Homem negro sente dor? — Masculinidade negra, emoções e o cuidado de si.

Sim. Homem negro sente dor. Homem negro sente medo. Homem negro sente apreensão. Homem negro sente dúvida. Homem negro sente insegurança. Homem negro sente incerteza. Homem negro sente tristeza. Homem negro sente saudade. Homem negro sente desesperança. Homem negro sente falta de autoestima. Homem negro sente solidão. Homem negro sente vergonha. Homem negro sente dificuldade. Homem negro sente isso tudo porque homem negro é uma pessoa humana em primeiro lugar.

Só que o mundo quis que você esquecesse disso. O mundo quis que o próprio homem negro esquecesse disso. O mundo quis que não se refletisse sobre isso. O mundo quis que a própria militância negra por vezes se esquecesse: o homem negro sente dor.

Esse texto tem a intenção de tencionar nossas pré-concepções para que a gente consiga repensar nosso cotidiano e, inclusive, nossa militância. Mas a intenção primeira é que essa discussão ajude a libertar os sentimentos que se prendem e nos aprisionam em nós mesmos. A ideia de pensar sobre isso tudo vem de muito tempo de militância, estudos e de muitos diálogos com pessoas negras e brancas e das minhas próprias sessões da terapia, que se revelaram como algo que fundamental para eu me entender e, pela primeira vez na vida, me aceitar como pessoa.

Existem algumas discussões urgentes que a militância negra têm avançado brilhantemente em denunciar para a sociedade e expor em relação aos homens negros, sendo que duas se destacam, ao meu ver. Em primeiro lugar o genocídio da juventude negra e pobre e em segundo lugar a hiperssexualização do homem negro, revelada brilhantemente na obra Pele Negra Máscaras Brancas de Franz Fanon. Mas não é sobre isso que quero falar aqui. Quero expor a insuficiência de se tratar somente essa temáticas, porque a vida de homens negros tem MUITOS outros aspectos muito mais cotidianos que o racismo toca, machuca, fere, do que a violência policial direta e a hiperssexualização.

Sendo assim, busco aqui ir além. Caminhar para um lugar que em tempos e tempos de militância, ainda não tive acesso. O lugar dos sentimentos, das emoções, das dores e angústias dos homens negros. Em suma, não quero falar sobre o genocídio da juventude negra por parte da polícia, mas do MEDO que o homem negro tem de andar na rua e sofrer uma abordagem policial. Não quero falar sobre a hiperssexualização dos CORPOS de homens negros. Não quero falar disso porque somos muito mais que corpos. Quero falar sobre a INSEGURANÇA, a VERGONHA, a APREENSÃO dos homens negros por serem hiperssexualizados e da consequência disso para seus relacionamentos amorosos. Precisamos libertar, mais do que nossos corpos, nossas mentes e corações para que consigamos viver mais seguros de nós.

Há duas outras questões que são centrais para se entender o estar do homem negro no nosso contexto: 1) a história sempre repetida de que temos que ser “duas vezes melhores” e 2) a necessidade imprescindível de nunca podermos errar porque já esperam o pior de nós. Essas considerações carregadas por pessoas negras levam a duas grandes ciladas emocionais: a primeira é a prisão que nos colocamos de concorrermos constantemente com todas as pessoas ao redor e nunca estarmos satisfeitos com nós mesmos. A segunda, que corrobora com a primeira, é carregarmos sempre a imagem de quem nunca erra, de quem sempre está seguro de si e em todos os campos da sua vida, carregando uma estabilidade profissional, afetiva e emocional inviolável.

Em outras palavras, o negro acaba por ser, mais uma vez, desumanizado, como se operasse como uma máquina, e não como uma pessoa humana com suas emoções e controvérsias inerentes à vida. Uma vida, por vezes, muito sofrida, de um cotidiano muito doido desde a infância, com muitas situações que nos afetam.

Mas o que nos afeta?

