A vida no escaninho

Como procedimentos burocráticos hospitalares continuam matando vidas

Existe um arcaico que ronda os hospitais modernos. Você sabe qual?

Acho que descobri o motivo da tragédia da saúde e quero compartilhar com vocês. Aconteceu quando observei a rotina de um importante hospital da capital, desses informatizado, com recepção atenciosa, manobristas gentis, câmeras por todo o lado, registros computadorizados e instalações modernas e higiênicas. Descobri que o problema da saúde pública é o escaninho.

É curioso. Num universo de tecnologias modernas, subsiste um instrumento tradicional. Há uma série de procedimentos do ritual hospitalar que são objeto de registro. A memória do atendimento é o processo, o prontuário. Apesar de toda a tecnologia, ali, diante de seus olhos, você vê a rotina hospitalar depender de u m objeto antigo e tradicional, o escaninho. Não o menospreze: ele dirá o destino de sua saúde. Dira´quando você será atendido. É que ali fica o seu prontuário.

Observei durante horas o movimento ao redor de um escaninho hospitalar. Diferente do escaninho de qualquer outra instituição, aquele que fica na mesa do burocrata de plantão para receber processos, o escaninho hospitalar fica na parede aguardando, digamos, uma pescaria. É ali que os médicos que passam de um lado para o outro buscam o próximo trabalho. Ou não. Estar antes ou no fim da fila de um escaninho é a diferença entre esperar duas ou dez horas. Quando reclamei do excesso do tempo de espera, a atitude da atendente foi mudar o prontuário de posição no escaninho.

O desafio à morte

Por instantes, fiquei eu, frente a frente e sozinho com o escaninho. Como no filme O Sétimo Selo (1957), de Ingrid Bergman, eu era como o cavaleiro medieval interpretado por Max Von Sydow, desafiando a Morte, interpretada por Bengt Ekerot no jogo de xadrez. Depois da mudança de posição do prontuário, fiquei isolado frente ao escaninho. Como o cavaleiro medieval, imaginei uma jogada, mudar novamente a posição do prontuário e assim, tentar enganar a morte. Mas não o fiz. Não imagino a culpa pela dor causada por uma mudança não autorizada pelo destino . Nem que seja em um escaninho.

Poderia ser melhor, no entanto. O escaninho não chama o médico e diz “ei, doutor, aqui tem um paciente com dor”. O escaninho é passivo. Depende da iniciativa do médico. Tem outro equipamento de propulsão pneumática que leva objetos de um lado a outro do hospital e que tem um sinalizador que produz um barulho insuportável que chama a atenção. Isto sim é modernidade!. No dia do médico, que passou, desejo felicidades a classe, reconheço seus problemas mas gostaria de pedir, que, na próxima vez que passar pelo escaninho e se não for um incômodo, dê uma olhada maior naquele prontuário, pois a vida nos tempos que passam, está no escaninho.

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