Coisas que nos mudam

Durante a infância houve um evento específico que mudou o meu universo. Podia contar uma grande história de coragem familiar ou um rasgo de genialidade pessoal, ficava bem neste contexto. No entanto, foi algo pelo qual todos nós passamos: frequentar uma escola. Sim, nesse ensino formal que alguns exageram (a meu ver) ao dizer que “mata a criatividade”, “impede de brincar” e “apenas sobrecarrega os alunos com trabalhos de casa”.

Houve um evento específico que mudou o meu universo.

Eu teria escolhido ficar em casa a brincar com os bonecos do “He-Man” ou a passear com a minha mãe. Por existir um ensino obrigatório e gratuito (ou quase) fui inscrito numa escola pública e obrigado a estudar nove anos (na altura o ensino obrigatório era até ao 9º ano). Aprender a ler foi a coisa mais importante da minha vida.

CC By hieu le

Abriu portas para o desconhecido. E ousei explorar muitas páginas de muitos livros (e ainda quero mais). As alegrias que descobri, as histórias, as ideias e como a curiosidade se tornou um fogo nos meus pensamentos.

Eu gostava que me lessem histórias, mas passei a ter a liberdade de mergulhar nas letras mesmo sozinho. Descodificar e perceber um pouco mais.

“… fui inscrito numa escola pública e obrigado a estudar …”

Claro que eu queria ler o “não-recomendado” pelos professores, claro que queria escrever as palhaçadas que me faziam rir.

Ditados, cópias e livros obrigatórios faziam parte de um mundo de escravidão que recusava interiormente. Mas foi com eles que treinei e aprendi. Tudo o resto veio por ter superado este desafio com persistência.

No quinto ano de escolaridade passei a aprender a ler em Inglês. As portas da percepção ainda abriram mais.

Por gostar de ler e aprender fez-me sentido continuar a estudar. Lá fui eu com a nova meta de estudar até ao 12º ano, escolhi ciências como o verdadeiro aluno que gosta de ler e é curioso (permitam-me a provocação a todos os outros que também o eram e escolheram outras áreas). Pensei que ía amar Filosofia, mas Matemática e Biologia ganharam logo o meu coração (apesar de nem sempre ser suficiente para combater a preguiça de estudar, afinal o mundo fora da escola é sempre mais interessante).

Escolhi ciências como o verdadeiro aluno que gosta de ler e é curioso

Li o “Pela Estrada Fora”, o “1984”, “O Senhor dos Anéis”, “O Alquimista”, “O Principezinho”, “A História Interminável”, “O Ensaio sobre a cegueira”… Li muitos jornais, folhetos… A verdadeira literatura (a das ideias exploradas sem regras) encontrei na banda desenhada e em contos.

Tempo? Sempre houve, cortava onde era inútil (conversas que não levam a lado nenhum ou ficar a chorar sobre leite derramado).

E quando terminei o 12º ano não sabia o que queria estudar (acho que poucos sabem mas deixo este tema para um próximo texto) mas sabia que queria continuar a ler e a escrever. Lá fui eu para a faculdade fazer uma licenciatura.

“Tempo? Sempre houve, cortava onde era inútil”

Curiosamente foi a escrita online que me fez escrever muito mais e conhecer muitas outras coisas que o sistema de ensino não têve oportunidade de me ensinar. Quando criei o meu primeiro blog (julgo que em 2002) percebi que é bom ser um criador de conteúdo.

Durante um período de 5 anos andei por essa internet fora só a ler coisas e descobri que exisitia um bom motivo para voltar à faculdade e ler mais, o dia em que percebi que queria fazer um mestrado. Durante dois anos li muitos livros técnicos, artigos e escrevi umas coisas engraçadas (nada de brilhante mas que tenho orgulho de ter feito).

Hoje dou por mim a usar as férias para escrever, a soltar ideias, atirar palavras para o mundo (via teclado) e com vontade de aceitar o desafio do doutoramento (mas só no próximo ano lectivo que agora a minha empresa precisa mais de mim). E nada disto seria possível se não tivesse aprendido a ler.

Ainda bem que tive uma Professora Maria Luísa que persistentemente me ensinou a descodificar as letras, os sons e os primeiros significados. Porque até nisto ler tem uma coisa boa, é preciso alguém que nos ensine (ao contrário do mito espalhado frequentemente que alguns se gabam de ter aprendido sozinho). Alguém nos descodificou que aquele símbolo tem um som que já sabíamos fazer (ou então aprendemos) e depois nos disse como se ligava tudo e para que serviam uns sinais. E a partir daí o nosso cérebro mudou e nunca mais olhámos para o mundo de forma igual.

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