Inventamos? Ou, descobrimos?

Bebê na sopa primordial

Os animais inventam os instintos ou apenas os praticam? Note que há instintos animais muito complexos, como por exemplo a construção de ninhos que não são ensinados pelos progenitores aos futuros pais. A que nível está o Homem, face aos animais, quando se trata de instintos? O nosso nascimento apaga-os, faz-se uma tabula rasa, ou enquanto vamos crescendo eles vão-se mostrando como algo pré-existente e portanto descoberto na resposta às praticidades da vida?

O bebé inventa que gosta da mãe, ou descobre que gosta da mãe, da sua protecção, alimentação, e carinho? O bebé está instintivamente pré-preparado para gostar da mãe? E a mãe para gostar do filho? É algo instintivo, na generalidade das mães? Concordamos que sim, certo?

Se é assim no nosso início de vida, continuará a ser assim na idade adulta? Estamos pré-preparados/programados para agir repetidamente intra-espécie em modos de agir e gostar que são padrão mesmo inter-geracional?

Estamos (?) pré-programados em muitos aspectos:

- no sexo que temos, indelével no ADN;

- nas hormonas que nos irão tornar mais ou menos propensos ao risco ou à prudência;

- na força física que teremos durante a vida;

- nas doenças genéticas que desenvolvemos autonomamente ou se houver “gatilhos” ambientais que as façam manifestar-se;

- na capacidade mental e suas variações onde se inclui a inteligência espacial, verbal, de cálculo aritmético e matemático;

- e, até mesmo na capacidade de resistir a longas horas de trabalho ou de concentração contínua ou de resistir a maratonas de corrida.

Também segundo Carl Jung, sim. E isso aplica-se ao pensamento religioso que no mais fundamental procura responder às questões fundamentais:

  • de onde vimos?
  • para onde vamos?
  • quais os sentidos da vida e da morte?

Segundo Jung, o Homem está programado para, no pensamento religioso/mítico, tender necessariamente para procurar descobrir respostas satisfatórias para essas perguntas. Se não as encontra numa religião vai encontrá-las noutra. Modernamente a religião tradicional saiu de cena (praticamente nas sociedades laicas ocidentais) e, seguindo Jung, a nossa programação inata para encontrar respostas tranquilizantes/necessárias para a nossa estabilidade mental permanece. No fundo, para termos a paz de espírito suficiente para nos conseguirmos concentrar no ganha-pão de modo eficaz.

Então, não tendo já a religião tradicional para suprir as respostas fundamentais, tendo nós matado Deus com Nietzsche e outros, onde as vamos encontrar?

  • Nas cosmogonias (a teoria do Big Bang);
  • Nas correntes e ideologias políticas, integradas ou não com a cosmogonia.

É evidente que alguns de nós têm pouca preocupação com grandes questões físicas ou metafísicas, mas vamos ficar-nos pela normalidade ou pelo ser humano mais frequente, numa distribuição standard.

Voltando a Jung, e apelando à memória dos leitores, recordam-se de ouvir dizer que, modernamente, alguns estão a substituir a religião pela política e a tornar a política numa religião? Reparem que as ideologias visam dar respostas abrangentes, gerais, concretas e definitivas para muitas perguntas. Mesmo as ideologias seculares podem oferecer respostas para o sentido da Vida e da Morte: Por exemplo, a resposta pode ser “ A Vida e a Morte não têm significado. A Vida é um acaso, a Morte é um fim sem qualquer significado. Um apagar definitivo e tudo o que temos é o presente”. Teleologicamente, tal conceptualização, implica que tudo deve ser relativo ao presente e à felicidade que podemos retirar da nossa acção em vida.

Assim, parece-me consensual, poder-se dizer que há ideologias que dão respostas/significado profundo (no sentido de fundamental) à Vida, mesmo que esse significado implique que seja pouco relevante encontrar significado profundo na Vida.

Sendo assim, as ideologias podem ser agradáveis e necessárias porque nos fornecem as respostas para algumas das perguntas que Jung diz serem-nos pré-programadas, portanto descobertas por todos e cada um — e não inventadas — ou instintivas e partilhadas entre todos os seres humanos mais frequentes na tal curva de distribuição normal.

