O vendedor de histórias

Todo mundo fala que adoraria ser eu… geralmente quem diz isso não sabe o inferno que é ter uma ideia por dia, quanto mais 15. Sim, 15. Exatamente 15. Histórias que serão medidas, testadas e, claro, avaliada para saber se não existe nenhuma chance delas causarem o tipo errado de sentimento.

Mais do que tudo, os personagens canônicos precisam estar nos ambientes certos. Ter suas frases de efeito usadas da forma adequada e causar a sensação de que existem histórias a serem contadas… sendo que infelizmente essas histórias perderam a sua alma a mais de 100 anos.

A capa vermelha, o símbolo que perdeu o sentido há tempos, mas que não pode ser reformulado. “Ele já morreu um monte de vezes, e sempre volta, ele é melhor que o cara da igreja, que só morreu uma vez. Fora que quem liga para andar sobre as águas quando se pode voar e disparar lasers pelos olhos?”

Outro ponto fundamental a ser alimentado é a Rixa. Ela é tão ilusória quanto às histórias a serem contadas, mas não pode mais ser aplacada. “Os fãs gostam de se dividir em tribos e isso ajuda a fidelizar”. É engraçado que o marketing e os grandes observadores de algoritmos têm mais a dizer sobre o que o “público” quer do que ele mesmo. As pesquisas se tornaram inúteis quando todo o seu consumo pode ser rastreado, quando toda a sua comunicação, até aquela conversa inocente de elevador que você tem pode ser rastreada.

Pode, não é. E a parte mais engraçada de tudo? As pessoas se voluntariam para isso. Elas são as chamadas “influenciadoras”. Elas falam bem, elas usam suas mídias sociais para divulgar suas paixões como um pastor em um púlpito e dessa forma, como cavaleiros em uma cruzada pelos corações e mentes dos desavisados, eles se tornam a ponta de lança de um sistema que alguns consideram escravocrata, e outros consideram idílico.

Eu? Amigo, a minha profissão é ser criativo, as duas possibilidades podem muito bem existir ao mesmo tempo, já que o céu não é bem o céu se todo mundo estiver lá.

Você deve se perguntar “mas e onde estão os rebeldes? Os renegados da coisa toda, aqueles que insistem em fazer diferente e querem um mundo melhor?” Eu te respondo: ou dentro de estúdios como eu, usando seus talentos para fazer algum dinheiro ou dentro das grandes ocupações, dos feudos independentes que nenhum governo ou polícia se importa de retomar, pois eles são depósitos convenientes para aqueles que não se adaptam ao cabresto dos olhos de vidro, à fusão do real e do virtual.

Bem… voltemos as histórias. Eu estou escrevendo isso porque comecei a encontrar alguns arquivos interessantes revirando o lixo e as histórias rejeitadas. Pensamentos que claramente não devem ser citados dentro de uma rede aberta, não com um login verdadeiro. Ser uma pária das redes hoje em dia é mais prejudicial do que jamais foi, já que você é a sua reputação, que é calculada de uma forma tão exorbitante que a maioria simplesmente aceita o número que recebe.

Enquanto isso, as armas continuam apontadas para o homem que se esconde à noite, o milionário continua dentro de sua armadura e as espadas brilhantes continuam sendo passadas adiante, de forma criativamente repetida, sem grandes sobressaltos. Mais alguns anos e eu posso deslogar e comprar uma casa na praia, e parar de vender ilusões pasteurizadas.