Universidade, a ansiedade que nos cerca e a necessidade de se reencontrar.

Cada vez aparecem mais relatos sobre ansiedade, depressão e outros distúrbios psicológicos por parte de estudante de graduação. Refletir sobre como temos vivido e convivido revela muito sobre o que precisamos mudar.

Sem querer entrar, mas já entrando daquele papo clássico de geração X, geração Y, geração Z, alfa, beta gama, temos que lembrar que somos sim uma geração que se tornou imediatista. Afinal, quem aqui não sonhou com independência financeira, casa e carro próprio aos 18 anos? Somos uma geração que,sofrendo ou não, pressão da família, se auto-pressiona absurdamente. Ela se torna rotineira, infelizmente. Não nos achamos bons os suficientes em relação a nós mesmos, ou em relação aos outros. Vivemos dilemas em relação às nossas escolhas de vida, em relação a nossas idades, em relação ao que sonhamos, tudo isso num cenário econômico que aumenta substancialmente nossa incertezas. O que tem de nos aliviar é descobrir que essas preocupações, na verdade, não afeta só a nós, mas também a todos os outros com quem convivemos.

Não há quem não se preocupe, quem não fique ansioso, quem não ache que está fazendo escolhas erradas. Não há ninguém 100% seguro, mesmo a pessoa que você mais admira na sua universidade. Todos temos medo. Às vezes, a pessoa que mais parece segura é a que menos está. Quantos de nós já não criamos várias máscaras para parecermos melhor do que estamos? Mas o fato é que, por mais que aparentemos, não somos plenamente seguros do que fazemos, e não há nada de errado nisso. Nas redes sociais, temos aparentado ser feliz a todo o tempo. Não mostramos que temos dificuldades, mesmo elas sendo muito recorrentes à nossa volta e dentro de nós. Isso machuca a nós mesmos e aos outros que acabam se comparando e se inferiorizando.

Como que esse sistema se construiu com tanta pressão? Tem a ver desde nossa entrada em nossas graduações, talvez, até mesmo na hora do vestibular. Entramos na faculdade e encontramos a liberdade. Não só de arriscarmos a ser o que quisermos, de ter orgulho do que somos, o que seria uma liberdade mais social. Nós nos deparamos também com a liberdade profissional. Liberdade de escolher nossas matérias, de definirmos um assunto que nos interessa, de buscarmos estágios nessas áreas que nos interessam, de escrevermos um projeto a partir das coisas que nos interessam e nos formarmos. A faculdade apresenta um mundo de possibilidades, de objetivos que podemos seguir. Mas como seguir?

Todos os objetivos precisam de um caminho. Podemos trilhar esse caminho a partir das nossas matérias, das próprias pesquisas, mas na maior parte das vezes não é suficiente, porque esse caminho é incerto, não sabemos com certeza onde estamos pisando e, pior, se estamos perdendo tempo atrás de algo que futuramente não vai dar certo. O que tem acontecido com muita frequência é que, depois de tentar e tentar e tentar vários caminhos, ainda não existe a certeza de que caminho se trilhar para chegar a algum lugar, qualquer que ele seja. Essa preocupação é natural, afinal, durante o ensino médio e nos cursinhos pré-vestibular, éramos cotidianamente vigiados e cobrados, criando uma disciplina, um caminho certo para chegar. Quantos de nós não estávamos entre os melhores resultados da sala e, atualmente, não temos muita perspectiva sobre o que fazer? Escolher é difícil, mas faz parte do processo.

O fato é que, a partir disso tudo , nossas opções vão se reduzindo. Nossas alternativas parecem cada vez menores. Aquele mundo de possibilidades parece que se desmonta de pouco a pouco. A gente chega a pensar se fez a escolha certa do curso, se arrepende dos anos que passou ali, que não tem espaço no mercado de trabalho já que ninguém arruma emprego, começa a pensar sobre qual outro curso vai fazer em uma área totalmente diferente e vários outros pensamentos, para tentar dar certo.

Nada de errado em repensar toda a vida e se preocupar em relação a ela. Nada de errado em se perguntar se fez as escolhas certas. O que, pode dar errado é traçar planos sem desejar concretamente aquilo que se sonha.

