Breve reflexão sobre ortodoxos e heterodoxos da teoria econômica ontem e hoje — Por Marcello Bolzan (IDEG)

Obs.: O texto abaixo não é um artigo propriamente. É, novamente, uma série de comentários escritos pelo Prof. Dr. Marcello Bolzan (IDEG), buscando solucionar dúvidas sobre teoria econômica de membros do grupo IRBr no Facebook, escritos publicamente, assim tem o caráter informal típico do meio no qual foi reproduzido.

duas coisas de que precisamos saber a priori sobre esse tema. 1) O mundo da economia não é feito de anjos e demônios, portanto, quando falamos de economistas dessa monta (J.M. Keynes e John Hicks), precisamos levar isso em conta. Dominam perfeitamente todos os elementos da economia e os utilizam, muitas vezes, de forma distanciada da ideologia que carregam. Sobretudo, quando falamos dos “neos”. Os neokeynesianos não desprezam Ricardo ou Smith e nem os neoliberais desprezam Keynes ou Marx. São economistas completos e possuem raciocínio amplo. 2) Essa é uma classificação muito abrangente e mais aceita na Europa. Portanto, é possível ver classificações distintas dessa da figura, justamente pela confluência das teorias.

Basta lembrarmos da principal diferença entre ortodoxos e heterodoxos: o equilíbrio. Mas, aqui devemos ir um pouco adiante. Se tomarmos os grandes pensadores como Ricardo, Smith e Marx, veremos que os dois primeiros defendem que a economia está sempre em equilíbrio. Ou seja, tudo o que é produzido é demandado por conta da amplidão de mercado, da concorrência e dinâmica dos custos na crescente escala. Portanto, a oferta será sempre igual a demanda se o governo não existir economicamente. Logo, os ortodoxos acreditam no equilíbrio constante. Para Marx, a lógica do equilíbrio constante não funciona de modo pleno para todos os mercados. O velho Marx vai analisar profundamente o capitalismo e principalmente o mercado de trabalho nesse sistema. Como a economia segue a lei dos rendimentos decrescentes, o aumento do emprego tende a rebaixar a agregação de valor marginalmente. Ou seja, quando se adiciona mais um trabalhador ele sempre renderá menos do que o anterior. Dessa forma, o capitalista não poderá, naturalmente, empregar 100% dos proletários dispostos ao trabalho. Ou seja, a oferta de mão de obra (proletário) será, naturalmente, maior do que a demanda por trabalho (capitalista). Logo, os salários serão rebaixados (existência do exército de reserva), a concorrência não é perfeita (há menos capitalistas com mais poder) e o equilíbrio não será nunca verificado. Portanto, Marx é um heterodoxo por não ver equilíbrio nunca no sistema capitalista.

Dessa forma, traçamos primariamente a diferença entre os dois blocos: ortodoxos clássicos acreditam no equilíbrio constante e o governo atrapalha pois rompe a lógica estável. Heterodoxos clássicos acreditam no desequilíbrio natural e argumentam que o governo pode fazer pouco ou quase nada para amenizar o problema, já que rapidamente se converterá em um aparelho do capital.

Quando chegamos ao pensamento de Keynes e dos neoclássicos, como Walras, já verificamos que há certas reorientações e modernizações na discussão. O mesmo se passa com os marxistas e críticos do capitalismo. Para esses teóricos, a diferença entre ortodoxos e heterodoxos, em relação ao equilíbrio, continua existente e muito firme. Porém, pelo lado keynesiano e kaleckiano, apesar do caos ser a regra do sistema capitalista em estado bruto, é possível, com a ação de forças exógenas (governo, planificação, planejamento, germinações, etc.) levar a economia a um, e único, ponto ideal de equilíbrio. O mesmo se passa com os neoliberais. Acreditam que o equilíbrio é a tendência natural de longo prazo na economia, porém, o governo deve ser doutrinado a interferir minimamente no sistema econômico para que, no longo prazo, a distribuição microeconômica da renda seja ideal e perfeita. Perceba que para essas vertentes o governo possui função ativa e passa a ser um agente importante de mercado: seja com intervenções econômicas que garantiriam melhores equilíbrios (Keynes e outros) ou seja com intervenções contidas e determinadas, com foco estrito no longo prazo, principalmente, exercendo sua função tributária.

Por fim, se dermos mais um passo na história, veremos que os neokeynesianos e neoliberais (do século XX) interagem ainda mais. Todos acreditam que há apenas um ponto de equilíbrio. Ou seja, um ponto efetivo de equilíbrio. Mas, discordam especificamente da forma como as políticas de governo, as instituições, as normas e regulações devem ser utilizadas para que o desenvolvimento possa ser atingido no curto e no longo prazo. A questão para os “neos” não é se o governo deve ou não ter um papel econômico, mas qual é a forma de ação econômica do governo. Para os neoliberais, o governo deve agir de forma regulatória, em determinados mercados, de modo a interferir minimamente no contexto que tende a ser equilibrado por natureza (é a turma da microcorreção de mercado). Para os neokeynesianos o governo deve utilizar as políticas econômicas — macroeconômicas — como a fiscal e a monetária, para, acompanhando os ciclos de forma racional, expandirem e retraírem a renda corrigindo distorções hora em preço hora em desemprego. Assim, asseguram o desenvolvimento sustentado, mesmo que a tendência do sistema seja ao desequilíbrio.

Bom, resultado: perceba que Hicks tende a ser classificado e é um neokeynesiano e um dos criadores do modelo IS-LM. Nada mais natural. Perceba que o modelo IS-LM mostra a interação de dois mercados no curto prazo, bem como os efeitos das política econômicas, sobre juros e renda: monetário e de bens. O equilíbrio ocorre quando os dois mercados estão cruzados (ou seja, quando o valor monetário paga o valor dos produtos gerados no capitalismo) e a renda e os juros estão definidos no equilíbrio. As políticas podem alterar o cenário, levando a resultados de crescimento sustentado ou estabilização quando necessária. Ninguém melhor do que um neokeynesiano para formular esse modelo, já que essa linha defende a existência de um mercado que tende ao caos e que deve ser estabilizado ou expandido por políticas monetárias ou fiscais.

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