A vida está lá fora
Exposição da primeira turma do curso de Curadoria em Arte da Universidade de Nova Lisboa surpreende pela contemporâneidade

A expansão do mercado de artes tem impulsionado a produção de exposições artísticas. Importantes eventos nacionais e estrangeiros tem como base a produção de exposições, atualmente fator de desenvolvimento econômico pela promoção do turismo, além de serem um importante instrumento de valorização da cultural.
Por esta razão, cada vez mais surge a necessidade de formação de novos críticos e curadores de arte para o sistema de museus. Isso levou a formação de diversos cursos de Especialização em Arte, com disciplinas específicas ou com ênfases em Crítica e Curadoria, que tem formado novas gerações de curadores com ampla formação conceitual. Esses cursos são oportunidades para que estudantes possam buscar especialização na área, conhecer o mercado, e principalmente, adquirir a experiência na responsabilidade do critico e curador.

Cursos de pós-graduação em Curadoria de Arte pretendem estimular e aprofundar os conhecimentos teóricos e profissionais na área de produção de exposições de arte. Espaços importantes para preparar futuros curadores e críticos de arte que desejem trabalhar em museus, galerias, centros e espaços independentes, meios de comunicação e projetos dedicados à arte contemporânea, tem na criação de exposições seu êxtase profissional. Daí a atenção que é dada aos trabalhos de cada nova turma.
É o caso do primeiro produto do trabalho coletivo de alunos de um desses cursos, o de pós-graduação em Curadoria da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Sua primeira turma está lançando a exposição A VIDA ESTÁ LÁ FORA. Os alunos foram preparados para serem especialistas que assumam não apenas a curadoria como campo de investigação, mas como domínio profissional.

A exposição será aberta ao público no período de 18 de setembro à 16 de outubro no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional e trabalha com questões relativas a formação da subjetividade na contemporaneidade e por isso a imagem e o simulacro são o centro de sua reflexão. Dizem seus autores: “Após a invenção da perspetiva como sistema de representação, a figuração deslocou-se para o lugar do espectador — para a forma como o mundo se lhe apresenta e interpela o olhar e os sentidos. Assim o exercício da representação desinteressou-se do real preferindo explorar os mecanismos que o percecionam ou o seu simulacro. O simulacro, no limite da sua perfeição, fixa uma realidade paralela, que é controlável e por isso preferível ao original. Paradoxalmente, parece garantir também uma espécie de “acesso imediato ao Real”.
A atualidade do tema é evidente. Desde que o sociólogo francês Jean Baudrillard escreveu a obra Simulacros e Simulações, uma nova forma de entendimento da imagem, da cultura de massa e da produção de subjetividade invadiu as ciências humanas. Estudos sobre a produção artística absorveram a influência e resultaram em análises criticas sobre produtos culturais mais diversos, estabelecendo o rompimento de limites entre arte, produção visual, industria cultural. O que está em evidência é o trabalho sobre o signo, que de agora em diante é o vetor de interpretações.

A VIDA ESTÁ LÁ FORA está organizada a partir de três temas. O primeiro é o contexto imaginário chamado “Comício” que evoca “o aglomerado social e a utopia de entendimento”. Para os organizadores, a linguagem que une a humanidade é a mesma que a divide, numa discreta analogia a Babel cotidiana. A segunda parte, chamada “Cinematógrafo”, reune trabalhos que evocam a experiência do cinema, o silêncio e a escuridão. Combinam-se sons que lembram a respiração artilha-se um mecanismo de imersão. A última parte, intitulada “Jardim”, propõe o imaginário aberto, dos parques e jardins, o ar livre, tom nostálgico por natureza “Tudo termina onde começa: na linha de horizonte, o cordel omnipresente que nos informa das orientações e medições que temos do mundo. Este está num beco e esconde uma mensagem. Aproximamo-nos para ler: A vida está lá fora
Os artistas escolheram uma notável forma de organizar sua exposição. Primeiro porque não a dissociaram do mundo, em uma cavalgada retrospectiva em direção ao eu, ao contrário, tudo o que se vê mantém relações diretas com o mundo que nos cerca, o “comício”,dos organizadores. Não é a toa que o sociólogo Zygmund Bauman em “Babel” trata exatamente disso: nada parece estar mais em seu lugar no mundo. É esse campo do que deixou de ser e o que ainda não é que se movem os artistas e as obras da exposição.

Como a arte representa o velho e o novo mundo? Ela experimenta. E do mesmo modo que o filósofo esloveno Slavoj Zizek parte para entender o das figuras inspiradas pelo cinema, os jovens reunidos na exposição A vida está lá fora tratam com privilégio a imagem: num mundo onde não há mais ideologias para dar forma as instituições, nossos jovens artistas propõem que a arte inspire os homens. Nada mais exato.
Qual a saída: de uma hiperconectividade das redes sociais à sensação ilusória do ativismo, a contemplação que a arte propicia evoca os momentos de silêncio que devemos ter. É a abertura que sugere a seção Jardim, que, exatamente no sentido dado pelo educador brasileiro Rubem Alves, chegou a hora em que cada um deve ser capaz de cultivar. O cuidado, a liberdade, que a figura do jardim inspira, num mundo cheio de tecnologia, talvez seja a alternativa para reelaborarmos nossas estruturas de consciência e por tanto, para que sobreviva a esperança.
SERVIÇO:
Exposição: A vida está lá fora
Onde: Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
Artistas selecionados:
ANDRÉ ALVES | ANTÓNIO JÚLIO DUARTE | BRÍGIDA MENDES | DANIEL BARROCA | JOÃO ONOFRE | JOÃO PAULO SERAFIM | JOSÉ LUÍS NETO | MARTA CASTELO | NUNO DA LUZ | PEDRO BARATEIRO | RICARDO JACINTO | SUSANA ANÁGUA | SUSANA GAUDÊNCIO
Curadoria: Luciana Menegoni Meirelles
Atividades em torno da exposição:
Visitas orientadas | conversas
Sábados, dias 24 de setembro e 15 de outubro, às 17h.