A Alexandria do Brasil em desordem e retrocesso

João Rodriguez
Sep 3, 2018 · 7 min read

O projeto de sociedade vai algum dia superar a barbárie e o descaso?

Quando Dom João XVI chegou no Brasil, era tudo mato. Fugindo das tropas Napoleônicas, naquele 8 de março de 1808, 40 embarcações, 8 naus, 5 fragatas e diversos navios mercantes chegavam com toda a nobreza portuguesa na baía de Guanabara para mudar a história do país de uma vez por todas. Era um império flutuante saindo de sua sede em Lisboa para o Rio de Janeiro, surgia o inédito Reino Unido com a colônia na história.

Não só um monarca europeu chegava ao novo mundo pela primeira vez, a partir daquele momento, o Brasil nunca mais voltaria a ser colônia, e depois de 308 anos no limbo sendo tratado como um país alheio aos desenvolvimentos do mundo eurocêntrico, o país ganhava um projeto progressista.

Dom João precisava modernizar sua nova capital, e o fez de forma excelente: O Jardim Botânico foi criado, a Biblioteca Nacional e até o Banco do Brasil. A Quinta da Boa Vista, assim conhecida devido ao belo panorama que se tinha da Baía de Guanabara, foi doada à família real pelo comerciante português Elias Antônio Lopes.

Ali começava a história do Museu Nacional que vimos arder em chamas na noite do último domingo (02/09).

Em 6 de junho de 1808, Dom João mandava construir o que viria a ser um dos prédios guardiões do passado de diversas sociedades, o tempo passou e chegando aos seus 200 anos, virou um símbolo da riqueza cultural brasileira, com mais de 20 milhões de peças no acervo.

Segundo o site do Museu Nacional, destacavam-se os itens:

A coleção egípcia, que começou a ser adquirida pelo imperador Dom Pedro I;
A coleção de arte e artefatos greco-romanos da Imperatriz Teresa Cristina;
As coleções de Paleontologia que incluem o Maxakalisaurus topai, dinossauro proveniente de Minas Gerais;
O mais antigo fóssil humano já encontrado no país, batizada de “Luzia”
Boneca de cerâmica dos índios Carajás
Cultura afro-brasileira — O Trono do Reino do Daomé (século XVIII/XIX)
Vasos de culturas pré colombianas e do pacífico

Esses são apenas alguns itens, pra ver mais do que foi destruído, confira esse thread.

Fogo que arde sem se ver

Maio de 2018

Como estamos acostumados a ver com tragédias brasileiras, não foi por falta de aviso que aconteceu o que aconteceu.

Em 2004, a EBC trouxe a denúncia do secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, que constatou irregularidades durante visita que fez ao museu:

“O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”

Em 2015 o Museu chegou a anunciar que fecharia as portas por falta de pagamento do pessoal responsável por manutenção e faxina.

Neste ano chegou a anunciar uma vaquinha pra custear parte da manutenção das salas.

E o diretor do Museu chegou a anunciar que só havia verba pra medidas paliativas.

Em 2018, depois do governo disponibilizar míseros 54 mil, o BNDES iria repassar uma verba complementar que seria disponibilizada somente após a eleição desse ano.

Episódios como esse me fazem desabar em lágrimas. Me sinto impotente, fraco, observando lugares que asseguravam a memória de sociedades inteiras, pesquisas de uma vida, mestrados, doutorados, fósseis de animais que nunca vão votar, tudo isso sendo consumido pelas chamas, as eternas labaredas do descaso vil e cruel do Brasil.

A verdade nua e crua é que a cultura aqui sempre passa por um julgamento de valor que vai além da arte, entra no contexto do capital econômico e político. Quero dizer: “Será que vale investir em algo que não me da retorno imediato, não vai me dar voto?”

Marie Curie (sentada) durante visita ao Museu

Diferente do que acontece na Europa, onde há projetos pra valorizar a história e os museus do continente independente de qual é o posicionamento político de quem o administra,

Aqui no Brasil não valorizamos nada.

A impressão é de que dá pra se virar, dar um jeitinho pra não usar toda essa ‘imensa’ verba de meio milhão pra cobrir manutenção.

O que dá voto aqui é estádio, são as reformas de R$ 211 milhões no Maracanã, é o dinheiro sendo investido pra manter o elitismo na pirâmide social brasileira — é juiz ganhando cada vez mais, é ministro da cultura procurando culpado nas outras gestões.

