Um café antes de me apaixonar

“É brega, mas dormi com seus olhos muito vivos na minha memória”. Frase dita, um largo sorriso matinal dissolveu sua expressão ainda manchada de sono. Ela ri de mim. Os cabelos lisos, clarinhos, lhe tapando os olhos cerrados. “Não é brega. Eu achei fofo. Adorei.” E me beija os lábios em um abraço agradecido e preguiçoso.

Ela deita de bruços, costas nuas, ao meu lado. Seu braço quentinho contorna meu peito num macio desenho diagonal, que terminava em seus dedos se enroscando desapressados na bagunça emaranhada que eram meus cabelos àquela hora da manhã.

Enterra a cabeça no meu travesseiro, achatando o rosto em meu pescoço. Sinto sua respiração quente e sereníssima me arrepiar a pele. Voz abafada pelo travesseiro e arranhada de despertar, ela embarca num embalado discurso sobre sua predileção pelo caminho das sugestões.

“Esse lance, João, de escancarar as coisas tira toda a graça do momento. A gente se apaixona é no território das entrelinhas das relações. Você sabe disso, né? Te conheço”. Sua voz seguia deliciosamente rouca. “Sou muito maluca por saborear mais o não dito do que as coisas que eu escuto?” Pergunta retórica.

Aquela conversa fluida emergindo baixinho do enlaço de travesseiros, seu braço esquerdo pousado no meu peito, aquele cafuné leniente, o silêncio do quarto. Cada um dos elementos da manhã acariciando os sentidos. E eu desfrutava do combo sensorial sem pressa, mantendo, preso à língua, um gostinho de eternidade.

Sua boca de amora madura me despertou da leseira onde eu flutuava torpe. Me roubou um beijo vermelho vivo. “Moço, estou me abrindo com muita facilidade. Fica difícil manter a fama de má assim”, disse entre sucedidos beijos de açúcar. Orgânico convite lascivo. Aceito no ato.

“Tudo bem se eu fumar?” e me virou as costas para alcançar o maço na bolsa. Pequenas frestas de luz derramavam manhã em alguns dos cantos do quarto ainda escuro. Ela senta para acender o cigarro. Seios, cabelos e boca me assaltam em silhueta esfumaçada. Sua linguagem sugestiva.

Três tragos pausados. Nós dois tateando, em silêncio absoluto, os corredores do não dito. A brasa consumia o tabaco como uma ampulheta intrometida. Me lembrava, impertinente, que esses momentos enfim não são eternos.

“Vou preparar um café antes de me apaixonar”.
“Ah, café não. Tem chá?”

Foda-se, já me apaixonei.