O que nos afeta, muitas vezes, são traumas advindos de cotidianos complicados desde a primeira infância e de como isso impacta nossas relações com nossas mães e pais. Nos afeta o fato de que desde criança a gente é visto como os mais feios no grupo de amigos. A nossa pele é vista como suja. Nosso cabelo não serve para os cortes de cabelo da moda. Nosso corpo não agrada a nenhuma das meninas, nenhum dos colegas, e, consequentemente, o que somos não agrada a nós mesmos.

O que nos afeta é a tristeza, porque nós somos vistos pelos professores como bagunceiros por mais que não estejamos envolvidos em brincadeiras na sala durante a infância. O que nos afeta é a dor de termos que aceitar as “zoações” que falam sobre a gente e sobre o nosso corpo para sermos legais. Também nos dói muito quando nós entramos no ônibus e muitas vezes ninguém quer sentar do nosso lado mesmo com o ônibus cheio. A gente anda na rua e, por vezes, pessoas escondem a bolsa, se assustam conosco, nós temos insegurança sobre o que podemos fazer ou não nos lugares. e isso também nos machuca durante o dia todo.

Essas situações são só exemplo de que: sentimos DOR. Sentimos MEDOS cotidianos. Sentimos inseguranças, por vezes, pavor. Carregamos muitas vezes uma baixa auto-estima e não acreditamos que possamos de fato sermos bons, por mais que tenhamos companhias afetivas que reiterem isso e por mais que recebamos elogios constantes, inclusive a beleza física ou intelectualidade. Nossa autoestima fica despedaçada com tantos danos cotidianos ao longo do tempo. Fica difícil, quase que impossível, de acreditarmos de fato em nós mesmos. Falar de homem negro é falar desses machucados que se fazem presentes em quase todas as relações sociais. É falar de inseguranças que nos cortam internamente POR MAIS QUE PAREÇAMOS MUITO SEGUROS DE NÓS MESMOS.

Um dos piores fatores é o fato de que a consciência racial não nos liberta, muitas vezes, desses constrangimentos. Sim, nós tomamos consciência de que muito do que sofremos advém do racismo, encontramos um porquê que explica as coisas que passamos e começamos a questionar e enfrentar essa realidade. O enfrentamento, entretanto, não é necessariamente libertador. Vejo que nossas vidas se tornam gatilhos cotidianos.

Temos medos, apreensões do que pode nos acontecer desde quando planejamos nossos dias ao sair de casa, desde quando escolhemos a roupa para sair. Andamos na rua com medo das pessoas se assustarem, preparados para o enfrentamentos e esse sentimento existe com as pessoas se assustando ou não. Isso se repete para quando entramos nos ônibus, entramos na sala de aula, no local de serviço, com nossas companhias afetivas, no próprio cotidiano familiar. É como se nós, tal como nossos antepassados, ainda andássemos com correntes, mas correntes mentais, que nos aprisionam, dificultam nossa caminhada, pesam nosso corpo, nos estressam, nos deixam mal. Questionamos todos os lugares como se lugar nenhum fosse lugar para nós porque temos sempre medo de algo acontecer.

Assim, ao meu ver, a maior parte dos homens negros militantes não se sentem livres, nem mesmo seguros de si. Em pergunta bem direta, quantos desses, de fato, já desconstruíram para si a ideia de ter um pau grande? Talvez o militante negro tenha descoberto formas de sobreviver e conseguir se firmar, mas dificilmente se encontra negros militantes que ainda não se prendem a expectativa construída de ser um homem negro, permanecendo fechado sentimentalmente ou carregando ainda uma autoestima muito aquém do que deveria ser.

A construção social é para que homem não chore. A expectativa sobre homem negro é que não haja nem mesmo espaço para isso. Nos apresentamos como pessoas firmes, seguras do que são, invioláveis, inquebráveis, que aguentam o mundo sem mudar a feição. Quantos homens negros “cabulosos” no seu entorno que carregam uma cara fechada? Sempre uma cara fechada? É como se, por conta dos machucados cotidianos do racismo, nos houvesse sobrado apenas a raiva, a revolta, a violência. Os homens negros não refletem sobre suas dores, e esse é o fato. São fechados para si e para os outros. Se fecham para outros homens negros também, como se tudo fosse quase que uma concorrência. Buscamos ser melhor que os homens brancos e que os colegas negros também. Não quero impor regras, cada um faz o que quiser de sua vida, mas O PROBLEMA É QUE ISSO NOS MATA . Isso nos mata diariamente. Claro que muitas vezes conseguimos conquistar muito, mas a qual custo emocional? A qual custo psicológico?

