“Sou movido a sorrisos”

Estudante da UFPR cruza Estados Unidos de bicicleta construindo casas para famílias carentes

(Foto: arquivo pessoal)
Reportagem: Thaiany Osório | Edição: Aléxia Saraiva

Eduardo Kichileski Pinheiro, 20 anos, é estudante de Engenharia Civil na UFPR. Em 2015, ele participou de um projeto da ONG Bike and Build, quando passou 75 dias viajando de bicicleta construindo casas para famílias de baixa renda.

No final do mesmo ano, foi selecionado para representar o Brasil em um encontro internacional em Nova York, onde vai apresentar seu projeto de “Cidades e Comunidades Sustentáveis” na sede da ONU. Recentemente ocupava o cargo de gerente na área de projetos da AIESEC (Associação Internacional de Estudantes em Ciências Econômicas e Comerciais), organização que incentiva a liderança jovem e o desenvolvimento das potencialidades humanas.

(Foto: arquivo pessoal)

Como se deu o seu interesse pelas causas sociais?

Desde o ensino médio eu participava do grupo de pastoral da minha escola. Nunca fui muito religioso, mas gostava das ações e de ajudar as pessoas. Me formei no terceirão com mais de 250 horas de voluntariado. Quando entrei na faculdade fiquei um ano e meio sem fazer nada nessa área, até que fiz intercâmbio pelo programa Ciências sem Fronteiras e fui morar em Tempe, nos Estados Unidos. Foi uma experiência que abriu meu mundo. Eu tinha 18 anos, queria descobrir tudo o que podia, e era a primeira vez que morava sem meus pais e fora do Brasil. Consegui focar meus estudos em planejamento urbano e a participar de clubes de sustentabilidade. Foi fazendo algumas ações sociais que comecei a procurar projetos do meu interesse. Por estar cursando Engenharia Civil eu consegui realizar um trabalho em que cruzei os EUA de bicicleta construindo casas para famílias carentes.

Como começou o projeto?

Antes de começarmos, tivemos que arrecadar 4,5 mil dólares para bancar os projetos que desenvolveríamos, fazer o treinamento físico, apresentar horas de voluntariado e ter experiência na área de construção. Como a viagem foi de 6,5 mil quilômetros (a distância máxima entre o Sul e o Norte do Brasil totalizam cerca de 4,4 mil km), precisávamos treinar no mínimo 1,2 mil. Depois dessas preparações, a viagem começou no dia 11 de junho de 2015. A equipe se encontrou em New Haven, Connecticut (cidade onde fica a universidade Yale). Tivemos dois dias de introdução e um minicurso de segurança na bicicleta onde aprendemos o que fazer para pedalar em grupo, — porque existem técnicas que são diferentes das que usamos quando pedalamos sozinhos. Ao todo, foram 75 dias de projeto, contando com os dias de construção, os dias livres e os dias de introdução. Trabalhamos ao todo 15 dias de construção e 45 dias em cima da bicicleta, viajando.

Qual foi a maior dificuldade que você sentiu nesses 75 dias?

Tivemos muitas subidas no Colorado, mas lá é tão bonito que a subida valia a pena. Eu subiria três vezes mais só para ver de novo. As maiores dificuldades foram no começo: duas semanas subindo na chuva os Montes Apalaches.

Nessas condições, ainda desacostumado com o pedal, eu chegava até a exaustão. Foram 15 dias onde eu “pedalava, comia e dormia, pedalava, comia, dormia e então construía”. Outro empecilho é que eu caí em uma das decidas. Não me machuquei, mas poderia ter acontecido muito pior. Outro momento complicado foi quando morreu atropelada uma pessoa de outra rota. Todo mundo ficou em choque. Muita gente não quis pedalar naquele dia porque foi algo que a gente pensou: “podia ter sido eu, o cara está fazendo o mesmo que eu estou fazendo”.

E onde vocês passavam a noite?

