Mais razões para a esquerda votar em Melo

O rótulo de direita atribuído ao candidato Melo é irracional do ponto de vista da estratégia política, que agora deve passar a ser a “redução de danos”.

O experimento do pássaro numa bomba de ar, de Joseph Wright (1768)

A imagem acima é intitulada “Uma experiência em um pássaro na bomba de ar“, do artista plástico Joseph Wright . Pintada em 1768, a obra recria um experimento onde um pássaro é lentamente privado de ar diante de um grupo variado de espectadores que apresentam diversas reações como indiferença, curiosidade científica e preocupação com a ave. O pássaro retratado vibra em pânico enquanto o ar é retirado lentamente do receptáculo pela bomba. A imagem é a metáfora perfeita para o que ocorre na política da capital às vésperas do segundo turno das eleições: se o pássaro for a cidade, a ascensão direita representada por Marchezan é, na minha opinião, a retirada radical do que resta de ar democrático que mantém viva a capital sob o testemunho dos partidos de esquerda. Divididos entre um PCdoB preocupado com o futuro da cidade, e por isso, capaz de sugerir a militância o voto em Sebastião Melo, ou a indiferença da esquerda representada pelo PT e PSOL, que pregam o voto nulo, e portanto, são o equivalente do menino muito chateado para observar o experimento direitista ou do autor deste texto, que como o cientista que conduz o experimento, olha para fora da imagem desafiando a esquerda que vota nulo se deve continuar com a posição que é o equivalente da retirada do bombeamento de ar que mata o pássaro, a esquerda está na encruzilhada: precisa decidir se votar nulo — e eleger indiretamente Marquezan — ou se deve levar algum ar — leia-se votar na candidatura Melo — e ajudar o pássaro a ser salvo.

Se o pássaro for a esquerda, não é este também seu sentimento, de que lhe falta de ar na competição eleitoral em Porto Alegre ganha pela direita? Agora resta saber qual proposta lhe retirará totalmente da circulação eleitoral ou lhe dará uma sobrevivida desejada. As lideranças de esquerda, salvo o bravo exemplo do PCdoB, falam em uníssono que os candidatos são iguais, desprezando suas diferenças, enquanto que o PT e o PSOL apostam que o governo pior irá garantir as condições para o seu retorno ao cenário politico. Na conjuntura atual, para mim o voto nulo é apenas uma forma de abrir espaço ao radicalismo das ideias neoliberais que fazem parte do PSDB, é só olhar o que está acontecendo em São Paulo, onde João Dória já anunciou o seu desejo de privatizar os parques: da mesma forma, quem duvida que numa eventual vitória do PSDB em Porto Alegre, esta ou outras medidas como a incorporação do projeto Escola sem Partido não sejam a política da secretaria municipal de meio ambiente ou de educação?

O desgaste provocado na esquerda por ter sido afastada da disputa em Porto Alegre fez-se no lugar mais precioso, sua capacidade de análise crítica. A esquerda perdeu o ar, afogou-se no radicalismo de sua própria ideologia, pois esquece que, por estar pensando com seu fígado, ainda precisa decidir para o bem da cidade entre os dois projetos que estão em jogo: os analistas apontam que é preciso escolher entre uma proposta de centro-direita, representada por Melo e uma proposta de direita (ou extrema direita), representada por Marquezan.

No dia 10 de outubro foi publicado no Jornal Já o manifesto “Por uma Frente Popular e Democrática em Porto Alegre” subscrita por mais de 30 intelectuais de esquerda que defendem o apoio da esquerda a candidatura de Sebastião Melo e Juliana Brizola com argumentos que o restante da esquerda recusa a enxergar:

“Temos, de um lado, a candidatura de Marchezan Jr., do PSDB, aliado ao PP, que representa um programa de retrocesso em relação não só às conquistas sociais, políticas e econômicas da última década, mas também em relação aos direitos e garantias assegurados pela Constituição de 1988. Essa candidatura tenta angariar votos e conquistar o eleitorado para propostas de submissão das políticas públicas aos princípios da iniciativa privada: privatização do patrimônio público, enxugamento da máquina pública, arrocho do funcionalismo e rebaixamento dos direitos de cidadania a uma pura e simples relação de clientela entre os cidadãos e o Estado, numa postura assistencialista. A vitória dessa candidatura, que conta com forças políticas oriundas da antiga ARENA, significaria a obtenção de uma base sólida na capital do estado para o aprofundamento do golpe e a consolidação do campo neoliberal no Rio Grande do Sul, com todo o retrocesso social, político e econômico que ele representa.

