Socialismo, Conservadorismo, Liberalismo, e o Conformismo

No dia 20 houve um encontro de portugueses na capital liberal de Portugal, o Porto. O Telmo Azevedo Fernandes fez, talvez no seguimento das várias discussões durante o encontro, uma apologia da necessidade social de mais Liberalismo. O Vitor Cunha em jeito de resposta, pediu menos socialismo, o que talvez equivalha a mais conservadorismo.

O Alberto Gonçalves, de modo mordaz, veio sossegar a oposição, agitada pelo comício colectivo no Porto, explicando que mais depressa se convence um soldado do ISIS a deixar de cortar cabeças que um português a ser liberal.

Os três têm razão. Mas… O “mas” é que antes de serem quaisquer dos “ismos” referidos, os portugueses são Conformistas. Fruto de uma descrença atávica em qualquer sistema que os governe e de um individualismo pragmático gerado no ”safa-te entre os pingos da chuva antes que a confusão social te apanhe”, habituados a que depois de cada revolução sobrevenha uma involução, escolhem safar os pertences e família por um ajustamento sistemático a qualquer sistema político que o grupo de socialistas, sempre os preponderantes em qualquer momento, consiga impor. Foi assim durante o Estado-Novo (a institucionalização do Conformismo-Nacional), é assim durante a Democracia de Abril, onde nos conformamos com o caminho mais ou menos acelerado para o socialismo itálico-greco-europeu.

E os portugueses liberais são diferentes? Primeiro são portugueses ou antes são liberais? Bem, não tenho resposta directa. Mas há que olhar para a economia: por um lado, o pequeno-almoço é uma refeição importante, por outro, se amanhã vamos conseguir jantar também é uma preocupação mas, por via da prioridade de resolução, a cobertura economico-financeira da meia-de-leite e do pão com manteiga vem antes. E a economia,doméstica ou nacional, é uma força importante.

Poderiam os liberais partir para um movimento organizado, revolucionário ou outro de transformação social? Penso que não, ou melhor, com muita dificuldade. A engenharia social está nos antípodas do pensamento e da acção liberal-clássica que é antes de mais autenticamente cultural e de transformação individual mental.

O exemplo paradigmático da dificuldade popular da posição liberal talvez seja bem dado com a questão do aborto e no modo como socialistas, conservadores, e liberais lidam com ele.

Os socialistas colocam em praça pública o “facto” de o aborto e sua protecção ser uma questão económica de sobrevivência da mulher, da sua independência e com relevância no combate por uma das suas várias bandeiras: o wage-gap. Para os socialistas, o aborto é um custo social que deve ser suportado financeiramente por todos.

Os conservadores defendem os valores tradicionais, a tradição religiosa face à vida, e dão pouco valor ao lado económico socialista, mas perdem-se populisticamente por não terem argumentos que defendam a independência das mulheres concretas e dos seus dramas sociais bem explorados pelos socialistas. Confrontados pela decisão popular, os conservadores abrem os cordões à bolsa e pagam, sem se aperceber que foram vencidos, mais uma vez de modo ínvio, pelos socialistas.

Os liberais atiram a questão para a liberdade e a responsabilidade individual. As mulheres (e os homens, pais) são livres de fazer planeamento familiar por todos os meios tecnicamente disponíveis, e as consequências de abortar, ou não, pertencem ao indivíduo, e não é justo que haja colectivização do custo para suportar opções individuais.

Quem ganha? Naturalmente os socialistas. Porquê? Porque, via Gramsci e outros mestres-gurus-filósofos do neo-socialismo ocidental, aprenderam como grupo, a controlar a democracia e os seus modos mediáticos de engenharia social. A propósito de engenharia social, o novo travesti do socialismo chama-se liberalismo social e junta o melhor de todos os mundos (fica para outro post depois das eleições francesas).

Assim que o assunto é apresentado por motivação económica e de justiça social, e discutido a nível de referendo e de necessária decisão popular, os conservadores perdem completamente o controlo dos resultados, por abstraírem da esfera individual e a transferirem para uma decisão amoral colectiva. Os custos? São económicos e sociais, mas são sobretudo de detrimento da responsabilidade individual.

Tomada a decisão por via do voto (por mais à-rasca que ele seja) todos nos conformamos dando mais um pequeno passo para o Socialismo.

Na imagem, uma síntese (proposta por Hayek nos três ângulos, complementada por mim com o termo central) em que ao Liberalismo-Clássico se pode ver que cabe combater, o real perigo de degradação social: o Conformismo, mal que também afecta os liberais.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.