Uber: da praticidade à insegurança diária de quem trabalha ou solicita viagens

Motoristas e clientes detalham as diversas situações desagradáveis e de risco de vida que já vivenciaram usando o mundialmente aplicativo de corridas

Por João Rosa

É noite de sábado e você quer ir no apartamento de uma amiga fazer o famoso “aquece” antes da balada em uma casa noturna qualquer do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Para poder beber à vontade sem se preocupar com riscos, como acidente de trânsito na volta ou para se prevenir dos constantes assaltos que rondam a capital, a melhor ideia que vem em mente é solicitar um carro pelo aplicativo da Uber.

Logo quando chega o veículo, em ágeis dois minutos que não servem nem para você retocar a sua maquiagem e dizer para sua mãe que chegará antes das três, uma espécie de sinal de alerta é ligado: o motorista ao volante é homem. Você decide sentar atrás, mas antes disso, o condutor de um imponente carro do ano, todo encerado e perfumado, fala para você ficar na frente com ele. Em seguida chegam os primeiros receios.

Ele começa a puxar papo com perguntas invasivas como “mas a essa hora da noite saindo de casa? Tá indo pra onde?” Você, que já estava desconfortável com o fato dele ser homem e pedir para fazer companhia no banco do carona, começa a ficar irritada. Responde o mínimo possível e decide virar o rosto para o canto oposto, mas de nada adianta. O assédio segue.

Nicole Amabile, 24 anos, estudante de arquitetura e urbanismo na Uniritter, passou por algo bem semelhante meses atrás, quando resolveu chamar um carro da empresa que passou a ser regulamentada na cidade no início de dezembro.

- Eu estava saindo de casa para jantar em uma amiga. Chamei o Uber e quando fui entrar ele (motorista) pediu para que eu sentasse na frente. Era a época que os taxistas estavam bem agressivos, então sentei. Começamos a conversar e ele começou a fazer umas perguntas um pouco invasivas, sendo que nem dei abertura para assuntos pessoais. Perguntou das minhas tatuagens, depois olhou bem pro meu rosto e perguntou do meu piercing, ficou elogiando. Fiquei nervosa por estar sentada do lado dele, ele ficou me olhando de cima a baixo. Estava louca pra sair do carro. Cheguei na minha amiga e ele por fim falou que ia me dar cinco estrelas pois me achou uma guria especial.

A futura arquiteta não é a única e provavelmente nem será a última a ser vítima de assédio em viagens entre um bairro e outro. Ari Santos, de 21 anos, estudante de jornalismo da Famecos, também é ex-cliente do aplicativo e conta algo mais grave.

- Eu estava perdido no centro de Porto Alegre, indo pra uma entrevista de emprego e chamei um Uber. O motorista abriu a porta da frente pra mim (já estranhei nesse momento), entrei e paguei em dinheiro. Ele começou a falar amenidades e, quando estávamos chegando ao destino, perguntou se ele podia me levar pra casa dele ao invés dali. Eu disse que não, ele ficou insistindo e colocou a mão na minha perna. Fiquei assustado e comecei a pensar numa maneira de sair, mas logo o GPS “disse” que estávamos chegando e eu pedi pra descer. Ele “permitiu” e eu saí, contei pra uns amigos e notifiquei o aplicativo na avaliação. Até hoje não recebi um feedback, então não sei como foi resolvido, se é que foi.

Além do machismo e assédio que muitas pessoas passam no dia-a-dia (e pela vida toda), outras situações também são comuns para quem começou a aderir ao novo sistema. Se antes o grande vilão da cidade eram os taxistas e suas chamadas “máfias”, agora motoristas da Uber começam a figurar também no quesito furtos, como conta Nicolayewisk Joe, 32 anos, formado em artes visuais na UFRGS, mais um ex-cliente insatisfeito e indignado com o aplicativo.

Eu fui roubado por um motorista da Uber. Meu celular ficou carregando no carro dele e logo quando desci comecei a ligar. Ele desligou o aparelho. Contatei a empresa de todas as formas possíveis. Fui informado que a empresa aqui em Porto Alegre já tinha mudado de endereço três vezes, fui até lá, eles me atenderam pelo elevador do estacionamento do prédio, parecia que estavam fugindo. Nada resolvido. Um amigo meu advogado disse que a empresa já tinha mais de 10 ocorrências semelhantes só na capital.

