É preciso esclarecer algumas coisas sobre o suicídio

O assunto considerado complexo, é evitado pelos veículos de comunicação e pela população. Porém, quando noticiado ou discutido, é tratado com negligência.

O suicídio é um tema de saúde pública onde pouco se fala e é tratado como tabu pela sociedade e pela imprensa. Mas para identificar e prevenir o problema, é preciso falar sobre isso, por mais incômodo que seja. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas morrem anualmente devido ao problema. Em especial nos últimos anos, o suicídio têm aumentado entre jovens de 15 a 29 anos. E não é nas causas para o ocorrido que as discussões devem se voltar, e sim, na atenção a quem quer ser ouvido.

Depressão é uma das principais causas para o suicídio. Foto: Kelvin Dinelli

No Brasil, grupos de apoio, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), atendem de forma voluntária pessoas que já tentaram suicídio e que estão desenvolvendo tendências suicidas, dando apoio emocional e um ouvido amigo para quem quer ser escutado. Porém, existem outros grupos voluntários que atendem estes mesmo casos, muitas vezes indo até eles.

Bruna Risuenho é ativista e palestrante em escolas

A estudante de psicologia Bruna Risuenho, ativista social e palestrante sobre o tema em escolas, relata como as palestras que realiza mostram o imediatismo de falar sobre o assunto. “Em uma das primeiras vezes [que fiz a palestra] havia uma criança com uma marca ferida de cinto no pescoço, dizendo que tentou se matar, mas que não deu certo. E confessou isso com muita naturalidade”, diz.

A relação de religião e ciência no suicídio

Muitas pessoas procuram na religião, uma ajuda que pode ser encontrada na área clínica. Foto: Jorge Alberto

Instituições religiosas, como a igreja católica, também têm um papel importante no assunto. O pároco da Igreja de São Sebastião, Frei Paulo Xavier, afirma que a igreja promove a relação de ciência e religião no acolhimento de pessoas que muitas vezes procuram numa palavra de fé, uma solução que está na área clínica. “A igreja dialoga com as ciências e desse diálogo, surge o encaminhamento de pessoas com esses transtornos para esses profissionais”, ele diz.

Frei Paulo Xavier, pároco da Igreja de São Sebastião, acredita na relação com a igreja e as ciências. Foto: Kelvin Dinelli

Na paróquia, há um espaço onde fiéis ou membros da comunidade em seu entorno podem procurar ajuda. A psicóloga Maria do Carmo, uma das profissionais que atendem no local, afirma que problemas familiares são os casos que mais recorrem ao serviço. “Fui convidada pra dar o acompanhamento psicológico aos fieis que iniciam uma busca pela solução primeiramente no confessionário”, diz ela. “Os padres percebem que a questão religiosa, tem uma limitação no que se refere à saída da porta da igreja, para a realidade”, completa.

A psicóloga Maria do Carmo, atende na paróquia de São Sebastião. Foto: Kelvin Dinelli

A mídia e a imprensa na prevenção do suicídio

A romantização do suicídio também contribui bastante para o problema. A série Os 13 Porquês, que retrata a vida de um jovem que cometeu suicídio e deixa 13 fitas que explicam sua morte, mostra sempre o suicídio com uma alta carga emocional, plasticidade e impacto visual exagerado.

A série “Os 13 Porques” retrata um jovem que comete suicídio e deixa 13 motivos para isso, em fitas.

“Acho que a conversa para a conscientização sobre o assunto é boa, mas não tratando de uma forma bonita, por quê não é bonito”, explica Bruna.

A imprensa também contribui indiretamente para o aumento de casos de suicídio. O tema, que é muitas vezes ignorado devido a sua complexidade de discussão, quando mostrado nesses veículos, é tratado com descaso e muitas vezes impulsiona na piora do estado emocional de quem o assiste.

Ainda tabu na sociedade brasileira, o suicídio é um tema que costuma ser evitado pelos meios de comunicação. Foto: Kelvin Dinelli

O suicídio é um fenômeno de diversas causas, sendo impossível estabelecer um motivo para que aconteça. A morte de ídolos adolescentes por suicídio, como Chester Bennington e Chris Cornell, traz à tona uma das causas de tendências suicidas, como a falta de esperança, segundo a cartilha “Suicídio, Informando Para Viver”, do Conselho Federal de Medicina. A falta de expectativa que as coisas podem melhorar, são impulsionadas quando referências desses jovens têm suas vidas ceifadas de uma hora pra outra, sem nenhum motivo aparente.

Como agir nesses casos?

É essencial tratar o tema com sensibilidade, por esse motivo, a Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde, criaram documentos voltados a profissionais da mídia com recomendações para saber como ajudar na prevenção do suicídio.

O que fazer?

  • Trabalhar em conjunto com autoridades de saúde na apresentação dos fatos, como o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina.
  • Referir-se ao suicídio como suicídio “consumado”, não como suicídio “bem sucedido”.
  • Apresentar somente dados relevantes, em páginas internas de veículos impressos.
  • Destacar as alternativas ao suicídio.
  • Fornecer informações sobre números de telefones e endereços de grupos de apoio e serviços onde se possa obter ajuda, como o CVV.
  • Mostrar indicadores de risco e sinais de alerta sobre comportamento suicida.

O que NÃO fazer?

  • Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas.
  • Não informar detalhes específicos do método utilizado.
  • Não fornecer explicações simplistas.
  • Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso.
  • Não usar estereótipos religiosos ou culturais.
  • Não atribuir culpas.

Como detectar e prevenir o suicídio?

Foto: Kelvin Dinelli

Alguns sinais podem servir de alerta para o comportamento suicida, veja abaixo alguns deles:

  • Falar sobre morte, sobre não ter propósito e ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Procurar formas de se matar
  • Abusar de álcool ou drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas

Onde procurar ajuda?

188 ou 141 são os telefones do Centro de Valorização da Vida (CVV)
Também é possível receber ajuda via no site (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas, 7 dias por semana

Fontes: American Foundation for Suicide Prevention; Centro de Valorização da Vida; “Comportamento Suicida: Vamos Conversar sobre Isso?”, de Neury José Botega; e “Preventing Suicide: A Global Imperative”, da Organização Mundial da Saúde.

Reportagem: Beatriz Araújo, Beatriz Silveira, Caio César Freire, Cleison Marinho, Hariel Fontenelle, Henrique Mesquita, Jorge Alberto e Kelvin Dinelli.

Fotos: Kelvin Dinelli e Jorge Alberto.