A luta das mulheres em âmbito político carece de representantes.
Otávio Alonso
Sophia Velardi
Beatriz Santinir
A política é machista. Este é um dos pensamentos em comum das duas únicas vereadoras do município de Santos, Telma de Souza e Audrey Kleys, sendo que, a Câmara Municipal da cidade tem 21 cadeiras no plenário.
O plebiscito de 2016 mostra que as medidas de incentivo eleitoral para as mulheres, onde por exemplo, no mínimo 30% dos fundos de cada partido devem ser investidos em candidatas do sexo feminino, até então não surtiram o efeito esperado.
Telma é veterana na política, seu primeiro mandato foi como vereadora em Santos, no ano de 1982, sendo também a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita no município, em 1988. Sua carreira se estendeu aos cargos de Deputada Estadual e Federal no Estado de São Paulo por diversas vezes. Já Audrey, novata na política, está em exercício do seu primeiro mandato, que se iniciou em 2017.
Telma afirma que a discriminação que as mulheres sofrem atualmente não é explícita, e começa antes dos cargos políticos, na sua desvalorização intelectual, como por exemplo, quando ganham salários menores que os homens para exercer uma mesma função. Ela se considera um ponto fora da curva “Acho que eu respondo de maneira diferenciada com relação às outras mulheres (que ocupam cargos políticos), pois tenho uma trajetória diferenciada dentro da política”, mas pondera que o inicio de sua carreira foi marcado por grande discriminação “mulher, do PT, o meu cabelo era extremamente armado, os meios de mídia da cidade não me respeitavam, muitas vezes nem citavam o meu nome”.
A vereadora é incisiva ao afirmar que quer a quebra daquele modelo de mulher frágil, que recorre ao choro para conseguir o que deseja, algo que para ela não condiz mais com a realidade brasileira no século XXI, onde muitas famílias são encabeçadas justamente pelas mães país à fora. Telma acredita que o engajamento feminino na política é necessário, pois trará uma nova percepção quanto as capacidades das mulheres, o que por sua vez aumentará sua auto-estima, que é o principal caminho para a equidade entre os gêneros.
Audrey Kleys se queixa da representatividade baixíssima que as mulheres tem na política, para a vereadora santista, o fato de sempre predominarem os homens nos cargos públicos desestimula até mesmo que mulheres votem em mulheres, pois algumas delas acabam acreditando que não vão conseguir algum tipo de representatividade. Ela celebra a oportunidade de exercer um mandato em sua cidade, o que ajuda a dar maior visibilidade ao público feminino, e isso ajuda na quebra do ciclo de homens eleitos como unanimidade.
A vereadora diz que os seus maiores problemas na hora de por exemplo, ter um projeto aprovado no plenário, é o fato de ser nova no ramo. Porém, afirma categoricamente: “o machismo impera na política, nem sempre somos chamadas parta as reuniões, na mesa diretora não tem nenhuma mulher”.
Para Audrey, o espaço da mulher na sociedade será conquistado aos poucos através de uma luta permanente, constante e eterna, pois ainda estamos muito longe de conseguir a igualdade “Ser mulher na política tem a ver com respeito, temos que impor respeito, até pelo tom de voz, para que se respeite o espaço de cada um”.
Para a professora Verônica Maria, especializada em ciências sociais, o baixo número de mulheres ocupando cargos políticos, se deve à uma questão cultural, algo tão forte que acaba ainda se sobressaindo à atual legislação que incentiva o engajamento feminino. “Falando no Brasil como um todo, as mulheres tem menos acesso à educação. Eu acredito que para que hajam mais mulheres se candidatando, é necessário mudar esse quadro, temos que mudar a percepção que se tem da mulher, empodera-la. Isto não é algo que se muda de um dia para o outro”.
Um nome novo no quesito representatividade feminina, é Carina Vitral, que veio do movimento estudantil, e em 2016 aos 28 anos concorreu à prefeitura de Santos. Ela conta que sofre diariamente discriminação dentro e fora do meio político, e que inclusive nas redes sociais sofre ataques que buscam denegrir sua imagem e auto-estima como mulher, mas bem como suas colegas, se empenha em mudar o quadro de machismo na política: “Essa é, infelizmente, a realidade do cotidiano das mulheres que se desafiam a estar nos espaços de poder”.
Carina culpa o machismo na sociedade por estes problemas e também pelo baixo engajamento feminino. Para ela a sociedade acaba empurrando as mulheres para determinadas áreas do conhecimento. “Ainda somos as maiores responsáveis pelos cuidados da família, quando a responsabilidade deveria ser de todos”. Essa realidade impede que as mulheres desenvolvam outras atividades, e, por conseguinte se posicionem dentro do mercado de trabalho. Em sua opinião, o foco principal não é atrair mais mulheres para a política, e sim “estruturar o sistema político para que as mulheres ocupem os espaços de poder, além de toda a importância do combate ao machismo e às ideias que dão sustentação para a desigualdade de gênero que impera, hoje, no Brasil.”
