O espaço em que vivemos

Era mais um dia normal de trabalho na nave colonizadora KLEPPER-087, os motores soavam grosseiramente, a energia que ele liberava era algo divino de se ver, todos ali trabalhavam felizes. Mas, é por isso que venho contar essa história, aquela nave fez uma curva inesperada.

▬ Temos que por mais energia nos motores ▬ falou, vejam vocês, um estagiário apelidado de Macaco. Ele não era negro nem nada. Seu apelido vinha de seu planeta natal, Terra.

▬ Não há necessidade de por mais energia! ▬ contestou Robert.

▬ Deixe como está! ▬ afirmou Sabá, limpando a válvula de admissão da energia com a camiseta.

“Põe apenas um pouco de energia”, “não põe porra nenhuma”, “vai explodir se por mais”, “que se foda, põe logo!” : as sugestões sobre por ou não energia eram gritadas à plenos pulmões pelos dez ou quinze trabalhadores que ocupavam a sala de motores. Cansado daquela indecisão que não mostrava nenhum indício de consenso, Macaco gritou:

▬ Eu odeio vocês! Eu odeio todos vocês!

E saiu de lá direto para seus aposentos.

Horas depois, já deitado, Macaco não conseguiu dormir. Revirando pra lá e pra cá na cama, ele perguntava:

▬ Por quê? Por que as pessoas são assim? Por que ninguém me escuta? Por que meus companheiros de trabalho não podiam simplesmente dar ouvidos a minha decisão?

Macaco sentia raiva de todos os seus companheiros e, usando essa raiva, batia em seu peito tal qual um primata de seu planeta. Que raiva! Se pelo menos existisse uma saída… uma solução?

Naquela hora, com os olhos já fechando, Macaco teve uma ideia: ele iria dar um jeito de criar companheiros perfeitos que acatassem suas decisões. Ele iria construir A Máquina de Fazer Companheiros.

Logo que acordou, Macaco pulou da cama e pegou a sua caixa de ferramentas. Trancado no quarto, saindo apenas para almoçar e jantar, macaco trabalhou por horas e horas e horas. Quando já havia passado vinte e quatro horas A Máquina ficou pronta. Macaco não perdeu tempo e digitou os comandos de como deveriam ser os companheiros:

Todos usariam uniformes azul.
Todos iriam acatar sua decisão.
Todos depois do trabalho iriam assistir ao futebol na TV.
O cachorro-quente seria o lanche no intervalo para todos.

E assim continuou.

Tudo como Macaco queria.

A Máquina fez clack e depois fez crick e depois tóin e depois nhec-nhec-nhec e depois um som que parecia um gorila da montanha acasalando.

Uma luz piscou verde depois piscou rosa depois azul depois uma cor que Macaco nunca tinha visto antes (ele batizou na hora de Uau!). E foi Uau! mesmo. O quarto todo piscava e tremia e apitava. Até que:

Puff.

Puff?

Puff.

Tudo apagou.

▬ E agora? ▬ falou Macaco, não pra máquina ou pra mim ou pra você, mas pra ele mesmo.

Da Máquina primeiro saiu um companheiro, com um cachorro quente na mão. Depois outro companheiro, com um uniforme azul. Depois outro. E outro. E outro.

Funcionou! Macaco tinha finalmente os companheiros que desejou.

Que alegria! Que felicidade! Macaco não podia conter seu sorriso. Melhor, impossível. Seus companheiros eram perfeitos.

Na hora de ir pra sala dos motores, vestiam o uniforme azul.
Na hora de acatar as decisões do Macaco, acatavam.
Na hora do intervalo iam comer cachorro-quente.
Na hora do fim do expediente em dia de quarta-feira, assistiam o futebol na TV.

Sem o Robert pra contesta a sua decisão.
O Sabá para querer da uma ordem.
O abestado do mecânico pra querer comer jabuticabas no intervalo.
O Tsunami pra querer assistir anime após o termino do expediente.

Isso que é vida!

Na hora de ir pra sala dos motores, vestiam o uniforme azul.
Na hora de acatar as decisões do Macaco, acatavam.
Na hora do intervalo iam comer cachorro-quente.
Na hora do fim do expediente dia de quarta-feira, assistiam o futebol na TV.

Foi um dia excelente, uma semana ótima, um mês incrível! Mas aí algo aconteceu. O quê?

Vou dizer. Lá pelo segundo mês, Macaco já não aguentava mais ver tanta gente de azul, Ele sentia saudade de ter o uniforme amarelo.

Só futebol, futebol, Neymar, futebol. Ai que saco! Até um salto com vara ele topava assistir.