Do lado, em meio ao povo bestializado, tem gente que se aproveita da situação pra forçar discurso políticos, levantar bandeira contra a Lei Rouanet sem nem saber como funciona o projeto. Tem liberal aproveitando nota em TripAdvisor pra recomendar o que deveria ser feito ao sabor de seu interesse. Pessoas que nunca vão a Museu surgem dos bueiros mais escuros da internet nesses momentos pra levantar bandeiras que convém.

A cultura só serve de pretexto pra essa galera, é o inicio de uma discussão, e não a centralidade do discurso em si, esses surgem quando tem homem pelado em exposição, quando falam de sexualidade ou quando tem algum desastre, eles se deliciam com suas críticas conservadoras e não alimentam em nada o debate, apenas colaboram pra torna-lo raso e superficial.

Não acho que colocando a culpa nos outros, ou no sistema que geria o Museu adianta de algo. O problema é o descaso com a cultura, a falta de interesse em pesquisa, avanços ou qualquer tipo de estudo da nossa história dentro da esfera do senso comum levou a isso. Ao meu ver aconteceria em qualquer tipo de administração, governo ou lei. Ir em museu, pra muitos ainda é símbolo de elitismo, justamente como na época de Dom João só tinha acesso a cultura quem era mais esclarecido e tinha dinheiro.

Os museus se democratizaram desde então, porém não se democratizou de forma efetiva o conhecimento de que todos deveriam aprender sobre cultura, visitar museus deveria ser muito mais do que um programa de um fim de semana, deveria ser instigado o tempo todo. Por que isso ajuda a cicatrizar feridas, feridas abertas por erros históricos. Mais do que buscar conhecimento, você saber da história do seu povo ajuda a evitar a repetição de seus erros, cultura é necessária para democracia na sua mais forte essência teórica e prática.

Mas quem liga né? Tanto que a última visita de relevância ao Museu feita por um presidente brasileiro, foi de JK, há mais de 50 anos atrás. O diretor do Museu chegou a anunciar que convidou os chefes estaduais, municipais e federais pra comparecer ao bicentenário da instituição neste ano. Ninguém foi.

JK no Museu Nacional, o último presidente democrático a visita-lo

Abaixo, você confere a continuação do descaso em forma de investimento, de petistas a emedebistas, passando por tucanos e toda elite do atraso político brasileiro, vocês são a face desse desastre.

Quanto vale a cultura no Brasil?

Quanto vale nossa história?

É difícil precificar, não? Pois bem, patrimônios culturais não possuem valor, o que é possível fazer é mantê-los, admira-los, estuda-los, porque o seu verdadeiro valor esta em sua memória.

Depois do desastre, Crivella, Temer e seu governo capenga prometeram investimentos na reconstrução do Museu. Acontece que existem fósseis que não vão voltar, assinaturas, manuscritos, peças de valores inestimáveis que vão além de qualquer valor. O prédio em si tão pouco pode ser reconstruído, porque nunca vai ser lembrado como o Museu que era, ele vai tá sempre lá, com uma cara nova, talvez uns grafites, mas ainda ficará invisível aos corações de quem deu a vida pela ciência ali, de quem admira a história, a botânica, o próprio senso de conhecimento.

Isso não se reconstrói, e tão pouco sei se esse país vai se reconstruir algum dia. Seria esse o ápice de todo o mal, ignorância e descaso com educação no Brasil? Ou seria esse o começo do inferno e da ignorância, assim como a biblioteca de Alexandria simbolizou o fogo da barbárie que apagaria as luzes do conhecimento por séculos na Idade Média Européia?

Diante do fato de que não temos mais nenhum Dom João, fico com a segunda hipótese.

Encerro como disse Filipe Figueiredo:

"Dirão que esse desabafo é exagerado. Ficarão chateados, mas ninguém liga, a vida segue. Temos outros problemas, mais graves. Que não se negue a existência de uma miríade de outros problemas, não se iluda achando que é o que acontece hoje na Quinta da Boa Vista é algo menor. Para uma sociedade sair do buraco, ela precisa, primeiro, saber que é uma sociedade."

João Rodriguez

Written by

Jornalista apaixonado por política.

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