Haitiano Sorel Rene só pensa em largar o Uber e migrar para o Cabify (Foto: João Rosa)

Mas nem tudo tende a arrebentar no lado mais fraco da corda. Motoristas do aplicativo também são vítimas da criminalidade nas grandes cidades, além também de passarem por ocasiões constrangedoras e tristes. É o caso do haitiano Sorel Rene, de 30 anos, que mora há cinco anos no estado e que já passou por situações bem difíceis em seus poucos quatro meses como motorista da Uber. Rene conta que vai de preconceito a pessoas que, segundo ele, não têm coração.

- Teve um cara que solicitou Uber. Aí quando cheguei no local não era ele, era outro. Ele me disse: “Antes de ir no endereço que tá marcado eu vou passar em outro lugar.” Ele foi num beco pegar droga e dentro do carro ele cheirou (cocaína). Quando cheguei no endereço ele me disse que não pagaria pois só tinha cartão. Falei pra ele que tinha a opção de dinheiro e cartão e que ele poderia ter selecionado isso quando pediu. Aí ele me disse para passar no dia seguinte pra ele me pagar, mas disse que não, deixei assim. Foi um ato de desrespeito, pois usou um tempo que poderia estar fazendo outra corrida. Fiquei muito irritado.

Os episódios não pararam por aí. Sorel conta uma vez que estava em Cachoeirinha, cidade da região metropolitana de Porto Alegre na qual reside e chegou uma corrida para Novo Hamburgo, no Vale do Sinos.

- Levei o passageiro até lá, mas quando cheguei no destino final, pediu pra ir um pouco mais além, queria pegar a chave na casa de uma amiga. Disse que não tinha problema e segui, só que quando vi estava andando mais quatro quilômetros e não chegava no endereço. Pedi pra ele alterar o destino final e ele não quis. Aí ele me disse: “se tu não quer chegar lá no meu endereço eu vou descer do carro e não vou te pagar.” Disse que não era assim e que já tinha feito meu trabalho. Encostei o carro. Ele saiu, ele e mais outro cara que também estava com ele. Comecei a seguir eles bem devagarinho, até que eles pegaram uma pedra e ameaçaram a jogar no carro. Disse que se ele quisesse quebrar que ele podia, mas que teria que pagar. Aquele dia fiquei triste. Achei um absurdo e acho que as pessoas tem que ter mais coração.

Quando questionado como ele enxerga a empresa e se ela dá importância ao funcionário, o Rene não hesita em falar na falta de segurança vivida pelo funcionário.

- Não vejo isso. A Uber é um grupo de capitalismo. Eles só pensam neles, em dinheiro, ganhar um valor, ter uma meta. Não importa se o motorista está em segurança ou não. Adicionaram o dinheiro para mais pessoas usarem o Uber e isso deixou mais inseguro. Não pensam na segurança da gente.

O motorista, que já sofreu com preconceito racial por ser negro e estrangeiro, pretende logo migrar para outro aplicativo, o Cabify, que tem um sistema de cadastro diferenciado e checagem de passageiros antes de aceitar as futuras corridas, na qual dará mais segurança para ele trabalhar.

- Uma vez perguntaram de onde eu era e falei Haiti e falaram: “Ah, até haitiano fazendo Uber”. Senti um tom preconceituoso, principalmente por ser negro. Se dissesse que era americano não iria acontecer nada, não ouviria essas piadinhas. Pretendo ir logo para o Cabify para ter mais segurança no dia-a-dia. Faltam só alguns documentos.

E quando a situação vai do desrespeito e parte para o risco de vida do funcionário? Quem sabe muito bem disso e que viveu na pele uma situação extremamente perigosa foram André Ramos e Barton Habbab, de 39 e 47 anos, respectivamente, ambos revezam entre Uber e Cabify em Porto Alegre e Região Metropolitana. André passou maus bocados na mão de criminosos e teve o carro roubado na cidade de Viamão. Já Barton teve o “arrependimento” como salvador da pátria na hora do aperto.

- Início do ano colocaram uma arma na minha cabeça. Foi horrível. Não sabia o que fazer, agir, sabe? Pensei muito na minha vida e na minha esposa. O bandido perguntou se eu puxaria uma arma, porque fiquei um pouco nervoso na hora. Respondi que minha arma era a Bíblia. Sabe que isso comoveu um dos assaltantes? Um deles falou pro outro que eu era trabalhador e combinaram de descer Foi uma sorte grande, tenho fé em Deus e foi ele que me salvou.

A situação de André foi tão delicada quanto, segundo relata num tom descontraído.

