ruidoso e atropelado, ela aceita que não pretende ser parte daquele aglomerado reluzente que era a porta do Bar do Coronel em noite de terça-feira.

Nem seria preciso atender sua ligação, voz constrangida do outro lado da linha, para adivinhar que o passeio em carros separados tomaria um rumo bem diferente da grandiloquência sugerida pelo estabelecimento de esquina.

Continuei no banco de motorista. Abri a janela antes de arrancar. Sem a barreira isolante do vidro, senti uma imediata conexão com a noite. O negrume pintado em paletas carregadas, os vapores de chorume emanando do container que acumulava o lixo do bar, a brisa quente que piorava o calor.

Inebriado de noite, escolho uma faixa do Miles no player do carro. Ouço os primeiros acordes esfumaçados de Round Midnight ainda com o motor desligado. O som se dissipa pelo interior do veículo, agarra-se à tapeçaria como fumaça de tabaco. O momento e ocasião para acender o baseado que eu infelizmente não tinha ali — Miles certamente me ofereceria um, caso ocupasse o banco do carona.

Viro a chave a contragosto e o veículo, como extensão da minha vontade, rosna um ruído de engasgo indolente antes de decidir engrenar. Arrancamos, enfim. Embalado pelo jazz pontiagudo que ainda ecoava das caixas, o carro desliza em sincronismo despreocupado com a melodia. Carro, som, noite e asfalto se dissolvem em mim.

Embarcado no convite sensorial, demoro a notar sua foto na tela verde de meu celular. No retrovisor, seu Fox branco surge como um fantasma a perseguir meu Fiestinha na escuridão do centro inabitado da cidade. Acompanha cada contorno que faço até que, em um sinal fechado, ela para ao meu lado.

“Pode atender o celular de vez em quando, viu”, alerta, com a cabeça para fora da janela. O vento bagunçando seus cabelos negros como a madrugada que se aproximava. Movimento que penumbrava, em contraste de cores, seu rosto branquíssimo.

Anunciou, dali mesmo que a noite, para ela, já terminara. Na casa da irmã, o filho chorava insistente. Estava recém-saído de uma febre e a mãe, culpada pelas seguidas ausências semanais, não queria dar brecha para futuros traumas do rebento.

Nos despedimos dali. Ela se apressou pela esquerda. Segui em frente, sem rumo. Janelas escancaradas, dividindo com o carro os tragos de noite.