Os desafios da esquerda nas eleições de 2020 em Belo Horizonte

Os desafios da esquerda nas eleições de 2020 em Belo Horizonte
O Brasil vive um momento político de forte instabilidade, no qual todos os dias acordamos com notícias, em geral vindas do governo Bolsonaro, que seriam pouco críveis em anos anteriores. Belo Horizonte, no entanto, parece estar vivendo outra realidade.
Com a eleição do ex-presidente do Clube Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, de caráter estritamente populista, sem praticamente nenhuma promessa de campanha, a cidade anteviu um fenômeno mais difundido em 2018, quando o sentimento anti-partidário e anti-políticos foi quase unânime, gerando eleições para governadores e senadores de outsiders razoavelmente desconhecidos do povo em geral.
É preciso entender o desenrolar desses acontecimentos na nossa realidade local. Primeiramente, Kalil fez exatamente o oposto daquilo que prometeu.Com o tal slogan “chega de político”,organizou seu secretariado mantendo membros do governo anterior, o PSB, convidou secretários do PT, do PSDB, ex-vereadores e, recentemente, convidou para assessorá-lo até mesmo Adalclever Lopes (PMDB), ex-presidente da ALMG, figura que representa uma oligarquia política. Kalil dizia que iria resolver o problema dos ônibus e melhorar o transporte público, mas não o fez. Foi administrando a cidade e os problemas, de fato com orçamento encurtado, mas como faz um síndico em seu prédio, que apenas recebe demandas e encaminha, sem propor políticas públicas para melhorar a vida do cidadão ou estabelecer um debate político. Num dia foi à Parada LGBT para manifestar seu apoio, no outro determinou a retirada da palavra “gênero” do plano de educação e assim foi durante todo seu mandato.
O que não foi visto em um primeiro momento, é que ele já traçava a estratégia de sua reeleição desde o primeiro dia de eleito. Convocando as forças políticas mais tradicionais da cidade e mantendo a pose de populista não restaria ninguém para contrapô-lo. O líder do seu governo na Câmara Municipal no primeiro mês foi Gilson Reis, do PCdoB, trocado pelo Léo Burguês, do PSL, tem como ser mais fisiológico? Essa é a tônica para criar uma gigantesca base do governo no legislativo. O dia 07/11/2019 sintetiza bem o governo Kalil. Neste dia foi publicado no Diário Oficial do Município o patrocínio, através da Belotur, de 100 mil reais para a Semana do Hip Hop e 140 mil reais para a Marcha para Jesus.
Tal como nas eleições municipais de 2016 na qual fomos atropelados, o resultado das eleições presidenciais do ano passado na cidade, que deram a Bolsonaro 2/3 dos votos no segundo turno indicavam uma guinada à direita da cidade que nos anos 90 foi reduto da esquerda e do PT, nos colocando num cenário difícil de reverter. Entretanto, quase completando um ano de governo, Bolsonaro derreteu sua popularidade em todo o Brasil, criando talvez mais aversão do que simpatia por um candidato que deseje aparecer abraçado a ele nas eleições. Os postulantes que hoje vislumbra ocupar esse espaço mais autêntico da nova direita em Belo Horizonte terão de calcular muito bem onde pisar e é, naturalmente, nossa chance de nos reerguer organizando o contraponto à esse protofacismo local.
Mesmo assim, os desafios para uma candidatura própria do campo da esquerda não são tão fáceis quanto parecem. Seria possível unir partidos que nunca estiveram juntos numa única candidatura? Qual é o peso do fim das coligações nesta relação? Como justificar a presença de diversos setores da esquerda nas áreas sociais do governo Kalil? Como conquistar espaço político num cenário que até agora indica uma polarização entre o atual prefeito e um representante da extrema-direita? Existe hoje uma liderança popular capaz de mobilizar a militância e conquistar a população? E o mais fundamental dos questionamentos: como construir um programa e um projeto que se diferencie substancialmente dos outros, oferecendo para a população uma real alternativa ao imobilismo atual e ao radicalismo autoritário?
Ficam em aberto muitas destas questões, mas é importante ressaltar que neste dia 01/11, no encontro Cidades pela Democracia, consolidou-se um importante passo para a unidade da esquerda. Por outro lado, ainda não há esforços de nos distanciarmos do atual governo contra o qual pretendemos lançar uma candidatura no ano que vem.
Jorge Mairink