Na viagem tínhamos quatro líderes que eram responsáveis em planejar a alimentação e o pouso. Geralmente ficávamos em igrejas ou escolas. Já cheguei a dormir em altares, mas também já dormimos a céu aberto, como deitar na grama do Parque Barigui e passar a noite. Na maioria das vezes a população já conhecia nosso trabalho, já que ele é um projeto que existe há mais de dez anos. Toda a nossa alimentação era na base de doações de pessoas que gostavam do projeto. Acho que a única coisa que costumávamos comprar era pão.

E os equipamentos para as construções?

Existe uma ONG bem grande (Habitat for Humanity) que nos davam as ferramentas para trabalhar. Nosso grupo nunca chegou a construir uma casa inteira, mas agilizávamos centenas de horas dentro dessa construção, por que ajudávamos no projeto que eles já tivessem. Fizemos demolição, ajudávamos a demolir para que eles construíssem outra coisa e até acabamentos, como pintura e colocação de piso.

Existem diferenças entre as construções aqui do Brasil com as que realizou nos Estados Unidos?

O método lá é bem diferente do que temos aqui, e por isso era uma coisa que dava certo. Lá não é exigida tanta habilidade para que o trabalho fique bem feito no final. Com pouco de experiência a pessoa já consegue construir algo legal. Paramos em 10 estados para construir e cruzamos 17 estados pedalando.

(Foto: arquivo pessoal)

Teve alguma história que te emocionou enquanto você pedalava e construía?

Eu estava no Kansas quando ouvimos a história de um pai viúvo com dois filhos. Eles não tinham casa naquele momento, mas sabiam que iam receber uma em breve. No primeiro dia de construção, o pai levou seus filhos para o terreno vazio, pegou um batente de porta e pediu para as crianças segurarem aquilo no ar, e então disse “Crianças, vou ensinar para vocês o que é esperança. A casa de vocês vai estar aqui em não mais que três meses”. No último dia de construção, as crianças colocaram o batente na porta de casa. Essa é uma história muito linda, uma das que mais me tocou.

Todas as casas são facilitadas para famílias carentes?

O que acontece é que a pobreza nos EUA é diferente da pobreza aqui no Brasil. O que foi mostrado para mim como uma grande pobreza não chega nem perto do que eu vejo aqui nos trabalhos que realizo. Mas sim, eram famílias de baixa renda comprovada, dentro dos critérios que a ONG pedia.

Quais são os critérios de escolha?

A ONG “Habitat for Humanity — Las Vegas”, por exemplo, abre um edital para famílias que têm interesse em receber uma casa. A família comprova a baixa renda e se tem um trabalho fixo. Essa é a forma de sabermos se ela precisa mesmo da casa e se tem condições para mantê-la. Depois da aprovação da ONG, começam a buscar um lugar para a construção. Normalmente já existem pré-projetos, que vão encaixar dependendo do tamanho da família. Cada construção se torna única porque trabalhamos em cima das especificidades próprias do local. Do mesmo jeito que algumas casas precisaram de uma demolição completa, em outros estados eles conseguiram uma quadra inteira, e foram construindo casas uma do lado da outra.

Há projetos semelhantes no Brasil?

Que eu saiba não há nenhum projeto no Brasil que envolva bicicleta e construção, ou que esteja focado no “pegar um carro e ir construindo”. Esses trabalhos envolvem a malha de transportes do Brasil, e nos EUA eles têm muito mais trens, o que alivia as rodovias. Aqui, além das estradas em péssimas condições, ainda temos muitos caminhões, o que torna perigoso para o ciclista.

Nós temos o TETO, que está no Brasil há algum tempo. Muita gente viaja de estado em estado construindo por ele. Eu vejo que soluções de planejamento urbano são um caminho para o Brasil se tornar um país melhor, mas para que isso aconteça as pessoas precisam ter consciência dos benefícios que isso traz. Uma vez que você oferece uma melhora, seja em transporte público ou em moradia, a pessoa acaba pensando sobre isso. Esses trabalhos sociais não são só ir lá e construir uma casa, tem toda a questão de empoderamento dessas famílias, fazer com que eles entendam que precisam ir atrás dos seus direitos. Nós não fazemos um assistencialismo, afinal, as casas não são gratuitas. A família tem que ajudar, tanto na construção da casa, como na questão financeira. Dessa forma a gente ajuda a trazer uma consciência para essas pessoas.

