Fernanda Lima paga pedágio à geração do lacre

No programa “Amor e Sexo”, a apresentadora Fernanda Lima fez um discurso emocionado e lacrador cuja conclusão foi: “ (…) bora sabotar tudo isso”.

O “isso” é Bolsonaro, o patriarcado, o machismo, a opressão, etc.

A apresentadora, que deve ter um salário maior do que 99,9% dos homens deste país, por mérito e esforço próprio diga-se, e um programa que fala abertamente sobre sexo em rede nacional, está aparentemente preocupada, como Cármen Lúcia, ministra do STF, com a onda conservadora.

Qual país machista e conservador permitiria que um programa sobre sexo, sabotagem e com juras à “revolução” (?) estivesse no ar? Com 15 segundos no Google, Fernanda descobriria que além das fronteiras de Israel, o país vilão do mundo, mulheres sabem o que é ser oprimidas, subjugadas, violentadas e humilhadas pelos supostos mocinhos do Oriente Médio. Ali, sim, o buraco é mais embaixo. Estes mesmos “santos” vão para a Europa subjugá-la e não há, nem haverá, menção a isto em qualquer programa da tv aberta.

Mas Fernanda, infelizmente, não parou por aí. O pedágio à geração do lacre (ver post anterior) tem de ser pago: chamou ao palco amigos e familiares de Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada e cujo crime ainda não foi desvendado. Justamente por não ter sido elucidado, não se pode dizer que o crime foi porque Marielle era negra ou mulher. Ninguém sabe. A Polícia Federal deveria ter começado uma investigação paralela no dia seguinte ao acontecimento. Mas só o fez na semana passada, meses após o crime.

Com estes meses de impunidade, Marielle se juntou às estatísticas avassaladoras de assassinatos não desvendados no Brasil. Sua morte tem de ser lamentada, chorada e não pode ser esquecida, concordo. Familiares e amigos que sofrem uma perda como esta jamais esquecem. Não podem ser esquecidos também assassinatos de desconhecidos nos mais longínquos rincões deste país, de pobres ou ricos, de fazendeiros ou agricultores, e, no Rio, onde o programa é gravado, de policiais.

Não deixa de me chocar a falta de tato, de sensibilidade, ao não se abrir espaço na tv aberta para familiares de centenas de policiais assassinados nesta guerra carioca. O distanciamento da imprensa tradicional para com o mundo real é notório e, infelizmente, não dá sinais de mudança.

Ao invés de prestar juras de amor ao lacre, usando uma jovem mulher assassinada brutalmente, a bandeira que Fernanda levantou poderia ter sido contra a impunidade geral e a violência brutal que atinge a todos nós. Ela, Fernanda, e os mais próximos de Marielle, deveriam ser os primeiros a clamar pelo óbvio: menos impunidade, mais rigor. Menos tolerância para com os crimes de sangue. Isto atualmente é chamado, pelos próprios, de fascismo.

Mas conseguem aplacar um instinto natural de busca por justiça pois temem o politicamente correto e politizam o ato. Acham que fazê-lo, confiar no instinto, significa declarar guerra aos “pobres e negros favelados”. Erram: os “pobres e negros favelados” têm ódio da bandidagem, pois sofrem na pele o lado prático do que esta turma é capaz.

A equipe do programa, se tivesse a mente aberta, entenderia que também por este motivo, de horror à violência, que pulsa na sociedade, o presidente foi eleito. Para quem deseja realmente o (começo do) fim da impunidade, é um alento que haja um Sérgio Moro no comando da Justiça, e isto nada tem de “retrocesso”. Ao contrário: tem de avanço.