Curitiba é um dos polos de HQs do país

Com forte tradição em quadrinhos, projetos alavancam cena de HQs que estava adormecida desde os anos 1980

“Curitiba tem uma tradição de quadrinhos muito forte. O que mais atesta isso é a presença da Gibiteca, que existe há mais de 30 anos”, aponta José Aguiar, fomentador de projetos que incentivam a produção e divulgação de HQs em Curitiba (Foto: Divulgação)
Reportagem: Monique Portela | Edição: Bruno Vieira

A série Além do Gibi, feita pelo Jornal Comunicação sobre as histórias em quadrinhos (HQ’s) já mostrou que o mercado brasileiro de HQs encontra-se no seu melhor momento em anos, que os quadrinhos são uma importante forma de narrativa e como as mulheres são representadas nessa mídia. Agora, nessa última matéria, é mostrado um pouco do cenário local dos quadrinhos e as dificuldades encontradas pelos artistas curitibanos no mercado daqui.


“A gente é fascinado pelo o que é de fora e não acredita que as coisas acontecem aqui, do lado de cá”, afirma José Aguiar, arte-educador formado pela FAP e quadrinista com obras publicadas no Brasil e na França. Ainda que não figure entre os países que mais consomem quadrinhos, como Japão, França e Estados Unidos, o mercado de HQs está em expansão no Brasil. Algumas cidades, porém, têm se destacado: Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba já são considerados polos de HQs no país.

Há 33 anos era criada em Curitiba a primeira Gibiteca do Brasil, numa época em que a chamada Geração Grafipar fazia sucesso e aquecia a cena de quadrinhos na cidade. Mas após a editora Grafipar fechar em 1983 por culpa da crise econômica, houve um certo retrocesso no cenário local. “Agora, principalmente no período pós-GibiCon e Cena HQ, temos o reaquecimento dessa cena. Nós já produzimos muita coisa aqui, mas está aumentando drasticamente a quantidade de autores locais”, comenta José Aguiar.

Ele faz referência a dois projetos que visam ajudar a fomentar a produção e a divulgação dos HQs em Curitiba: a Convenção Internacional de Quadrinhos (GibiCon), evento coordenado e produzido por Fabrizio Andriani e Luciana Falcon em 2011, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, que chegou a reunir mais de 20 mil pessoas em sua última edição, em 2014; e a Cena HQ, projeto que Aguiar desenvolveu em parceria com a companhia teatral Vigor Mortis e com patrocínio da Caixa Cultural, que promove a leitura dramática de quadrinhos há 4 anos.

E os efeitos de projetos como esses já são sentidos pelos artistas locais. O quadrinista Ibraim Roberson, que trabalha para as maiores editoras de HQs do mundo, como a Marvel e a DC Comics, afirma que a GibiCon ajudou a consolidar o quadrinho como parte da cultura curitibana. “Assim como tem o Festival de Teatro, o Festival de Gastronomia, o Festival de Quadrinhos, que é a GibiCon, entrou na agenda local”.

“Virou um show a parte da venda do quadrinho, a parte da produção autoral”, comenta Ibraim Roberson quanto às turnês e convenções de quadrinhos. “Ao invés de você esperar vender pelas editoras, você produz seu próprio quadrinho vende direto para o teu público” (Foto: Milena Celli)

Dificuldades

Apesar do quadro promissor de Curitiba, que conta com eventos fortes de quadrinhos, ciclos de discussão e grandes nomes já consolidados nas HQs, os quadrinistas curitibanos apontam dificuldades em exercer seu trabalho. “O fato de Curitiba ser um centro menor é um obstáculo. Nem tudo pode ser suprido pela internet e suas modalidades de comunicação digital”, é o que afirma Guilherme Caldas, quadrinista formado em Artes Plásticas na ECA e fundador da Candyland.

A dificuldade em escoar a grande produção de HQs em Curitiba é um problema apontado por todos os quadrinistas entrevistados. “Em São Paulo ou Rio você tem campos de venda um pouco maiores. Mas eu não vejo uma dificuldade gigantesca, acho que é uma deficiência na questão de público proporcional às cidades grandes”, contrapõe Ibraim Roberson.

“Colocar seu trabalho no espaço limitado de uma página impressa, montar essas páginas em formato de cadernos, diagramar isso tudo é bem mais complicado do que parece”, diz Guilherme Caldas, cujos quadrinhos podem ser encontrados aqui (Foto: Ana Clara Tonocchi)

Para além do escoamento, a ausência de editoras que publiquem HQs também é um problema. As grandes editoras da cidade são voltadas à publicação de livros didáticos — a cena local dos quadrinhos se produz e se promove de modo independente. A Quadrinhofilia, editora de José Aguiar, e a Quadrinhópole, do quadrinista Leonardo Melo, são exemplos disso. Com poucos títulos no catálogo, por culpa do alto custo para as publicações, as editoras passaram a usar uma nova ferramenta para tentar escoar as produções de modo mais eficaz: criaram lojas on-line.

Ainda assim, a carência de espaços que comercializem HQs, especialmente os autorais e independentes, é uma reclamação recorrente dos quadrinistas, assim como a falta de leis de incentivo governamentais que auxiliem a produção de quadrinhos. “Vejo esforços pontuais por parte de editores independentes, mas não vejo uma premiação ou editais na área de cultura que visem atender esta área”, arremata Guilherme Caldas.

Soluções

Para vencer a falta de investimentos públicos, iniciativas de financiamento coletivo como o Catarse são apontados como uma solução. “Se o seu projeto é bom, você pode procurar patrocínios privados, assim talvez você se desvincule dessa necessidade esperar o próximo edital”, comenta Ibraim. Mas para o principal problema — o escoamento de produção — a solução ideal, segundo os quadrinistas, seria a organização de mais eventos à exemplo da GibiCon e do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que este ano acontecerá em Belo Horizonte, de 11 a 15 de novembro.

A aproximação entre autor e leitor é fundamental para criar visibilidade e, consequentemente, um público leitor maior. André Ducci, que recentemente lançou a graphic novel “Fim do Mundo”, chega a comentar que uma medida à longo prazo seria investir em educação: “Esse povo não tem acesso a arte no geral, e o quadrinho entra nesse esquema”.

No entanto, apesar das dificuldades, o cenário atual é otimista, como sintetiza Ibraim: “Independentemente de qualquer tipo de dificuldade que os quadrinistas tenham por ser uma mídia um pouco mais marginal, eles dão um jeito sozinhos, aqui em Curitiba, de produzir os seus quadrinhos, de fazer suas histórias independentes, de trocar suas ideias”.


Originally published at www.jornalcomunicacao.ufpr.br on August 6, 2015.

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