“Negro de primeira linha”: elogios racistas, racismo cordial e o “preto de alma branca” que se reinventa.

“Se preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade. Não nos ajuda, só nos faz sofrer. Nem resgata nossa identidade.” Jorge Aragão.

O atual ministro do STF Luís Roberto Barroso se referiu ao ex-ministro Joaquim Barbosa, como um “negro de primeira linha”. Quem nunca escutou essa expressão, provavelmente já escutou outras como “negro de alma branca”, ou frases como “ele é negro, mas é legal/gente boa/competente/bonito”. “Negro de primeira linha” é mais do mesmo, mais da prática do já conhecido racismo cordial.

Em primeiro lugar, a ideia de negro de primeira linha não é somente do negro inteligente. Negro de primeira linha representa as pessoas negras que a maior parte das pessoas brancas “aceita conviver”. Os negros de primeira linha são aquelas pessoas negras que não perturbam explicitamente ou acabam por favorecer o privilégio de pessoas brancas. Não por serem racistas, mas por, entre outros motivos, não compartilharem de ideias políticas emancipatórias ou não conseguirem um suporte emocional suficientemente forte para lutar contra o racismo que continua por atingi-las cotidianamente. Assim, elas acabam reproduzindo o que foram ensinadas pela sociedade, como no Brasil a histórica figura do Pai João e, atualmente, do vereador Fernando Holliday.

Cena do filme Django Livre

Falar de racismo cordial é se referir ao racismo velado. Um racismo que aparece mesmo quando não se quer que ele apareça. É se referir a uma forma educada, polida, de termos calculados pela qual pessoas brancas usualmente tratam pessoas negras de seu convívio direto. O racismo cordial é cotidiano na vida de pessoas negras que trabalham, estudam e vivem em lugares que são majoritariamente ocupados por pessoas brancas e se manifesta em todas as relações. O grande exemplo do racismo cordial é a professora Srta. Morello da série Todo Mundo Odeia o Chris, que sempre buscava mostrar não ser racista e, naturalmente, acabava por escancarar seu racismo na forma de tratar o Chris.

Cena de Todo Mundo Odeia o Chris

Essa questão não é natural. Os diferentes espaços da sociedade brasileira são segregados socialmente, mas não juridicamente. Na cabeça da grande maioria da população o mito da democracia racial ainda rege nosso país, mas academicamente essa ideia já foi desconstruída. Diversos grupos de mobilização política vinculadas ao Movimento Negro buscam denunciar essa ideia de que a raça não é importante para se entender a realidade nacional e que brancos e negros estão em pé de igualdade, buscando com que as pessoas visualizassem de modo positivo toda a diversidade racial de nossas populações. As pesquisas do IBGE e diversas pesquisas acadêmicas já mostram que a pobreza “têm cor” no nosso país, assim como a riqueza.

Charge Democracia Racial. Cartunista Bira.

Como dito, o racismo cordial aparece mais em ambientes em que há muito mais brancos que negros. Ele aparece em lugares que chamo de ambientes de amizade, como escolas particulares, ambiente universitário e times de futebol juvenis, onde, usualmente, as pessoas negras são pouquíssimas. Nos ambientes profissionais, como escalões mais altos de grandes empresas e cargos mais elevados de instituições públicas, essa realidade também é vivida de maneira forte. Ainda, nos ambientes do lar, nas casas onde pessoas negras ocupam funções domésticas como funcionárias de limpeza, babás, motoristas, o racismo cordial também se faz presente.

Em cada um desses contextos, o racismo cordial surge de um jeito e as expressões já são familiares a todos nós. Os ambientes de amizade, são ambientes de natureza mais descontraída, de pessoas jovens, em que as brincadeiras, zoações são cotidianas. A amizade de pessoas brancas com pessoas negras se faz presente, mas se dá de maneira distorcida. Ofender o colega chamando de “preto”, dizer “é preto, mas é meu amigo”, é considerado um bullying comum, e é usualmente aceito porque pode ser que a pessoa negra brinque de volta, chamando os colegas de “gordo”, “feio”, dentre outras brincadeira. Nesses ambientes, as coisas positivas dos negros já são também elogios distorcidos, reiterando estereótipos de pessoas negras, apontando coisas como “pegada de negão”, “poder do pretinho”, brincadeiras falando do tamanho do órgão genital do homem negro, sempre se fala da força, do potencial físico daquele homem, encarado como algo da ordem do sobrenatural, como se não fosse de pessoas humanas comuns, algo perto do animalizado.

Estereótipo racista Mandingo.

