A noite em que um Museu pegou fogo

Jorge Rocha
Sep 3, 2018 · 2 min read

Nos dias atuais, em que no Brasil, e no Mundo, temos representantes que têm como base de campanhas negação da ciência; nos dias atuais, em que a quantidade de informação, e o acesso a ela é o mais democratizado desde sempre, mas que as pessoas optam por ignorar, um Museu pegou fogo.

Numa noite de domingo, um Museu pegou fogo. Talvez você não saiba muito sobre ele; o Museu que tem 200 anos de história, localizado na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Com um dos fósseis de Dinossauro mais completo conhecido. Com uma exposição de múmias comparável apenas às do Cairo. Cheio de memórias e sentimentos.

Neste momento, em um tempo tão polarizado, em que tenho amigos que optam por se posicionar em extremos, eu vejo uma uniformidade. O Museu da Quinta da Boa Vista, acredite, não era apenas um Museu. Neste local nasceram pesquisadores, cientistas, curiosos. Ainda hoje, alguns destes estão lá, fazendo suas pesquisas.

O Museu da Quinta da Boa Vista foi, talvez, o primeiro contato de muitas crianças com a ciência na forma mais amigável dela. Uma ciência bela, convidativa, apaixonante. Pássaros empalhados, coleções de botânica, coleções de borboleta, animais ferozes, pinturas, estátuas.

Talvez seja por isso que vejo tantas pessoas tristes por ele; opositores chorando juntos. Morrendo um pouco por dentro. Porque naquele Museu, que pega fogo, vivia um pedaço da infância de cada um. Uma criança que viu o quanto o mundo era grande, mesmo que por algumas horas, e que hoje ainda vivia no coração destas pessoas.

Mas, hoje um Museu pegou fogo. As labaredas o consumiram, seu teto caiu, suas pesquisas foram perdidas, sua arte foi arruinada. Talvez, amanhã, tudo que tenha sobrado seja o meteorito, que nos recebia. Afinal, o que é um pouco de fogo, perto do que ele sofreu para chegar no nosso Planeta?

Hoje um Museu pegou fogo. Uma das poucas palavras que eu faço questão de escrever com uma inicial maiúscula, em homenagem ao que ele era. Sinto lágrimas querendo sair, por luto a um lugar que tanto visitei. Por um lugar que fará falta.

Estou de luto não pelo local, entenda. Estou de luto por minhas memórias, e por aqueles que não poderão visitá-lo. Estou de luto pelos Cientistas que nunca serão; pelos Pesquisadores que nunca acordarão; pelas Crianças que perderam um pedaço do passado que moldaria seus futuros.

Hoje um Museu pegou fogo, e estou triste por isso.

Jorge Rocha

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Nunca li uma história de Super-Herói que começou com “Ele estava escrevendo no Medium”. Mas, quem sabe? Talvez eu esteja destinado a ser o primeiro.

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