CONFUSO — Uma carta aberta a você


Passa da meia-noite e eu estou tentando não acordar meu irmão com as minhas lágrimas. Mesmo que você nunca leia isto, só vou provar o quanto sou confuso.

Não quero dormir. Sempre que fecho meus olhos eu encontro você lá: em meus sonhos tenebrosos, nos momentos que vivemos e nos diálogos que nunca chegaram a acontecer. Não por falta de oportunidade e sim por falta de coragem da minha parte.

Por quê falar de sentimentos dói? Pelo menos para mim, que nunca soube me expressar e agora estou escrevendo uma carta aberta à você. Cutucar a ferida que você causou é uma droga. E talvez ela nunca vá cicatrizar. Mas as cicatrizes provam que um dia as feridas param de doer e se fecham, mas a marca estará lá para lhe mostrar que você aguentou. Que você sobreviveu.

Somos todos sobreviventes.

Para quem está de fora fica difícil saber até onde persistir e quando parar de insistir; somente nós dois sabemos o quanto tentamos.

Mas, eu comecei errado. Não faz sentido contar como a ferida dói depois que ela está quase fechando. É preciso sofrer toda metamorfose. É preciso contar o como era doce, mas com um toque agridoce. Como costumávamos brigar por coisas tão simples e no outro dia nos amávamos feito cão e gato.

Lá estava você: com o seu carinho excessivo por mim. Por ter me contado que já foi apaixonada por mim. E eu, o mais trouxa do mundo, iludido pela ideia de ser amado.

Eu te amei de volta. Te amei de volta para não ferir o meu princípio de que é desumano alguém gostar de você e não poder corresponder. E, agora, talvez, você esteja gritando por eu ter te amado não pelo o que você era, e sim pelo o que me proporcionou.

Desculpe-me se isso te magoou.

Já me desculpei por também ter me magoado.

Já te desculpei por ter me chamado de otário.

Já te desculpei por ter selado meu rosto com seus beijos de batom vermelho.

Se você preferiu não tocar no assunto e seguir a nossa amizade, não foi uma escolha minha. Na verdade, eu nunca tive o poder de escolha. Foi você que decidiu comprar o cachecol azul e a mochila rasgada só porque eles ficavam bonitos juntos. Vou te contar um segredo: eles não eram bonitos.

Em que mundo o amor eros foi destruído porque o amor filia era mais real e o casal continuou a ser amigos sem segundas intenções? Só se for o seu mundo. Pois no meu sempre teve e parte de mim que acreditava que ainda haveria uma chance de voltarmos.

Eros é o amor carnal, o amor entre homem e mulher, o amor que aproxima duas pessoas que possuem sede de se conquistar. É o amor que pode ser repleto de paixões inebriantes.
O amor eros é uma experiência que todos já tivemos. Esse amor pode ser vivido de forma muito sadia quando o homem integra, unifica corpo e alma. Papa Bento XVI disse certa vez:

“Somente quando ambos (corpo e alma) se fundem verdadeiramente numa unidade é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só assim é que o amor — o eros — pode amadurecer até sua verdadeira grandeza”

Filia é o amor de amizade. É o amor que não monopoliza, não escraviza, não cria dependentes. É o amor que não tem burocracia.

Me diz: qual foi a definição do nosso amor? O amor coloris? (minha fraca tentativa de criar a definição grega de amizade colorida)

“Você não seguiu em frente”. Não, não segui. E a culpa de tudo isso é sua!

Mas enquanto você não volta, eu tenho que aceitar que você acorda todas as manhãs pensando em outra pessoa, e é essa outra pessoa que te faz feliz. Bom, eu espero acreditar assim.

Eu, com os pedaços do meu coração espalhados pelo chão, tento imaginar uma nova vida com a moça que trabalha comigo, com a amiga que me vê esporadicamente, com a morena do ônibus e a moça que trabalha na livraria. Eu não consigo. Na verdade, quando eu vejo-as, eu paro de imaginar no mesmo instante. Eu estaria te magoando. Te traindo. Me traindo.

Você é como um fantasma. Me persegue. Domina minha mente. Me perturba quando tudo já está um caos. Você é a ponta do iceberg. Você é um furacão.

Se o nosso amor foi mais que a amizade, deveríamos ter um sensor para avisarmos-nos que entramos no caminho errado. Aí, ninguém se machucaria. Eu teria entendido. Que mente confusa a minha. É por isso que eu nunca apareci com uma namorada em casa.

A lista de todas as garotas que eu já falei eu te amo, pelo menos em pensamento, é curta. E dessa lista, apenas com uma eu não construí uma amizade primeiro.

Porque eu sou otário.

Porque eu não sou garanhão.

Porque eu não sou sexy.

Deve ser por isso que nenhuma garota se sentiu atraída por mim.

Nem mesmo você.

Ele é engraçado, deve ser isso.

Mas, para mim, isso deveria ser apenas um detalhe. Se assim fosse, até os homens estariam aos meus pés.

Mas, você sabe que a janela sempre estará aberta para você. Nem quando ela deva está fechada.

Estou esperando tempo demais. E isso está me consumindo. Eu estou esperando você voltar. Se você voltar, eu direi te amo. Se não, penso em outro plano. Existe outro plano, não é? Deve haver.

Eu me pergunto como você nunca leu as entrelinhas que eu deixei nas mensagens que te mandei, na história que escrevi e te dei no seu aniversário (além de filmes e livros, dentro daquela caixa de sapatos que eu tive o prazer de roubar de uma loja).

Você me deixou confuso. Abandonou-me sem pedir desculpas. Partiu meu coração. Mas, sabe de uma coisa? Pode partir meu coração. Mil vezes, se desejar. Sempre foi seu para machucar do jeito que você quiser.

Os verdadeiros amantes são os verdadeiros amigos, mas as pessoas não querem acreditar nisso. Ou fui eu que distorci essa verdade para adaptá-la aos meus conceitos. Não importa.

Com toda essa mente confusa que eu tenho, das minhas incertezas e dúvidas, quando os dias acabam, a única certeza que carrego é a de que fomos feito um para o outro, apenas nos conhecemos na época errada. Somos fogo e gasolina, que juntos causam um estrago.

Mas, no momento, somos como uma lanterna sem pilha. Distantes um do outro, quase morrendo. Somos apenas cinzas de uma incessante chama. Somos o finito brilho apagado pela arte de ser bandida que você tanto domina.

Passa das duas horas da manhã e ao amanhecer eu me arrependerei de tudo o que escrevi. Mas a vida não me permite voltar atrás.

Eu prefiro me iludir, mais uma vez, e acreditar que para nós dois o tempo não existe. Acreditar que para nós dois o destino é apenas um jogo e nós ainda não sabemos jogar. Sei que a hora não ajuda em nada e eu uso-a como um pretexto caso você chegue a ler isto.

Então me prendo a essa ilusão e decido seguir em frente, evitando viver, evitando relembrar o passado. Mascarando minhas feições e sentimentos, dizendo a mim mesmo que é tudo um pesadelo e que você não vai voltar. Decido evitar conviver com a confusão da minha mente e tentar esquecer o quanto eu amo você.