Conhecendo anjos

Sala de embarque do Aeroporto de Natal. Após cinco horas de estrada entre Mossoró e o terminal de partida do voo para Salvador, o bom humor daquela família parece estar intacto.

Edilson Godeiro, 75 anos, viaja com a esposa, Dora, e o filho adolescente, João Gabriel. Edilson é dono de uma rede de lojas de pneus e a matriz, em Salvador, está ampliando seus serviços. A viagem de negócios acabou virando também uma oportunidade de levar o caçula para aproveitar os últimos dias de férias.

Nossa conversa começa de um jeito improvável: “É do seu filho?”, me pergunta enquanto aponta com curiosidade para o ursinho de pelúcia no meu colo. Explico que aquele é meu companheiro de viagens há dez anos e que agora nosso destino é o Consulado da Espanha, em Salvador, onde vou solicitar o visto de estudante para minha viagem à Navarra.

Alguns minutos de conversa depois, ele sentencia:

Não se preocupe. Vamos te ajudar quando chegar lá. Fique conosco. A gente almoça juntos e ainda peço para alguém te deixar no seu hostel.

O convite não parece causar estranheza no filho ou na esposa. Pelo contrário. Ambos tratam de puxar assunto e me deixar confortável com a ideia.

Durante o embarque no avião, Edilson não faz questão de entrar como prioridade ou com os benefícios de ser um viajante frequente. Espera sorridente a fila diminuir para só então embarcar. Enquanto se encaminha para as últimas poltronas do avião, faz questão de desejar bom trabalho aos comissários.

No desembarque, mantém a mesma calma. Não se incomoda em ser um dos últimos a sair da aeronave. Faz questão de caminhar sem pressa pelo saguão. Aproveita o caminho pelos portões do aeroporto para cumprimentar quem trabalha por ali e contar histórias.

Seu filho mais velho nos recebe na saída do aeroporto e, antes mesmo de sermos apresentados, ele já se oferece para pegar a minha mochila enquanto indica a melhor maneira de me acomodar no carro. A simpatia parece ser herança natural na família.

Mais tarde, no almoço, Edilson aproveita minha curiosidade instintiva para rememorar, em tom saudosista, sua história de vida. É quando comento deste projeto. E pergunto se ele poderia ser meu primeiro personagem.

Para minha alegria, a afirmativa veio cheia de animação e acompanhada de mais detalhes sobre suas dificuldades e êxitos, como quem deseja passar um ensinamento importante.

Ele conta que nasceu em Patu, uma cidadezinha no Oeste Potiguar, distante cerca de 320 km de Natal. Com a vida pacata no interior do Rio Grande do Norte, só conheceu o mar aos 14 anos, quando decidiu que era hora de se aventurar além das fronteiras do seu município.

Ver um novo horizonte o fez despertar para o mundo. Na década de 1970, chegava à Bahia. Foi lá que iniciou a vida de empresário abrindo um posto de combustíveis. Anos mais tarde, abriu a primeira — das várias filiais que teria no futuro — loja de pneus.

“Engraçado pensar que na idade do João Gabriel nem passava pela minha cabeça poder proporcionar tudo isso para minha família um dia”, conta sem esconder a emoção de hoje oferecer uma vida tranquila e cheia de oportunidade aos filhos e netos.

O almoço termina. Seguimos para a matriz da sua empresa, onde seu neto me aguardava para, como prometido, me levar ao hostel. É lá que registramos nossa foto.

No último abraço de despedida, os agradeço com a certeza de que eles foram anjos na minha vida. Mal conseguia acreditar que aquilo tudo tinha sido real.

Em poucas horas, aprendi mais do que se pode imaginar sobre humildade, amor e empatia. Vi uma família que não mede esforços para ajudar. Me senti acolhida.

Na noite do dia seguinte, meu celular toca. “Oi Marina. Aqui é Edilson. Só estou ligando para saber se deu tudo certo lá no Consulado. Agora você é da família”.

Desligo com a voz embargada. Agora tenho certeza. Ganhei um avô no coração.