O poema está cancelado!
Desçam logo o pano sobre este disparate.
Desnudem o verso de adereços; desmaquiem-no!
Organizem sem demora o esvaziamento da plateia.
Disso não se fala; desse jeito não se estampa…
A injúria destas rimas é difícil de engolir.

O eu-lírico é um ultraje!
Declama atrocidades; nem um pingo de pudor
e no entanto é carismático! Tem talento, dança, canta,
a ortografia é um primor — o que só aumenta a ojeriza.
Encarceramento é pouco! Degolem-no, é o jeito!
Despatriem-no do léxico; façam dele picadinho,
até que não se reconheça sintaxe ou semântica.

O poeta é culpado!
Existem testemunhas! Foi pego; a mão na massa.
Ainda por cima assina o crime com o nome de batismo.
O interdito já não basta. O que resta é a máxima sentença:
Vigiem-no em todo o calendário — inclusive em dias santos — ;
é durante seu repouso que o monstro, o desalmado,
se põe a devanear.