Alguém por aí disse que as palavras convencem, mas o exemplo arrasta mais que qualquer outra coisa. Na vida profissional isso se repete. Buscamos exemplos profissionais para nos inspirarmos. Seria bem mais fácil, então, nesse mundo de possibilidades, conhecer alguém que ocupa seu cargo dos sonhos e você descobrir passo-a-passo da vida da pessoa para saber se você está no caminho certo. Em universidades federais e nas Ciências Humanas em geral, o foco tende a ser prioritariamente em pesquisas, de modo que, muitas vezes, se vê um certo afastamento do mercado de trabalho por focar demais na carreira acadêmica. Isso acaba fazendo com que diminuamos o contato com outras pessoas e com outros caminhos. Um caminho, entretanto, ainda prevalece, é o da carreira acadêmica, e, o exemplo, se dá na figura das professoras e professores. Ainda, do modo mais perfeito para satisfazer a ansiedade de controlarmos o caminho, existe o tal do Currículo Lattes.

Como ainda será tratado em outro texto, se espelhar plenamente em seus professores, buscar seguir os mesmos passos ou passos parecidos com os deles é muito perigoso, por mais que julguemos ser uma alternativa muito segura. Por mais que já tenham atravessado boa parte de seus caminhos, os professores também tiveram um grande custo para chegar onde estão. Tiveram muitas frustrações e arrependimentos e, recorrentemente, por mais que não aparentem, muitos não são felizes e seguros como julgamos. Pra cada professora ou professor que todo mundo julga “muito ruim”, “muito duro”, “sem didática”, “sem atenção com alunas e alunos”, penso na possível caminhada que fez com que elxs desenvolvessem esse modo de se comportar que, às vezes, se dá de maneira até mesmo hostil.

As professoras e professores já tomaram muito café e energético para atravessar seus fins de semestres caóticos, já acharam que não estavam se dedicando o suficiente aos seus estudos, já acharam que não conseguiriam achar nada que gostassem na vida. Assim como todos os outros, elas e eles já erraram muito, não passaram em muitos processos seletivos e tiveram muitas desilusões.

Como todas as outras pessoas, elas e eles já quiseram desistir de tudo, sentiram que não sabiam nada sobre o mundo e, pior, já acharam que as outras pessoas eram melhores que eles. Mas, um dia, conseguiram encontraram coisas que amam fazer — mesmo assim, ainda hoje, repensam algumas coisas de suas vidas.

Professoras e professores passaram por todos esses processos, exatamente igual a… nós. E isso prova que devemos saber que: calma, tá tudo bem. Tudo vai dar certo.

Precisamos refletir sobre os custos psicológicos e emocionais que temos despendido para seguir nesse caminho. Na verdade, temos mais é que pensar no que não precisamos.

Não precisamos tomar a quantidade de café que tomamos, nem os remédios que tomamos. Não precisamos de abrir do convívio com nossa família nem de nossa “vida social”. Muito menos nos sentir culpados por descansar aos fins de semana.

Não precisamos nos sentir culpados por não tirar mais de 80% em tudo. Não precisamos competir com todos os colegas de faculdade a todo o tempo. Não precisamos nos sentir inseguros a todo tempo. Não precisamos virar noites em claro estudando ou, simplesmente, sem conseguir estudar.

Não precisamos aceitar que é normal fazer todas essas coisas só porque a pessoa parece bem-sucedida e feliz. Não cai na cilada das aparências não. Cada um sobrevive à sua forma, mas não precisa ser assim. Se alguém te disse isso, mentiu. Simplesmente: tá tudo bem, isso faz parte.

Pensar e repensar faz parte de um processo muito maior de nos conhecermos. Tem tempo pra tudo na vida e, se você quer muito mas não deu agora, tenha certeza que depois vai dar. E vai ser surpreendentemente melhor.

Mas e agora? O fato é que respostas certas não há, mas há algumas coisas que possam nos ajudar nesse caminho.

09 pontos para a gente se repensar:

  1. Trabalhar em nós a ideia de que não temos que ter controle sobre todo o processo, a todo o tempo. Isso não existe. Talvez isso nos foi ensinado na época dos vestibulares, mas isso não existe. A vida tem vários altos e baixos e eles são naturais em nossos processos. Vamos começar a lidar com eles.
  2. Tenha paciência consigo mesmo. Ter dúvidas é natural. Ninguém nasce com todas as respostas prontas, um passo-a-passo de como viver a vida. Qual graça teria se fosse assim e não pudêssemos sonhar alguma coisa, deixar pra lá e depois sonhar muitas e muitas outras? Tá aí a diferença de viver pra existir.