O gosto da salsicha já fazia sua barriga doer e sua boca ficar seca. O cachorro-quente já tinha perdido a graça, tinha gosto de nada.

Mas não. Os companheiros novos só queriam aquilo.

Futebol.
Cachorro-quente.
Uniforme azul.
Acatar todas as ordens.

Envergonhado, Macaco percebeu que sentia saudade de seus antigos companheiros de trabalho.

Mais tardar, Macaco dormia pesado um sono triste de quem estava arrependido. No meio de seu sono, quando todo mundo já dormiu e as coisas mágicas podem acontecer, uma fada entrou no quarto do Macaco e acordou-o com uma leve cutucadinha da varinha na ponta do nariz. Macaco levantou assustado, achou que era um inseto alienígena e, com um sopapo, jogou a fada, tadinha, contra o armário. Ela zonza voltou já se explicando:

Calma! Calma! Não precisa dar patada
Não sou nenhum inseto, eu sou uma fada
Eu vim aqui lhe ensinar uma breve lição
Sobre valorizar aquilo que temos em mão!

A coisa mais importante do mundo é a amizade
Não importa sua cor, seu nome ou sua idade
É fácil se irritar com um companheiro que pensa de outro jeito
Mas tente usar aquilo que você tem dentro do peito!

É fácil se apegar a quando você ouve um não,
mas lembre-se bem que isso é a exceção
Eles também tem preferências e sabe o que?
Abrem mão delas para trabalhar com você!

E daí que o Sabá prefere amarelo?
Lembre quando ele te ensinou a usar martelo
E daí que o Robert é mandão?
Juntos vocês dois trabalham de montão!

Ali, olhando aquela fadinha cantar voando no meio do seu quarto, Macaco de fato aprendeu uma importante lição:

O que torna os amigos interessantes não são as semelhanças, são as diferenças.

No dia seguinte, Macaco preparou uma grande festa e chamou todos seus antigos companheiros. Ele colocou em um anime na TV pra Tsunami. Fez tudo o que o Sabá mandava. Comprou jabuticabas para o Volnei (O mecânico abestado). O Macaco até fez um pastel de carne no lugar do cachorro-quente, era um pastel e tanto.

Ele explicou o que aconteceu, contou o que aprendeu e pediu desculpas. A turma toda entendeu e aceitou. Tudo certinho, a festa seguia agradabilíssima. Até que Sabá, sempre curioso, perguntou:

▬ Peraí! Como o Macaco conseguiu a tecnologia pra construir A Máquina de Fazer Companheiros, uma ferramenta que gera seres vivos instantaneamente, permitindo que o operador controle as motivações e ambições dessas pessoas? Ele é um estagiário!

Todas correram para o quarto do Macaco para ver A Máquina e, mesmo com o Macaco tentando barrar a porta, conseguiram ultrapassar, encontrando um círculo vermelho com um pentagrama bem no meio desenhado no chão do quarto do Macaco.

▬ Você fez bruxaria? ▬ chorou Robert.

— Um pacto com o Oculto? — gritou Sabá.

— Você invocou o Mal? — sussurrava assustado o Tsunami.

Macaco tentou cobrir o pentagrama com um tapete mas era tarde demais e o Robert já tinha dado um mata-leão nele, curvando seu corpinho e colocando-o ajoelhado no chão. Em sua nuca era possível ver uma tatuagem mais ou menos assim:

Sabá de novo curioso, perguntou:

— Peraí mais uma vez! Cadê os companheiros novos do Macaco? Eram umas quinze, vinte pessoas trabalhando dia e noite. Elas não podem ter simplesmente desaparecido.

Então Sabá olhou para baixo, estudando a carne dentro do pastel em sua mão. Meu Deus do Céu. A turma inteira correu até a cozinha e encontraram a geladeira recheada de pernas e mãos e dedos e línguas. Robert chorava compulsivamente. Tsunami vomitava também compulsivamente, como um hidrante aberto na calçada. Sabá amarrou Macaco com uma corda no pé da mesa enquanto eles pensavam no que fazer. Chamar o general? Um exorcista? Decapitar Macaco? Queimar o quarto inteiro abaixo, tentando livrar a área dos espíritos do Inferno?

Mas então eles ▬ todos ao mesmo tempo ▬ lembraram de uma lição muito importante que tinham aprendido mais cedo naquele dia:

O que torna os amigos interessantes não são as semelhanças, são as diferenças.

Quem eram eles para julgar? Sabá desamarrou Macaco e todos terminaram o dia se divertindo juntos. Amizade é saber respeitar a individualidade de cada um. Naquele dia foi possível ver a Galáxia de Andrômeda ao som das gargalhadas de pessoas que tinham certeza de ter a coisa mais importante do mundo: um amigo e companheiro.