E, continuando a deduzir, o transcendente, a preocupação com a origem, o fim e os sentidos da Vida e da morte, são imanentes já no momento do nosso nascimento. Pré-existentes. Programados em cada ser humano como questões fundamentais que depois se manifestam na nossa natural/intrínseca inteligência e curiosidade sobre o Mundo.

Nunca houve, jamais, qualquer cultura de humanos, mesmo no meio dos mais primitivos dos Sapiens, grupo ou sociedade que não tivesse tradições metafísicas, ou de participação do metafísico, “do espírito transcendente”, no mundo concreto. Todas as civilizações ou grupos amplos de homens procuraram, e mesmo mais importante mesmo no nosso actual nível de avançamento técnico — continuarão a procurar — respostas para essas perguntas.

Inventaram-nas (às perguntas) ou descobriram-nas? Vamos convir que é muita coincidência, todos nós termos as mesmas angústias existenciais, as mesmas dúvida metafísicas, em culturas e regiões diferentes, separadas por obstáculos geográficos intransponíveis durante muitos séculos. Voto pelo descobriram. As perguntas já lá estavam, tal como o bebê que descobre gostar da Mãe e não “inventou” gostar da Mãe.

Mas isto é tudo uma enorme confusão que ultrapassa o que sabemos concretamente, não é? A ciência ainda não nos deu respostas claras para muito do que é fundamental no sentido da Vida e da Morte, e por isso estamos no campo da Filosofia e daí Carl Jung ter sido convocado.

Voltando à terra, podemos então, e chamando de novo as ideologias à colação, poder dizer com razoável convicção que as ideologias não satisfazem a necessidade humana natural de transcendente onde podem ser encontradas as tais respostas. É uma limitação das ideologias.

Logo, se eu fosse responsável por criar uma ideologia, evitaria ao máximo as questões transcendentes e desvalorizá-las-ia o melhor que pudesse, pois quereria ter seguidores satisfeitos, encontrados e contentes com o tipo de respostas que lhes vou preparando. Certo, não é? O modo mais simples seria dizer:

“Não há necessidade de significado transcendental para a Vida pois ela é apenas o presente e o que podemos retirar dele. Olhem, seguidores! Usem e abusem dos prazeres da vida, concentrem-se no mais estrito materialismo que vos garanto que nada mais existe ou é necessário”.

Se fosse economista, diria, “no longo prazo estaremos todos mortos, portanto, gozem, curtam e aproveitem sem considerações de futuro além do horizonte de uma eventual eutanásia quando estiverem fartos, ou incapazes, de tudo”.

Mas, o Homem não é assim. Quando se retiram os significados transcendentais que explicam os motivos pelos quais anda a penar no Mundo, sente-se vazio, niilista, desmotivado. Alguns ficam mesmo gordos e abandalhados, depois de se terem enchido de prazeres rápidos e fúteis, esgotaram as possibilidades de divertimento em 30 ou 40 anos de vida, e entregam-se à depressão crónica e à solidão de uma vida sem sentido. Não é preciso ir buscar estatísticas actuais sobre o consumo de ansiolíticos ou anti-depressivos, certo? Para precisar, note, por favor: quando falo de significado transcendental não me refiro especificamente a Deus ou à sua ideia. Confuso? Espero que não.

Agora para aumentar a confusão: não me refiro a Deus, mas refiro-me à Religião tradicional. Então, e porquê? Porque a religião é, não só, o adorar de Deus, dos apóstolos, dos santos e dos anjos, mas e é aqui que nos interessa, uma colectânea de práticas, e regras sobre essas práticas, que vem dos tempos de antanho e que visa em primeiro lugar, atribuir/dar sentido à Vida, às suas alegrias, sofrimentos, tribulações, ciclos e rotinas.

Claro que tal como no caso das ideologias, a religião vem atrelada aos seus intérpretes, os “ideólogos”, que são pagos e privilegiados por terem a relação próxima com o transcendente/respostas, e isso é, ou pode ser, muito desagradável para um espírito que queira ser mais livre. Mas tal não é obrigatório. “Vem com o território” como se costuma dizer, e serve de muito aos que se opõem às religiões para afastar os potenciais crentes das ideologias ou das religiões na simples lógica:

“Olhem para eles! Vejam como são imperfeitos! Pensam que dali pode vir algo de bom?”.