A coligação Melo e Juliana, por outro lado, em que pesem problemas da cidade não enfrentados pela gestão municipal nos últimos 12 anos e, ainda, a vinculação do partido do candidato a Prefeito ao golpe perpetrado contra a democracia por meio do impeachment, é mais plural, na medida em que conta com a presença de uma liderança do PDT no cargo de vice-prefeita. O PDT posicionou-se nacionalmente contra o golpe e reconhece a importância da participação popular na gestão pública. A origem pessoal e o vínculo de Melo com setores populares, a trajetória do Prefeito José Fortunatti, afiançador da chapa e historicamente vinculado ao campo democrático e popular, assim como a presença de Juliana Brizola como vice-prefeita, herdeira das propostas avançadas do Brizolismo para a emancipação da cidadania e a afirmação da democracia e da legalidade, não deixam dúvida sobre as diferenças entre as duas candidaturas em disputa. Frente ao retrocesso em curso no país após o golpe e o risco da fascistização crescente de nossas instituições, é fundamental que sejamos capazes, do espaço municipal ao nacional, de somar forças para a defesa da democracia e do Estado de Direito no país.”

Os fantasmas políticos da esquerda sairam da sepultura e estão afligindo os vivos, é só analisar o que está acontecendo em Porto Alegre, o espelho convexo e deformador do que está acontecendo no Rio neste exato momento. Lá, a candidatura de Marcelo Freixo representa a esperança de democratização. É uma candidatura renovadora, ao contrário da candidatura de Melo, que representa a continuidade. Mas lá, enquanto o candidato que Freixo enfrenta Crivela e tudo o que ele representa de ruim do neoliberalismo, como a participação das empresas privadas na prefeitura, aqui, Melo representa um fio de esperança para um debate democrático, o que não é pouca coisa, basta ver que, em São Paulo, João Dória, do PSDB, já anunciou que estuda privatizar o Ibirapuera e seu partido, no Rio, já liberou seus filiados para votarem em quem quiserem, desde que não seja em Freixo.

A eleição em Porto Alegre não provoca entusiasmo na esquerda porque ela partilha de uma visão simplista dos candidatos. É só olhar nas redes sociais, não se trata apenas do ódio a qualquer uma das candidaturas, é também a homogeneização da visão sobre elas, a recusa em reconhecer que, ainda que no mesmo espectro político, possuam diferenças. Aqueles da esquerda que rechaçam votar em Melo compartilham com a direita carioca o mesmo receio de que sua candidatura corresponda ao contrário do que defendem politicamente, esquecendo as diferenças de composição política, a história e mesmo a diferença entre o que é ser centro-direita e direita (ou extrema-direita) . E por esta razão, tanto a direita no Rio de Janeiro como a esquerda em Porto Alegre adotam a mesma estratégia contra Freixo e Melo: primeiro tentam desqualificar a trajetória de Melo para acusá-lo de marionete neoliberal quando a Frente Popular e Democrática em Porto Alegre defende que há uma substancial diferença entre eles, a saber, o vínculo de Melo com os setores populares, ao contrário de seu opositor, visceralmente ligado aos setores empresariais.

Outra reação da esquerda da capital contra Melo idêntica a reação conservadora contra Freixo no Rio de Janeiro é aquela que ataca o partido do candidato, aqui, no caso, o PMDB, sem considerar a presença do PDT na composição política no segundo turno das eleições. O que é muito curioso, ao menos para o PT, que esteve a bem pouco tempo “na lama até os últimos fios de cabelo”. Quer dizer, que legitimidade tem a esquerda para criticar até a raiz a candidatura Melo? Que purismo de ocasião é este que esquece que sem seus votos, Melo será derrotado e com isso, na minha opinião, uma proposta pior irá gerir a capital? Enquanto isso, e da mesma forma, enquanto Freixo é acusado pela direita de ser uma “esquerda atrasada”, Melo é acusado pela esquerda exatamente por ser a “direita atrasada”, mas esta é a extrema direita da capital, em minha opinião, é a direita de Marquezan — é só observar o “pavio curto” do candidato nas imagens das sessões da TV Câmara disponíveis nas redes sociais brandindo contra servidores públicos e motoristas de táxis. Se há um dogmatismo à vista na eleição da capital, na minha opinião é a da concepção ultraneoliberal de Marquezan que sinaliza privatização na Carris e atrasos dos salários dos servidores conforme matéria publicada no Jornal do Comércio da Capital, exatamente como está ocorrendo no governo estadual.