Normalmente, nesses contextos, pouco se fala da intelectualidade da pessoa negra e, quando isso se dá, a primeira impressão é um espanto imediato. As pessoas brancas são amigas de pessoas negras, mas não ser vista como mais inteligente que esse amigo, é sempre ofensivo, e esse incômodo passa a ser perceptível até mesmo nas brincadeiras que são feitas quando algum elogio incide sobre essa pessoa e não sobre ele. Nesses ambientes, enxergam-se também relacionamentos amorosos entre pessoas brancas e negras e, usualmente, esses mesmos estereótipos, essas mesmas brincadeiras se reproduzem tanto junto de seus e suas companheiras tanto junto das amizades das suas companheiras. Essas pessoas brancas, amigas de pessoas negras nesses contextos, sempre falam frases como “não sou racista”, “não vejo cor, vejo pessoas”, dentre outras.

“Eu não sou racista. Racismo é um crime, e crime é para pessoas negras”.

Ao se pensar mais em cargos altos de grandes empresas e instituições, vemos o ambiente profissional. São espaços em que normalmente se tem um ou dois colegas negros em todo o corpo profissional. É aqui que se encaixa o caso de Joaquim Barbosa. São os ambientes em que negros são as raríssimas exceções. São espaços que deveriam surpreender qualquer pessoa que soubesse que existem mais negros que brancos no país. São espaços que, silenciosamente, denunciam a segregação escancarada de nossa sociedade. São espaços em que ser negro é exceção. Sendo assim, muito se escuta a frase do “negro que é exceção”. É o “negro de alma branca”. É o “negro competente”. É o “negro que deu certo”. As consequências dessas expressões são muito grandes. Pensar que aquele negro é uma exceção, significa que todo o resto deu errado, significa que só alguns poucos chegam lá. Paradoxalmente, nesses contextos, se reforça as ideias meritocráticas de que é possível chegar a esses espaços com muito esforço. Não se problematiza, entretanto, o menor esforço que a maioria daquelas pessoas brancas tiveram que fazer para estar no mesmo lugar que aquela pessoa negra hoje está. Só se fala do negro de primeira linha, só se fala de um entre todos, só se pressupões que os outros negros deram errado Mas, mesmo assim, a sociedade, e as pessoas brancas desse contextos, continuam sem ser racistas.

Ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o atual ministro Luís Barroso.

Ambientes do lar. Talvez esse seja um dos exemplos mais fortes da sociedade brasileira. Quantas pessoas brancas não conviveram e convivem, desde pequenas, com babás e empregadas negras? Quantas pessoas não têm aquela babá negra que já está lá há tanto tempo que “já faz parte da família”, até “mais parte da família que eu”, é “uma segunda mãe”? Quantas pessoas já não desabafaram, já contaram da sua vida, já não veem na funcionária da casa, uma amiga? Essa questão complexa foi demonstrada brilhantemente em filmes como “Histórias Cruzadas”, que estrela Viola Davis, e “Que horas ela volta?”, com Regina Casé. São essas babás, são essas empregadas, são esses motoristas, são essas enfermeiras que são pessoas negras de primeira linha. Para essas pessoas brancas que convivem com pessoas negras desde pequenas, muito mais para qualquer uma das outras, elas não são racistas.

Cena do filme Histórias Cruzadas

O que, afinal, é não ser negro de primeira linha? Os negros de segunda, terceira, quarta, quinta linha são os negros que, por diversos motivos, não conseguem enfrentar os constrangimentos sistêmicos cotidianos que impedem a mobilidade social. São pessoas que contestam quando escutam ofensas e brincadeiras racistas. São pessoas que não aceitam os “elogios” estereotipados direcionados a eles. São aquelas que se mobilizam politicamente para denunciar a democracia racial e desvelar o racismo cordial. São aquelas que não compram as ideias de partidos e de políticos que sustentam a falsa meritocracia na nossa sociedade.

Banner da série Cara Gente Branca

A sociedade brasileira é racista. O racismo está tão internalizado que, ao buscar não ser racista, as pessoas tem de se atentar até mesmo às nas palavras que vão usar. Têm de se atentar até mesmo ao elogio que será feito. Têm de se atentar o quanto sua opinião carrega ainda um pouco desse racismo com o qual aprendemos a conviver e aceitamos de alguma maneira. A ideia de negro de primeira linha não vai se encerrar com o pedido de desculpas do ministro Luís Roberto Barroso. A ideia de negro de primeira linha é essencial para que a sociedade se mantenha hoje da maneira que está. A ideia de negro de primeira linha, entretanto, não pode se manter assim. Cabe a cada um, antes de tudo, mudar o que precisa mudar em si e rever aquilo que se fala, aquilo que se escuta e aquilo que se aceita.