O horror que vi na lama de Mariana

Sábado de manhã. Estava cedo. Escovei os dentes e tomei um banho, quase arrependido. Coloquei algum disco do Foo Fighters pra tocar e entrei no carro com uma tia e um tio. Meio de novembro, já quase fim de semestre. Minha cabeça pensava na última temporada de House of Cards, no que iria comer no almoço e os trabalhos de faculdade.

Estávamos indo para Cachoeira Escura, distrito de Belo Oriente. Uma das cidades que teve o abastecimento de água comprometido por conta do Desastre de Mariana. O porta-malas estava cheio com galões, garrafas e tudo que pudemos carregar de água potável. Já havia um caminhão-pipa na cidade, mas sabemos que isso não é o bastante.

Foto: reprodução

Procuramos alguém dali que indicasse onde haviam idosos e pessoas acamadas que não podiam ir até o caminhão para recolher água. Encontramos um rapaz da cidade que nos deu uma lista e mostrou algumas casas. A primeira delas, a casa de uma idosa que vivia com a filha e que o caminhão pipa ignorou. Não sei os detalhes.

Havia uma rampa alta, estreita demais para o carro subir, então precisei descer e carregar a água. Fiquei sozinho com o porta-malas entreaberto, enquanto meus tios cumprimentavam e conversavam com as pessoas da casa. Foi quando senti um toque na minha mão. Vi uma garotinha.

— Moço, você trouxe água pra nós?

Ela segurava uma garrafa pet vazia contra o peito. Isso me cortou o coração. Não foi um “oh, puxa, que triste”. Foi um tapa na minha cara. Engoli em seco. Toda vez que penso na sensação de angústia, penso na reação daquela garotinha, com os dedos pequenos esbranquiçados de fazer pressão contra o corpo. Ela não estava me convencendo a dar um pouco de água. Estava suplicando.

A mãe chamou a filha, mas não tinha percebido a água no porta-malas. Quando ela viu, desviou o olhar e pegou a garota pelo braço. Ela não disse nada. Não continuou repreendendo a pequena nem olhou para trás. Chamei-as de volta e dei algumas garrafas, de forma que as outras pessoas que receberiam também não ficassem prejudicadas.

Quando visitamos a casa seguinte, numa situação parecida, vimos famílias inteiras carregando baldes e galões. Crianças que ainda trocavam as pernas e idosos que andavam com dificuldade desciam a ladeira em direção ao caminhão-pipa. Conforme descíamos, vimos pessoas correndo, com medo de acabar a água. De novo. A mãe da garotinha sorriu para mim. Gratidão genuína.

Já faz algum tempo, mas não consigo esquecer nem daquelas pessoas nem do clima da cidade. Uma barreira, um filtro que deixava tudo turvo demais. Como se houvesse alguma coisa no ar impedindo a cidade de viver de novo — e havia, mesmo. Em algum momento eu quase me esqueci da lama.

Mas tenho certeza de que aquelas pessoas não.

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