Ligando os pontos: Oficina de Curitiba, sinfônicas no Rio, Banda Sinfônica em SP — uma “nova” política de estado

Acho curioso como as pessoas não ligam os pontos. A crise da música clássica/instrumental tem, lógico, relação com a recessão econômica. Entretanto, ela tem uma relação ainda mais profunda com dois aspectos fundamentais: 1) a maneira como essas práticas, especialmente as institucionais se relacionam com seus reais patronos, ou seja, a população; e 2) uma política/visão de Estado. O primeiro ponto trata de uma questão mais complexa, mas eu sintetizaria dizendo que tal qual as camadas (e são várias) médias e média-altas, economicamente falando, do Brasil, as figuras decisórias da música clássica brasileira tendem a se ver como parte do “andar de cima” do edifício musical (mesmo que seja apenas no sentido do valor simbólico). Ou seja, uma música que existe e deve existir porque simplesmente é “superior”, “eleva”, é o “máximo do engenho humano”, como se algo devesse existir “for the sake of it”.

O segundo ponto, e talvez mais importante no momento, diz respeito à uma política de estado. A crise econômica brasileira, uma crise cíclica, porém potencializada ao extremo pela guerra política e pelos erros de condução da mesma ( da crise e não da economia como um todo, ao meu ver) serve de álibi perfeito para a radicalização de um agenda de delapidação das funções primordiais (e constitucionais) do Estado. Nesse contexto, uma atividade que depende essencialmente de financiamento direto ou indireto do estado e que não traz retorno político ou financeiro está fatalmente condenada numa lógica de “estado mínimo” (como as reformas draconianas têm demonstrado, “mínimo” apenas para a massa trabalhadora, claro — o socorro bilionário as Teles só esgarça isso).

Quando falo de não ligar os pontos, talvez porque eles revelem essa brutal contradição, me refiro justamente a pessoas que se opuseram, ao nível do ódio, às políticas redistributivas, à forte expansão do papel do estado (mesmo quando tiveram também benefícios com isso) e até mesmo a políticas de segurança alimentar mais básicas como é o caso do Bolsa Família. O cancelamento da importantíssima Oficina de Música de Curitiba, plural como poucas em termos musicais, soa ainda mais irônico vindo da chamada “República de Curitiba”, capital mór do ódio de classe da atualidade brasileira (ou do racismo de classe como diria Jessé de Souza). [Uma cidade que considero das mais aprazíveis do Brasil, vale ressaltar]. Para ligar os pontos, às avessas, deixo como imagem o ataque que sofri (nada de grande monta, reconheço) de um dos principais porta-vozes em defesa da Oficina de Curitiba e ao mesmo tempo defensor ardoroso tanto de uma visão de música do tipo exposto no ponto 1 quanto do tipo de política de Estado que estamos vendo ser exercida goela abaixo, abruptamente e sem aprovação eleitoral, em alguns poucos meses. Xenofobia e ódio de classe à parte (explícitos no post do maestro Colarusso*), o maestro não vê contradição em demonizar políticas como Bolsa Família e seus possíveis usuários e ao mesmo tempo recorrer à renúncia fiscal para fazer sua arte musical, em valores nada modestos (Quantas famílias do BF seriam necessárias para pagar o projeto proposto por ele ao Minc (ver imagem)?). Frise-se, acho que a Lei Rouanet existe para isso, para projetos como o dele também, mas sua ira de classe, travestida de posição política, expressa como poucos como os pontos 1 e 2 desse texto se ligam e resultam no que estamos vendo ocorrer hoje.

Extraído de post no Facebook no começo de 2016

*o comentário em questão aconteceu num post de amigo/contato em comum. Tratava da suspensão da nomeação de Lula a ministro. Sem qualquer diálogo ou discussão prévia, o maestro Colarusso fez o comentário em destaque. Posteriormente fiquei sabendo que era prática comum dele atacar virulentamente e com termos no mesmo teor outras pessoas que discordavam de sua visão.