“A liberdade é azul” e a simbologia do cinema

Conhecida trilogia das cores está em cartaz na Mostra Roda Cine em Curitiba

Juliette Binoche é a estrela deste clássico moderno
Reportagem: Robinson Alves | Edição: Arthur Henrique

A Liberdade é Azul, do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, utiliza de elementos não verbais para aprofundar a narrativa. Na trama, Julie Vignon (Juliette Binoche) perde seu marido, um músico de sucesso, e sua filha num acidente de carro. Inicialmente, Julie decide renunciar a tudo o que conquistou junto com sua finada família até o momento em que opta por terminar a última obra que seu marido estava compondo.

Krzysztof iniciou sua carreira na Polônia, mas sempre foi influenciado pelo cinema francês. Longos planos sem corte e um uso intenso das cores são algumas das características que o diretor sempre buscou utilizar. A redução dos diálogos e um uso mais intenso de linguagem não verbal tornam seus filmes mais sensíveis e exigem que o público seja mais ativo que passivo ao longo de cada cena.

A simbologia do filme já é sentida logo no título original, Trois Couleurs: Bleu (Três Cores: Azul, numa tradução literal). O filme foi, desde sua produção, concebido como a primeira parte da chamada trilogia das cores (seguido por A Liberdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha). Nem as escolhas das cores, nem suas temáticas são aleatórias. As cores seguem a bandeira da França, e as temáticas seus significados originais, a partir do lema da Revolução Francesa.

Todo o filme trabalha a ideia da busca pela liberdade, como o título traduzido sugere. Porém não se trata de algo que é visto diretamente. Enquanto o azul pode ser visto como uma simbologia ao estado de melancolia que Julie Vignon se encontra, a luta contra esse sentimento fica evidenciada, a partir do segundo ato.

Krzysztof utiliza filtros para deixar a imagem menos saturada e consegue assim que quase tudo que cerca a viúva fique azul. É como se o mundo não quisesse que Julie se esqueça que está sozinha no mundo. Se livrar de tudo o que possuía e evitar o contato com as pessoas torna-se quase uma obsessão.

No último ato, vemos a sua redenção. A personagem, que ainda neste momento não foi construída por completo, passa a ganhar destaque por suas qualidades. Cabe, então, para a amante, recém descoberta, de seu falecido marido fazer com que Julie aceite que voltar à realidade da vida não é uma escolha e sim uma necessidade. A liberdade que ela tanto buscou ao se isolar da sociedade só será alcançada quando aceitar que precisa seguir em frente.

No final, Krzysztof consegue segurar o público até que os créditos surgem na tela. Toda a simbologia se mantém coesa. Trata-se de uma direção delicada e sem pressa. Os longos planos somado aos cortes suaves entre cada cena permitem que o público possa contemplar cada momento do filme. O azul que preenche a tela e dita o tom do filme não ofusca as sequências mais dinâmicas, ele está ali apenas para nos lembrar que o mundo é algo real.

A trilogia das cores se complementa com outros dois filmes que seguem a mesma lógica. A brincadeira com a paleta de cores é uma experiência visual excitante nas mãos de um bom diretor como Krzysztof. E em tempos de filmes que nos revelam mais do que deveriam e exigem tão pouco do público, a obra final do diretor polonês é um presente ao universo cinematográfico.

Exibição na cidade

Em Curitiba, a Trilogia das Cores faz parte da Mostra Roda Cine da Casa de Leitura Augusto Stresser. Teve início no dia 01/09 com a Liberdade é Azul, no dia 15/09 com A Igualdade é Branca e no dia 29/09 encerra com a terceira parte, com A Fraternidade é Vermelha. A exibição será às 14h e a entrada é franca.

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