A ocarina do fauno

Jorge Gabriel
Sep 1, 2018 · 3 min read

A ocarina do fauno havia quebrado e ele sentiu como se sua alma tivesse despedaçado junto com o instrumento. Afinal, um sátiro sem flauta é como estrela sem brilho, mago sem magia, Deus sem milagres.

Que seria de si agora? Não mais poderia tocar suas graciosas canções de amor e apaixonar os ouvintes.

Sua fonte de prazer se fora. Costumava se deliciar com o som dos aplausos empolgados, com o gosto salgado das lágrimas de alegria e com a visão dos rostos encantados de seus fãs, que o sacramentavam após tão seduzente espetáculo.

Sem todo esse amor, sua existência perderia o sentido. E assim veio a depressão. Com seus belos chifres ondulados caídos, o fauno vagou cabisbaixo pelos bosques que outrora protegia e reinava.

Escondia-se por entre árvores e arbustos para que não o vissem em seu estado mais frágil, temendo que a adoração se transformasse em escárnio e que ao invés de flores, atirassem-no pedras. Que ao invés de gritos de idolatria, vaiassem-no.

Sem a flauta, fonte do seu poder, era incapaz de atender as preces dos pastores que pediam por proteção aos seus rebanhos, dos caçadores que rogavam por boas caçadas e das mães que suplicavam pelos filhos perdidos na floresta.

Não que se importasse com qualquer um deles ou quaisquer outros, não, importava-se era com o amor não correspondido que sentiam por ele. Amava ser amado, independente de quem quer que lhe amasse, pois a ninguém amava, exceto a si mesmo.

Tinha plena consciência disso e nem de longe se sentia mal, sequer se incomodava, pelo contrário, sentia-se muito bem tal qual uma autêntica deidade, cuja natureza consiste exatamente nisso: amar-se e ser amado.

Por uma questão de amor próprio, foi até a caverna do Oráculo para saber se o destino teria lhe reservado uma nova flauta. Somente dessa forma tudo voltaria a ser como antes: dia e noite tocaria suas angelicais canções, angariando o coração dos ouvintes.

Não precisou pagar preço nenhum pelo serviço do Oráculo, pois esse já o esperava e sabia que estava destinado a informá-lo sobre seu futuro: “Terás uma nova flauta quando conquistar o coração do seu verdadeiro amor”, profetizou a sábia voz por debaixo do capuz negro que lhe cobria a face.

Tais palavras atingiram o sátiro como uma gélida espada de ferro. Ele sabia que as visões dos oráculos estão sempre certas e, pois, o que dizem está fadado a acontecer, já que é assim que funciona o destino afinal de contas.

Concluiu, então, que seu destino havia lhe pregado uma peça. Tinha o acorrentado a um fim irônico, no qual sua única salvação seria um castigo supremo para sua divina natureza arrogante. Uma sanção para seu ego inflado, uma punição para seu narcisismo desmedido.

Reconheceu ser uma piada de mau gosto muito bem planejada, daquelas que fazem todos rirem, exceto quem é o objeto das gargalhadas. Maldito Oráculo sabichão. Maldita profecia engessada. Maldito destino zombeteiro.

O fauno sabia ser o coração de seu verdadeiro amor aquele que carregava no peito.

Sem alternativas, agradeceu ao Oráculo, saiu da caverna e foi até o morro mais alto do bosque. De lá de cima, deitado, contemplou brevemente os céus, o horizonte e o mar de árvores verde que até há pouco era seu reino.

E iria recuperá-lo.

Já que deve ser assim…”, murmurou antes de se levantar.

Ergueu-se em suas pernas de cabra, respirou fundo pelas narinas de sua face peluda e enfiou sua mão humana no lado esquerdo do peito. Agarrou, apertou e arrancou fora o conteúdo interior. A bomba de sangue ainda pulsava quando foi rasgada ao meio.

E lá estava ela! Escondida como um tesouro! No núcleo do envelope de sangue havia uma linda ocarina escarlate. O fauno, porém, percebeu que havia alguma coisa errada: não conseguia mais tocar nenhuma canção de amor.