A Alexandria do Brasil em desordem e retrocesso
O projeto de sociedade vai algum dia superar a barbárie e o descaso?

Quando Dom João XVI chegou no Brasil, era tudo mato. Fugindo das tropas Napoleônicas, naquele 8 de março de 1808, 40 embarcações, 8 naus, 5 fragatas e diversos navios mercantes chegavam com toda a nobreza portuguesa na baía de Guanabara para mudar a história do país de uma vez por todas. Era um império flutuante saindo de sua sede em Lisboa para o Rio de Janeiro, surgia o inédito Reino Unido com a colônia na história.
Não só um monarca europeu chegava ao novo mundo pela primeira vez, a partir daquele momento, o Brasil nunca mais voltaria a ser colônia, e depois de 308 anos no limbo sendo tratado como um país alheio aos desenvolvimentos do mundo eurocêntrico, o país ganhava um projeto progressista.
Dom João precisava modernizar sua nova capital, e o fez de forma excelente: O Jardim Botânico foi criado, a Biblioteca Nacional e até o Banco do Brasil. A Quinta da Boa Vista, assim conhecida devido ao belo panorama que se tinha da Baía de Guanabara, foi doada à família real pelo comerciante português Elias Antônio Lopes.
Ali começava a história do Museu Nacional que vimos arder em chamas na noite do último domingo (02/09).
Em 6 de junho de 1808, Dom João mandava construir o que viria a ser um dos prédios guardiões do passado de diversas sociedades, o tempo passou e chegando aos seus 200 anos, virou um símbolo da riqueza cultural brasileira, com mais de 20 milhões de peças no acervo.
Segundo o site do Museu Nacional, destacavam-se os itens:








Esses são apenas alguns itens, pra ver mais do que foi destruído, confira esse thread.
Fogo que arde sem se ver

Como estamos acostumados a ver com tragédias brasileiras, não foi por falta de aviso que aconteceu o que aconteceu.
“O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”
Neste ano chegou a anunciar uma vaquinha pra custear parte da manutenção das salas.
E o diretor do Museu chegou a anunciar que só havia verba pra medidas paliativas.

Episódios como esse me fazem desabar em lágrimas. Me sinto impotente, fraco, observando lugares que asseguravam a memória de sociedades inteiras, pesquisas de uma vida, mestrados, doutorados, fósseis de animais que nunca vão votar, tudo isso sendo consumido pelas chamas, as eternas labaredas do descaso vil e cruel do Brasil.
A verdade nua e crua é que a cultura aqui sempre passa por um julgamento de valor que vai além da arte, entra no contexto do capital econômico e político. Quero dizer: “Será que vale investir em algo que não me da retorno imediato, não vai me dar voto?”

Diferente do que acontece na Europa, onde há projetos pra valorizar a história e os museus do continente independente de qual é o posicionamento político de quem o administra,
Aqui no Brasil não valorizamos nada.
A impressão é de que dá pra se virar, dar um jeitinho pra não usar toda essa ‘imensa’ verba de meio milhão pra cobrir manutenção.
O que dá voto aqui é estádio, são as reformas de R$ 211 milhões no Maracanã, é o dinheiro sendo investido pra manter o elitismo na pirâmide social brasileira — é juiz ganhando cada vez mais, é ministro da cultura procurando culpado nas outras gestões.

Do lado, em meio ao povo bestializado, tem gente que se aproveita da situação pra forçar discurso políticos, levantar bandeira contra a Lei Rouanet sem nem saber como funciona o projeto. Tem liberal aproveitando nota em TripAdvisor pra recomendar o que deveria ser feito ao sabor de seu interesse. Pessoas que nunca vão a Museu surgem dos bueiros mais escuros da internet nesses momentos pra levantar bandeiras que convém.
A cultura só serve de pretexto pra essa galera, é o inicio de uma discussão, e não a centralidade do discurso em si, esses surgem quando tem homem pelado em exposição, quando falam de sexualidade ou quando tem algum desastre, eles se deliciam com suas críticas conservadoras e não alimentam em nada o debate, apenas colaboram pra torna-lo raso e superficial.
Não acho que colocando a culpa nos outros, ou no sistema que geria o Museu adianta de algo. O problema é o descaso com a cultura, a falta de interesse em pesquisa, avanços ou qualquer tipo de estudo da nossa história dentro da esfera do senso comum levou a isso. Ao meu ver aconteceria em qualquer tipo de administração, governo ou lei. Ir em museu, pra muitos ainda é símbolo de elitismo, justamente como na época de Dom João só tinha acesso a cultura quem era mais esclarecido e tinha dinheiro.
Os museus se democratizaram desde então, porém não se democratizou de forma efetiva o conhecimento de que todos deveriam aprender sobre cultura, visitar museus deveria ser muito mais do que um programa de um fim de semana, deveria ser instigado o tempo todo. Por que isso ajuda a cicatrizar feridas, feridas abertas por erros históricos. Mais do que buscar conhecimento, você saber da história do seu povo ajuda a evitar a repetição de seus erros, cultura é necessária para democracia na sua mais forte essência teórica e prática.
Mas quem liga né? Tanto que a última visita de relevância ao Museu feita por um presidente brasileiro, foi de JK, há mais de 50 anos atrás. O diretor do Museu chegou a anunciar que convidou os chefes estaduais, municipais e federais pra comparecer ao bicentenário da instituição neste ano. Ninguém foi.

Abaixo, você confere a continuação do descaso em forma de investimento, de petistas a emedebistas, passando por tucanos e toda elite do atraso político brasileiro, vocês são a face desse desastre.

Quanto vale a cultura no Brasil?
Quanto vale nossa história?
É difícil precificar, não? Pois bem, patrimônios culturais não possuem valor, o que é possível fazer é mantê-los, admira-los, estuda-los, porque o seu verdadeiro valor esta em sua memória.

Depois do desastre, Crivella, Temer e seu governo capenga prometeram investimentos na reconstrução do Museu. Acontece que existem fósseis que não vão voltar, assinaturas, manuscritos, peças de valores inestimáveis que vão além de qualquer valor. O prédio em si tão pouco pode ser reconstruído, porque nunca vai ser lembrado como o Museu que era, ele vai tá sempre lá, com uma cara nova, talvez uns grafites, mas ainda ficará invisível aos corações de quem deu a vida pela ciência ali, de quem admira a história, a botânica, o próprio senso de conhecimento.

Isso não se reconstrói, e tão pouco sei se esse país vai se reconstruir algum dia. Seria esse o ápice de todo o mal, ignorância e descaso com educação no Brasil? Ou seria esse o começo do inferno e da ignorância, assim como a biblioteca de Alexandria simbolizou o fogo da barbárie que apagaria as luzes do conhecimento por séculos na Idade Média Européia?
Diante do fato de que não temos mais nenhum Dom João, fico com a segunda hipótese.

Encerro como disse Filipe Figueiredo:
"Dirão que esse desabafo é exagerado. Ficarão chateados, mas ninguém liga, a vida segue. Temos outros problemas, mais graves. Que não se negue a existência de uma miríade de outros problemas, não se iluda achando que é o que acontece hoje na Quinta da Boa Vista é algo menor. Para uma sociedade sair do buraco, ela precisa, primeiro, saber que é uma sociedade."