E pronto — ganhando alguém com isso — nega-se o todo por causa das partes imperfeitas, e mata-se a mensagem por não se gostar do mensageiro.

Então e para quem como eu (e tantos) fuja dos ideólogos e dos intérpretes das religiões? Como fazer para ir buscar as complexas respostas, ou aproximações às respostas, para tentar obter algum sentido de vida usando as práticas ancestrais mais do que provadas pela prática e tradição? Ou seja, aceitando e usando, sem recusar aquilo que nos está pré-programado, nos é natural, e ao utilizarmos, nos dá a satisfação de encontrar mais algum significado profundo na Vida?

Como é que um laico em todos os sentidos pode ter/retomar contacto com princípios primordiais fundamentais sem ter de aderir às religiões ou ideologias da moda com as receitas preparadas, servidas e finais?

Gostaria que a resposta fosse simples, e, surpresa!, até o é bastante. O modo de preencher o sentido à vida, encontra-se em tudo aquilo que é intemporal, clássico, tradicional, provado pela prática e não signifique mal causado a alguém. Nem aos outros, nem a nós. Como se define isso numa frase?

“Estudar, aprender e conhecer os arquétipos.”

O que são arquétipos?

Segundo Platão:

“Ideia ou modelo originário utilizado como padrão (origem e princípio) para se explicar os objetos sensíveis.”

Segundo o nosso amigo Jung:

“Aquilo que está no âmbito do consciente coletivo e tende a ser compartilhado por toda a humanidade.”

Onde estão? Ora, pois bem, a resposta ainda é mais fácil. Estão em múltiplas manifestações culturais nossas incluindo, mas não só, nas histórias e mitos religiosos, nos livros clássicos, nas óperas e peças de teatro mais fundamentais, nos papéis tradicionais dos homens e mulheres na sociedade.

Nota: Antes que o leitor me acuse de disforia do politicamente correcto quanto ao papel dos sexos na sociedade, explico: “o papel do homem é ser senhor do mundo; o papel da mulher é ser senhora da sociedade”. Quem é que manda em quem, é-me impossível saber.

Engraçado, como depois de tanto relambório, chegámos ao sexismo mais absurdo, pensará o leitor. Mas não, o meu ponto é que um dos maiores sofrimentos sociais que temos hoje em dia é exactamente porque nos estamos a desviar, quem sabe a construir um novo arquétipo (que só o será daqui por muitos anos) do arquétipo tradicional: “função e papel do homem e da mulher”. É um parto com muita dor. Se será um bebê de sucesso só o muito tempo dirá.

Há muitos mais arquétipos que estão esquecidos — ou, não estão a ser descobertos — talvez porque tendemos a correr num Mundo que, apenas na aparência, prepara tudo de novo sempre que um Homem nasce. E, não é assim. O Mundo não nasce com cada um de nós.

Cada um de nós é um repetidor de gerações passadas, pessoas intemporais repetidamente com o mesmo tipo de problemas que podem ser explicados — cá está — pelos arquétipos, que não passam de sínteses, reduções compreensíveis dadas pela prática de vida de inúmeros homens e mulheres antes de nós, que nos transmitiram mensagens fundamentais de experiência, de cultura e de natureza social e biológica que nos compõem individual, culturalmente e, indo até mais longe, geneticamente.

Buscando, procurando descobrir, os arquétipos, religiosos, sociais, históricos, filosóficos, podemos encontrar uma ajuda na descoberta do tal fugidio sentido da vida. Isto, claro e fazendo a conclusão, se assumirmos, como é a minha hipótese, que a cultura nos está pré-programada. Em linguagem informática: para aquele hardware (Homem) há um software (Arquétipos culturais) que melhor lhe serve para realizar o seu fim objectivo último de vida.

Exemplo de uma instrução religiosa simples desse programa cultural e genético?

“Crescei e multiplicai-vos”.

Nunca vi um homem ou mulher tão imensamente feliz (lá está numa distribuição normal em Gauss — não é que todos pensem o mesmo) como quando se tem um filho que, seguramente, dá: sentido à vida.

Há muito mais instruções, umas mais simples, outras mais complexas, a “flutuar arquetipicamente” por aí. Para as encontrar, basta… descobri-las.

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