Ninguém se pergunta porque os homens negros não choram. Aliás, acredito que na militância, nós, homens e mulheres negras, choramos cada vez menos. Afirmamos o tempo todo que estamos tomando tapas na cara diários da sociedade, mas não refletimos sobre nosso emocional. Precisamos falar sobre o não-cuidado de si do homem negro. De um isolamente emocional. De uma auto-exclusão. A gente agiu assim na vida o tempo todo como modo de defesa e até de ataque, mas não é pra ser assim. Na verdade, CHEGA DE SER ASSIM.

Não que seja impossível de um homem negro ser uma pessoa sorridente, isso acontece e em nosso entorno temos vários e vários exemplos dessas pessoas, inclusive artistas. A reflexão aqui é para que pensemos o que talvez esteja atrás de muitos desses sorrisos? O lugar do homem negro que sorri, que brinca o tempo todo também é um estereótipo socialmente construído. O sorriso não quer dizer uma felicidade completa. Quantos sorrisos amarelos as pessoas negras usualmente não dão em suas vidas por não saber como se portar em situações de racismo?

Homens negros precisam chorar e aceitar o lugar do afeto dentro de si e para os outros. Quem não cuida de si emocionalmente não consegue cuidar do outro de verdade. Quem ainda não conseguiu dedicar amor a si mesmo acaba por ter naturais dificuldades em ter segurança para amar outra pessoa. Isso significa que os relacionamentos amorosos dos homens negros já costumam ser, consequentemente, distorcidos, seja com pessoas negras ou brancas. É necessário que o homem negro encontre completude e amor em si para que um relacionamento mais estável de fato aconteça. Muito se indaga sobre homens negros que permanecem em relações muito danosas à eles emocionalmente, mas pouco se responde de maneira empática sobre os processos que o tornam dependentes de algum tipo de amor.

Precisamos falar sim sobre o amor para o homem negro. Refletir sobre o amor dele para ele mesmo e dele para com os outros e outras. A discussão sobre os relacionamentos intra ou interraciais de homens negros precisam carregar uma reflexão muito mais honesta pensando o homem negro como uma pessoa machucada, carente de um lugar do afeto, que tem sim suas construções, controvérsias e angústias. Pensar o amor tendo como dado essa realidade nos ajuda a entender vários outros fenômenos e problemáticas sociais que temos estudado há mais tempo — sem dispensa-los, é claro, da responsabilidade sobre suas atitudes.

É urgente que haja lugares para que os homens negros se abram, falem, entreguem as emoções que engoliram e não expuseram por toda a vida, aprendendo assim com as feministas negras da importância disso. Que a militância possibilite esses lugares de compartilhamento de vivências até mesmo para sabermos que são vivências comuns. Mas, o fundamental, é que encontremos esses lugares em nós mesmos, nas pessoas ao nosso lado, nas nossas famílias. É importante que os homens negros consigam compartilhar principalmente com outros homens negros, sobre suas vivências e sentimentos. Uma coisa é fato: o medo não pode se prender em nós. As emoções têm de encontrar para onde ir.

Falar sobre as emoções dos homens negros e buscar melhores caminhos para isso é conseguirmos abrir um espaço muito mais firme para se pensar sobre temáticas como: violência, paternidade, relacionamentos amorosos sem contar sobre a própria hiperssexualização e genocídio.

Acredito que assim a gente consiga caminhar de modo muito mais leve, sem carregar as dores de tantos anos de solidão nas nossas costas. Precisamos saber admirar a grandeza do que somos. Por mais que o mundo diga o contrário, somos humanos em primeiro lugar, e o sentir faz parte do que a gente é.