Imigração: mitos e impactos econômicos nos países receptores

1. Impacto da migração na projeção demográfica

Em países desenvolvidos a migração há muito tem impacto decisivo no crescimento e ou re-equilíbrio demográfico, representando um fator de reposição ou redução do ritmo de decréscimo populacional. Na União Europeia, segundo compilação a partir de dados de 2009 da EUROSTAT, com saldo migratório positivo, o bloco teria um crescimento populacional estável até 2030 e uma manutenção da população até 2040 só recuando mais moderadamente a partir de 2050. Porém, com um [hipotético] saldo migratório nulo, a queda é vertiginosa com uma diferença projetada de quase 80 milhões de pessoas entre um quadro e outro até 2050. Embora meramente didática, a comparação nos dá uma ideia do papel decisivo da imigração no re-equilíbrio populacional numa região com vertiginoso envelhecimento e cada vez mais lento crescimento natural.

Dados compilados por Michèle Tribalat a partir de Centro de Estatísticas da UE

Na Alemanha, por exemplo, o saldo migratório seria responsável por uma redução populacional mais lenta. Se pensarmos que a população de migrantes economicos é predominante em idade economicamente ativa, isso poderia representar um alívio para o forte envelhecimento, para o qual se encaminha o país, cujo impacto na produção futura é ainda incalculável. Mesmo na França, cujo o envelhecimento e decréscimo populacional é mais lento, a saldo migratório positivo tem impacto nada desprezível.

2. “Imigrantes usam os serviços públicos e a gente paga”: Impactos econômicos do imigrante

Reino Unido

Diante da crise de refugiados em 2015, diversos políticos britânicos, reforçando esteriótipos que pouco tem a ver com a realidade — segundo mostram diversos estudos sobre o impacto migratório no Reino Unido — propuseram um endurecimento ainda maior à entrada na ilha. A despeito do senso comum, o impacto econômico dos imigrantes no R.U. não só é positivo, mas é fundamental para o crescimento do país. Um estudo apresentado na revista The Economist aponta que entre contribuição fiscal e custo ao Estado os imigrantes deixaram um saldo positivo de mais de $4 Bilhões de libras (cerca de $6.4 USD Bi). Curiosamente, os britânicos nativos deixaram um saldo geral negativo de $592 bilhões de libras na mesma comparação.

By calculating European immigrants’ share of the cost of government spending and their contribution to government revenues, the scholars estimate that between 1995 and 2011 the migrants made a positive contribution of more than £4 billion ($6.4 billion) to Britain, compared with an overall negative contribution of £591 billion for native Britons. Between 2001 and 2011, the net fiscal contribution of recent arrivals from the eastern European countries that have joined the EU since 2004 has amounted to almost £5 billion. Even during the worst years of the financial crisis, in 2007–11, they made a net contribution of almost £2 billion to British public finances. Migrants from other European countries chipped in £8.6 billion.

Esse mesmo estudo apresentado na revista demonstra que ao contrário do mito do excessivo peso sobre os serviços públicos, imigrantes são muito menos propenso a utilizar serviços públicos, chegando a apenas 8% entre os imigrantes europeus (especialmente do leste europeu) contra 36% dos nativos.

A redução drástica da entrada de imigrantes no Reino Unido, por outro lado, teria sérias consequências no que interessa ao fim e ao cabo: o bolso. Com saldo migratório zero (entrada e saída do país na mesma proporção), entre 2010 e 2060, a redução do PIB inglês, desconsiderando outros fatores imprevisíveis, seria de 11%. O PIB per capita cairia pelo menos 2,7%. O fator trabalho cairia também em torno de 11% e o fator capital mais de 11%. Ou seja, toda estrutura produtiva, emprego, renda e força e de trabalho seriam afetados num país que já está no limite de sua capacidade de expansão produtiva, além é claro da redução, no longo prazo, da população economicamente ativa devido ao envelhecimento geral da população na região.