Construção em Vila Nova, realizada pelo TETO. (Foto: TETO)

Como começou a trabalhar na AIESEC?

Voltei para o Brasil em agosto do ano passado e trabalhei no AIESEC até recentemente. Ela é uma instituição que tem por objetivo a liderança jovem, que pode ser alcançada por quatro formas diferentes: ou você é voluntário na AISEC — que é o que eu fazia –, ou você faz um intercâmbio social, ou seja, ir para algum pais fazer trabalho voluntário. As outras duas formas são fazer um intercâmbio profissional, como um estagiário numa grande empresa, ou hospedar intercambistas na sua casa. Eu conheci a instituição ainda nos EUA por meio de um amigo e me identifiquei bastante. Assim que voltei para o Brasil quis participar, e ocupava o cargo de gerente na área de projetos de recebimento de intercambistas. Era eu quem entrava em contato com as ONGs aqui em Curitiba para saber as suas necessidades e no que o intercambista pode ajudar.

O que mudou na sua vida devido as experiências que adquiriu pedalando?

A questão da empatia. Me colocar no lugar das pessoas, entender o que elas passam, e tomar atitudes com outros olhos. Isso é muito importante, não só para conseguir chegar aonde você quer, mas também para ter um bom convívio social. Não adianta só focar no trabalho e o resto da vida ser completamente desestruturada. Mais que tudo encontrar um equilíbrio para saber lidar com as pessoas foi uma melhora que eu senti muito nesse projeto em especifico.

Você tem novos projetos em vista?

Depois de formado, eu tenho muito interesse em trabalhar no setor de negócios sociais, com o propósito de trazer melhoras para a sociedade. Uma das ONGs que conheci me chamou para um estágio de duração de cinco meses. Eu aceitei e em 13 de julho estou indo trabalhar com eles, aprender métodos de construções naturais e alternativas sustentáveis na construção civil, além de construir duas casas para famílias de baixa renda. Outra ONG internacional, World Merit, selecionou 350 jovens do mundo inteiro para desenvolver projetos e políticas sustentáveis para o atingimento dos ODS (objetivos desenvolvimento sustentável) da ONU, que foram lançados em setembro do ano passado substituindo os objetivos do milênio.

Consegui ser escolhidos para o meu objetivo de “Cidade e comunidades sustentáveis”, que tem tudo a ver com os trabalhos sociais que faço. Por conta de toda a experiência que juntei nessa área eu mais uns seis brasileiros conseguimos ser selecionados para representar o Brasil, cada um com o seu objeto. Em agosto e setembro vamos nos encontrar em Nova York para apresentaremos os projetos na sede da ONU.

Você tem alguma dica para quem quer começar um trabalho voluntário?

O importante é ter esse cuidado com as pessoas e saber o benefício da sua ajuda para elas. Eu digo que sou movido a sorrisos e é isso que me faz ir atrás de todas essas coisas. É um sentimento muito bom quando sabemos que nunca mais veremos aquela família, mas que ela vai lembrar de nós, porque demos uma casa para ela.

A dica que eu dou para quem quer começar um trabalho voluntário é começar. Se você já tem um propósito na vida fica mais fácil começar. Eu amo urbanismo e acredito que a moradia é um direito fundamental para todas as pessoas. O mais importante de tudo é saber aonde você quer chegar e ir atrás disso. E, se não sabe disso ainda, eu vejo que os trabalhos sociais são uma ótima forma de descobrir na prática. Começa, vai atrás, veja o que pode ser que te interessa, e aos poucos você vai se encontrando. Nunca vai ser um tempo perdido.

Ajude o projeto de Eduardo clicando aqui.

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