- Em dezembro, na véspera do Natal, estava em Viamão quando recebi um chamado na RS-040. Fiz a volta na rodovia, vi o pessoal me esperando. Suspeitei pelo lugar ser meio escuro. Sentaram dois atrás e um na frente. Pediram pra buscar uma quarta pessoa. Cinco minutos depois que comecei a viagem, o rapaz veio e colocou a faca no meu pescoço e a pessoa de trás colocou a mão na minha testa e mais uma faca na barriga, deu duas fincadinhas e cortou um pouco. Pra meter medo mesmo, né. Falaram pra eu dobrar aqui e lá. Mandaram eu parar o carro depois, me revistaram pra ver se eu não tinha nada. Peguei apenas a chave da minha casa, desci e quando vi o cara já estava no volante dirigindo o carro. Nunca vi alguém ser tão rápido pra dirigir (risos).

Outro estrangeiro que comenta a falta de segurança com quem é funcionário ou cliente do Uber, é Enrico Mazza, italiano de nascido na cidade de Verona, 41 anos, morador da capital há pouco mais de três anos.

- Tenho um grupo que tem motoristas de Cabify e Uber. Todo dia nele tem roubo, assalto, só com motorista de Uber. Comecei a trabalhar em novembro com Uber. Quando passou a aceitar dinheiro decidi ir para o Cabify. Não vale a pena 10 reais para uma vida. Não tenho dúvida em cima do cliente do Cabify. Me sinto mais seguro.

Quando indagado se ele já passou por alguma situação desconfortável, como cliente mal educado, por exemplo, o italiano faz o famoso gesto com a mão típico de quem é nativo do país e começa a relatar e a sorrir.

- Poderia escrever um livro (risos). Uma situação que me incomoda muito é o fato de que o cliente acha que a gente é taxista, que estamos fazendo um favor a eles, sendo que nós damos todo o tipo de conforto e segurança. Quando pedem uma corrida e fazem ficar esperando 10 minutos numa rua escura e perigosa. O brasileiro pensa pra si mesmo, eu vejo. Posso estar generalizando, mas é o que penso.

E quando o assédio vem do lado do carona? Quem sabe muito disso é a mais nova motorista do Cabify, Herminia Alves, 33 anos, também ex-motorista do Uber. A condutora conta dos constantes desrespeitos que ela passa ao volante por ser mulher, além de fazer questão em alertar clientes mulheres a passarem a usar o Cabify. Ela ainda reitera o motivo principal que fez abandonar o Uber como forma de renda extra.

- A gente passa por muita coisa, desde jovem passando mal, vomitando, fumando, bebendo e te menosprezando por ser mulher até homens te convidando para uma cerveja após o expediente, sendo que nunca dou abertura para isso. Mas com o Uber era pior. Não tinha o histórico do passageiro, nem onde ele queria ir antes. Tinha um pouco de medo a cada solicitação de viagem vindas de lugares afastados.

Conforme relata Hermínia, a empresa passou a aceitar dinheiro nas corridas como pagamento desde o início do ano, contrariando muitos motoristas do aplicativo. No início de março, dezenas de colaboradores fizeram caminhada contra a própria empresa, protestando contra a falta de segurança e a modalidade de pagamento em dinheiro vivo.

- O motivo fundamental de minha saída do Uber foi o fator deles começarem a aceitar dinheiro. Começou a surgir inúmeros assaltos e isso me deixou com mais medo ainda, relata a motorista que está desde fevereiro no Cabify.

Questionado sobre a falta de segurança dos motoristas e clientes nas viagens, Reinaldo Ramos, presidente da Associação dos Motoristas Privados e de Tecnologias (Ampritec), fundada em 2016, é enfático e diz que “a segurança é uma das maiores prioridades da associação.”

Ramos ainda comenta que até setembro de 2016 o “índice de roubo a motoristas era zero”, porém a partir do mesmo mês, começaram a surgir os primeiros relatos de insegurança, tendo em vista que a empresa começou a aceitar dinheiro nas corridas.

Segundo dados da Ampritec, atualmente o número é de 10 a 12 roubos e/ou assaltos por semana, conforme a média dos 12 mil motoristas que trabalham na Região Metropolitana. Desta soma, a associação conta com mil condutores ativos.

A reportagem procurou a empresa Uber na sede onde são feitos os cadastramentos dos motoristas, localizado na avenida Padre Cacique, em Porto Alegre. Questionados se o fato de um futuro motorista ter alguma espécie de ocorrência policial ou até mesmo o não pagamento de pensão alimentícia, funcionários alegaram que “não teria problema” e que “apenas uma carteira de habilitação e um carro dentro dos padrões” seriam necessários para se tornar um condutor da empresa.

A última vítima fatal em Porto Alegre envolvendo um motorista do Uber, foi o assassinato de Moisés Doring, de 33 anos, no dia 7 de março. Ele foi encontrado morto no mesmo dia que aconteceram manifestações por mais segurança e pelo fim do uso de dinheiro nas corridas.

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