Impactos econômicos de longo prazo na redução do saldo migratório no Reino Unido
Fonte: The Guardian

EUA

Os EUA talvez sejam o exemplo mais explícito do impacto econômico e demográfico positivos da imigração no longo prazo. Ao longo da história a imigração norte-norte, vindo da Europa, e Sul-Norte vindo Sudeste Asiático e América Latina foram responsáveis pela reposição populacional economicamente ativa e pelo retardo do envelhecimento verificado com mais impacto em outros países desenvolvidos.

A simples regularização dos ~desdocumentados~ nos EUA teria impacto de curto e médio prazo significativo. Como mostra o quadro da Fig. 3, em 10 anos, se os ~desdocumentados~ nos EUA adquirissem apenas a legalização de sua situação [sem cidadania em 10 anos], em números de 2013, o PIB aumentaria em $832 bi USD. Se estes obtivessem legalização imediata e cidadania em 5 anos, esse número passaria para $1 tri USD. Com cidadania e legalização imediata este número chegaria a $1.4 tri USD. O número de empregos gerados, o aumento impostos pagos (que para o ilegal/desdocumentado é bem inferior aos regularizados) e mais interessante, aumento de renda para todos os americanos atestam em qualquer caso que a imigração está longe de ser um problema econômico para os países receptores.

Fig 3 — Impacto econômico da regularização de desdocumentados nos EUA

O Bureau of Labor Statistics projeta que a maioria dos empregos nos próximos 10 anos (a partir de 2010) nos EUA serão criados em trabalhos de “baixa qualificação” ou que não poderiam ser “offshored” [trasladado para países cujo o custo de mão de obra é mais baixo] nem mecanizado. A maior parte destes empregos não atraem os americanos mas poderiam ser atrativos para imigrantes de menor qualificação.

Fonte: Bureau of Labor Statistics

3. EUA multiétnico e global

O pesquisador Willian Frey em entrevista para The Economist (ver vídeo abaixo) afirma que por volta de 2024, as minorias americanas constituirão aproximadamente 50% dos adultos votantes. “O crescimento rápido das populações minoritárias testemunhará o nascimento de uma “América Global”, afirma o geógrafo. Estamos assistindo já ao que ele chama de “maioria da minoria” com praticamente metade da população abaixo de 20 anos de “não brancos”. A sensação de “cadinho cultural” que sempre marcou qualquer olhar mais atento para a formação populacional nos EUA está tomando forma não mais apenas como complementaridade da força de produtiva, mas como elemento central da mesma.

4. O mito que alimenta o ódio

Poucos mitos tornados senso comum são tão prejudiciais na atualidade quanto os sobre imigração, seu tamanho real e seus impactos. Nada que está dito acima é novidade para geógrafos sérios e pesquisadores de humanas em geral. Eu mesmo, que não sou nem geógrafo nem pesquisador de humanas propriamente, me peguei supreso com o fato de que apenas 3% da população mundial é composta de imigrantes. Mesmo a migração interna representa um número bem pequeno. Mais de 80% da população vive no mesmo local onde nasceu. A luta pela manutenção hegemônica levada a cabo tanto por setores conservadores da política partidária, que exploram o tema de forma irresponsável e eleitoreira, quanto por camadas da sociedade extremamente privilegiadas que expiam sua “culpa” pela profunda desigualdade de renda jogando-a sobre os imigrantes torna diversos mitos verdade factual para muitos. O mito do imigrante preguiçoso, do imigrante que não contribui, do imigrante que onera o Estado é facilmente desconstruído com meia dúzia de textos e principalmente dados de pesquisa. Tanto na Europa quanto nos EUA, e pasme, lentamente no Brasil, a imigração se tornou o alvo predileto de quem precisa apontar um culpado para a crise mas não pode nem quer que sejam revelados os verdadeiros responsáveis.