Movimento musical Nem Rosa Nem Azul nasce em BH
Talvez este breve relato seja a descrição de uma vontade coletiva em prol do bem comum. Mas pode ser o relato de um trabalho militante entre movimentos sociais de diferentes bandeiras. Pode ser também que agora conte sobre o nascimento de mais uma alegre expressão contra a tristeza de se viver com a desigualdade. No caso, uma desigualdade que pode ser vista em cores, pelas cores. Pintamos errado o quadro do cotidiano, incorretamente dividimos as cores, as selecionamos, e as restringimos como se cor não fosse livre o suficiente para que elas mesmas colorissem a nossa vida. Eis a arte dos quadros que sobrevive pela cor que se fez tão forte a ponto de chamar o artista à expressá-la. Caso contrário, se forem cores determinadas para terem um fim de padronização cultural sexista, ah, isso é terrivelmente reducionista, do ponto de vista do uso das cores. Mas o fizemos, ainda o fazemos, e o resultado tem sido uma sutil forma de uniformização boba e tola… Pobre das cores, pobre de nós que ainda não aprendemos a nos deixar colorir.
Mas devo começar o relato, que não é um devaneio sobre as cores e o corpo restrito em cores. No último dia 6 de julho, fui convidada pelo músico Carlos Linhares, da banda Nem Secos, além de submergido em outros projetos, pois também escreve poesias, a assistir uma reunião no emblemático Edifício Acaiaca, onde funciona a sede do Cellos MG — Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais.
Anteriormente à reunião, Linhares contou-me do Movimento Nem Rosa Nem Azul: “artistas em favor da diversidade sexual”, diria. Logo me interessei em apoiar a iniciativa por meio da minha palavra escrita. E viria a conhecer o Carlos Linhares na Casa d@ Jornalista*, centro cultural aberto recentemente pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. Aliás, a Cas@, juntamente com o sindicato, merecem um relato à parte — para não deixar passar, adianto que o Sindicato tem apoiado e acolhido o movimento Jornalistas Livres de BH.
A reunião no Cellos MG foi pautada para que o Nem Rosa Nem Azul apresentasse a música do movimento aos organizadores da Parada Gay de Belo Horizonte que acontecerá no próximo domingo, 19 de julho. “Eu não nasci de rosa, eu não nasci de azul” **, música feita com o intuito de desconstruir a padronização social das aparências ditas masculinas e femininas, ainda afirmadas e reafirmadas através das cores rosa e azul, conta Linhares.
Assim, o Movimento Nem Rosa Nem Azul, propunha a sua participação na Parada Gay, para que todos pudessem estar juntos em prol da diversidade sexual. A música foi festejada pelos organizadores da Parada, durante a reunião na sede do Cellos MG.
E findado o encontro, bastante organizado e preciso, o Nem Rosa Nem Azul conseguiu se inserir na programação da Parada Gay. Ainda durante a reunião.. A Parada de Belo Horizonte, “é a mais política de todas as paradas gays do Brasil”, diria um dos organizadores. “Mas depois que passa a parada ninguém lembra da gente, não se fala mais nada”. Queixam-se da invisibilidade e desaparecimento das pautas da diversidade sexual após o evento. “Mas pretendemos caminhar juntos de agora em adiante, estamos aqui para alinhar as iniciativas”, fala Linhares, que reuniu 23 músicos mineiros, de diferentes estilos, para gravar a música e também um video de apresentação.
Parece que a música, “eu não nasci de rosa, eu não nasci de azul”, estará presente para afirmar algumas obviedades, essas obviedades que têm sido a base da luta de muitos movimentos sociais na atualidade. O uso livre do corpo, de escolha individual, ainda não deixou de ser uma pauta de luta e protestos. Que devem seguir e tanto mais emergir. Então, que a música indique a todxs: “eu não nasci de rosa, eu não nasci de azul”.
**Realização: Nem Secos — Composição: Luã Linhares e Carlos Linhares — Direção Musical: Luã Linhares — Arranjo: Nem Secos
*Casa d@ Jornalista: Álvares Cabral 400, Centro, BH. (em frente ao terminal Conexão Aeroporto).