3. Olhe para trás e para dentro de você e descubra melhor quem você é, tudo que você já fez, tudo que você já acreditou em você. Quantas pessoas que se consideravam super inteligentes e aplicadas hoje não se vêem como pessoas perdidas? Tá aí a resposta pra quem se vê desiludida. dentro de cada um de nós, nada desse brilho se perdeu de verdade.

4. Descobrir o que se quer fazer da vida pra que se consiga criar, de fato, um caminho. A gente tem um monte de opções e não dá pra seguir todas de uma vez. É preciso focar pra se conseguir criar metas de curtíssimo, curto, médio e longo prazo. Às vezes, tudo bem não conseguir estabelecer planos de médio e longo prazo. O negócio é só você dar o próximo passo.

Sendo assim, se é pra fazer um mestrado pra seguir carreira acadêmica? Tá certo. É pra fazer um mestrado pra se qualificar e conseguir criar mais redes?Tá certo. É pra fazer uma pós-graduação aplicada ao mercado? Tá certo. É pra encontrar um emprego logo de cara? Tá certo. É pra estudar para um concurso? Tá certo. É pra viajar pelo mundo e se conhecer? Tá certo. O que não está certo é esse processo que nós acabamos caindo de irmos fazendo as coisas por impulso, sem nem refletir.

5. Começar a nos organizar melhor. Tem muita gente que tem pensado em como fazer isso. Aquelas dicas clássicas de começar a utilizar uma agenda, parece óbvia, mas nem todo mundo adota. Pra quem não aguenta o formato tradicional da agenda, tem algumas dicas sensacionais, bem mais personalizadas, pra que a gente se organize, como os “BuJo’s” (Bullet Journal). Segue uns links: http://desancorando.com.br/2016/03/04/tudo-o-que-voce-precisa-para-fazer-um-bullet-journal/ https://reservatoriodeinspiracao.wordpress.com/2016/04/24/bullet-journal-buja-o-que-e-isto/

6- Cuidar da nossa saúde mental e física. Às vezes precisamos mais de ajuda quanto às nossas emoções por conta desse turbilhão de coisas que passamos, né? E é bom se dar o presente de procurar uma terapia, de praticar esportes, de comer melhor, enfim, se cuidar! =)

7- Ser feliz e buscar o que sonha. Mesmo sendo poucas as possibilidades, mesmo sendo poucas as alternativas, busque fazer aquilo que mais vai te deixar feliz. No fim do dia, é isso que vai contar, e é isso que vai direcionar em seu caminho.

8- Retome sua vida social urgentemente. Fale com amizades antigas e lembre de como os tempos eram bons e como você não quer deixar isso se perder. Se volte para as pessoas que estão na faculdade com vocês e saiam, se ajudem, vivam momentos felizes juntos, para ajudar a passar por tudo isso.

9. Nunca deixe de se abrir com seus amigos e com seus colegas. Isso faz com que saibamos que não somos inferiores e que todos nós estamos passando por alguma coisa. Acho que desse jeito a gente consegue sentir o coração mais tranquilo, mais feliz e, ainda mais, não se sentir sozinhos.

A vida universitária nos assusta sim, mas é porque tomar decisões pode parecer amedrontador. Ao mesmo tempo, tomar decisões é o que mais dá graça pra vida, o que mais nos realiza. A graça da vida é sonhar e depois poder mudar o sonho, porque aquilo é simplesmente nosso e só se importa a gente, porque, por mais que não pareça, isso tudo só compete à nós mesmos. Por mais que envolva os outros, serão, na verdade, sempre nossos.

A gente tá correndo atrás, no fim das contas, de ser feliz. Todos os cafés, todos os medos, todas as vontades de ter um ótimo desempenho servem pra gente buscar ser mais feliz, mais realizado. Isso não é ruim. Esse texto é um esforço para chamar nossa atenção pra forma que temos feito isso. Os primeiros passos são menores mesmo, mas são os mais difíceis de dar, até porque, para trilharmos nossos caminhos, temos que começar de algum lugar, né?

Ps.: converse sobre esse tema com seus colegas. Leve essa discussão pro seu cotidiano da faculdade. Vai fazer bem pra todo mundo. ;)