Morte Insúbita

Ela vem se esgueirando pelos cantos, rastejando por baixo de portas, faz aquela sombra macabra subindo as escadas, entra no seu quarto e espera você deitar no travesseiro para aí, finalmente, dar o bote.

Não é do tipo que ataca e mata na hora. Não é essa a intenção dela, sabe? Ela gosta muito mais de ver o sofrimento da vítima em si do que comer o presunto que você vai virar em semanas. Às vezes, em anos. Dependendo da espécie, a bicha gosta mesmo é de ver a presa (no caso, você) se contorcendo de dor e sofrimento, para depois que você morrer asfixiado ela possa desfrutar uma refeição que valeu toda essa espera. “Hmmm…”, ela pensa, “esses músculos contraídos! Bem do jeito que eu gosto”.

A parte mais doida de tudo isso é como aparecem os sintomas causados por essa picada. As dores de cabeça, as questões existenciais. Você começa a botar a cabeça no travesseiro antes de dormir e um fluxo de ideias brota do nada. Antes que consiga perceber, o relógio do criado-mudo indica duas horas, quando você foi deitar às vinte e uma.

Depois disso, só piora. Uma vez era só à noite, mas começa a existir frequentemente. Durante a aula, quando um professor fala sobre macacos, você começa a pensar porque os extraterrestres alguma coisa. No meio do seu turno, você vê no formato da orelha da sua colega uma concha e fica pensando se é verdade aquilo que ouviu sobre simetria e humanos. Já está tão difícil que até comer um pão na chapa é uma tarefa árdua para você: “será que universo tem um fim? Como é chegar no fim do fim de algo?”. Sente saudades de quando esses pensamentos absurdos só aconteciam antes de dormir.

A víbora, caso você não saiba, fica sempre te seguindo, rastejando, vigiando dutos de ar, essas coisas. Tá esperando o negócio evoluir, pra saber quando vai finalmente cair duro, porque ela não come desde que deu o bote.

E aí agrava e você começa a notar que essas coisas não cabem mais só na sua cabeça. Os amigos até parecem pessoas confiáveis nessas horas — mas cá entre nós, ninguém quer conversar sobre a origem da vida às oito e meia da manhã. O pessoal mal sabe seu nome inteiro a essa hora. Decide que é melhor conversar sozinho. E conversa tanto que os estranhos passam por ti e ficam olhando com aquela cara de “Ih! Olha o maluco aí gente!”.

Sabe que não pode mais falar. Não tem amigos, nem família, nem mais você aguenta esses infortúnios. E eles não param. Sua garganta começa a apertar — é um nó que se forma. Ele cresce conforme o seu silêncio também aumenta. Tudo, na verdade, aumenta. Menos você. Fica retraído enquanto aquilo se expande de um jeito que não é mais capaz de controlar. A única coisa que pode fazer agora é ficar em posição fetal, porque desse jeito não dói tanto — e, mesmo assim, dói. Até que as lágrimas começam a cair e tranca a garganta de uma vez. A víbora olhando tudo. Ela chega bem perto, bem pertinho, babando pelo chão, com a boca aberta — porque ela sim está é morrendo de fome. Tá lá, esperando você morrer. Engasgado com todo o veneno que não pode soltar entalado bem na sua garganta e aquele chororô todo.

E aí você morre. E ela te come.

Mas até que não é ruim. Tipo, depois que você morre, é possível ver qual a nota que a víbora deu pra sua carne num aplicativo disponível apenas para o submundo.

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