Por esta razão, a Frente Popular e Democrática em Porto Alegre tem reivindicado que, entre os dois candidatos, é Melo que, exatamente como Freixo no Rio de Janeiro, é o candidato que valoriza mais o diálogo em comparação com seu opositor, Nelson Marquezan. A esquerda, nas redes sociais, insulta Melo com o rótulo do “É tudo igual”, o que repete o que acontece com a direita no Rio de Janeiro, isto é, recusa a democratização da esfera pública, recusa participar do jogo político definido pela maioria dos cidadãos. Quer dizer, você pode aceitar ou recusar um candidato por diversas razões, mas você não pode recursar o resultado das urnas.

Ainda que o cenário político da capital tenha sido desenhado com contornos neoliberais que recusa, a esquerda precisa reconhecer que há uma proposta que não é marcada pelo dogma absoluto da defesa do mercado como seu concorrente. Eu defendo que a esquerda tem a opção entre o pior e menos pior, — claro que posso estar errado, pois é uma convicção. Ora, o elemento ausente do debate que a esquerda não está considerando é que está em jogo a manutenção do funcionamento da máquina pública municipal com serviços como saúde e educação, que na minha opinião não sobreviverão a um governo ultraliberal até a raiz dos cabelos. Minha posição de servidor É só observar o medo que ronda os servidores públicos municipais, o sentimento de anúncio da precarização futura promovida por uma proposta cujo carro chefe são possíveis privatizações como solução mágica dos problemas do município. Pois a opção é entre uma concepção que ainda considera o cidadão como cidadão ou uma nova que considera o cidadão exclusivamente como consumidor de serviços ou cliente. Como no Rio de Janeiro, onde a passividade da cidadania dominou as eleições, em Porto Alegre, a passividade da esquerda irá conduzir a Prefeitura o candidato da direita (ou extrema direita). E ele conta com isso.

A última estratégia da esquerda da capital que coincide com as manifestações da direita carioca está na desqualificação das propostas de Melo. A esquerda não fez uma análise detalhada delas, está julgando-as pelo senso comum de esquerda, isto é, por jargão partidário contruído pela esquerda para as massas que é incapaz de perceber sutis diferenças entre elas. E elas são importantes. As propostas de Melo e Marquezan tem semelhanças sim, tem contradições internas sim, mas para mim, enquanto uma proposta carrega um ideário neoliberal de estratégia gradual, isto é, de lenta aplicação porque mediada por um espírito negociador, seu opositor, na minha opinião, carrega um ideário neoliberal radical, agudo, isto é, de rápida aplicação porque mediada por um espirito “pavio curto”.

Valorizar um programa onde a cidadania “perde menos” não é retórica, é a reação possíel para a esquerda e melhor à resignação e aceitação que o voto nulo promove. É preciso trazer novos argumentos às candidaturas neste segundo turno para convencer a esquerda, e principalmente na candidatura da situação, como resgatar a experiência de gestão de Melo na Câmara Municipal, mais democrática, participativa e repleta de obras. Se Marquezan se eleger, as esperanças são menores, ma ainda existem. Somente uma leitura apressada da Câmara de Porto Alegre é capaz de pensar que as coisas serão fáceis para o candidato do PSDB: ele terá de enfrentar a verdade que nem tudo é sempre uma lógica de barganha, que está no coração da Câmara um conflito entre autonomia e subordinação ao Poder Executivo, daí, a experiência de negociador de Melo contará mais do que o “pavio curto” de Marquezan, na minha opinião, para uma gestão melhor para a capital.

Jorge Barcellos é articulista do Jornal Já e do Jornal Estado de Direito, onde é responsável pela coluna Democracia e Política. Historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. É chefe da Ação Educativa do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre e autor de “Educação e Poder Legislativo” (Aedos Editora, 2014). É colaborador dos jornais Sul21, Zero Hora, Le Monde Diplomatique Brasil e Folha de São Paulo, além de publicar nas plataformas Lamula (Peru), Sapo (Portugal) e Medium (EUA).

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