Cultura machista ainda é problema na política
Vereadoras de Santos contam como lidam com o preconceito por ser mulher
Bruno Andrade
Paulo Victor
Rafael Torres

A pouca representatividade e a dificuldade para ter maior participação ainda é um problema para a mulher na política brasileira. De acordo com dados do IBGE divulgados em março deste ano, o Brasil tem um número menor de mulheres parlamentares em relação a 151 países numa lista de 190 nações. A presença feminina no Congresso é apenas de 10,5% (54) dos 513 deputados federais.
Segundo o cientista político Rafael Moreira, o machismo é uma cultura imposta pela sociedade ainda a ser superada pela mulher, que não é vista com postura e capacidade para o poder. “O machismo é um problema social, a gente tem problemas que são inerentes ao sistema político brasileiro”.
Há 38 anos na política, a vereadora Telma de Souza foi uma das primeiras mulheres a lutar contra esse machismo. Eleita como “prefeito” de Santos em 1989, como consta em seu diploma, a ex prefeita conta o exemplo de maior preconceito contra a mulher na política.

Telma entende que a relação com o poder afeta diretamente no preconceito, e que o medo do homem em perder o comando, de ter uma mulher como responsável pelas situações, faz com que haja ainda mais machismo na sociedade.
Na época em que exercia o cargo de deputada federal, Telma conta que chegou a ser alvo de agressão. “Nós mulheres fizemos um paredão, ficamos de costas toda vez que ele falava”, revela.
Em seu primeiro mandato como vereadora de Santos, a jornalista Audrey Kleys já enxerga os obstáculos que enfrenta na política brasileira por ser mulher. Em um lugar que é ocupado pela maioria de homens, Audrey diz que, quando a mulher chega para encarar essa situação, ela fica submetida. “Tive que impor os meus posicionamentos para que eles pudessem se adequar”, afirma.
A atual vereadora da cidade ainda considera o machismo como um problema estabelecido em todas as profissões e não ligada somente na política. Segundo ela, o machismo existe e é preciso lidar com isso de uma maneira inteligente.
Telma e Audrey são as únicas mulheres dentre os 21 vereadores na Câmara Municipal de Santos. A jornalista admite as dificuldades por ser minoria na bancada. “Como minha voz alcança a de 19 homens em uma reunião falando sobre política? É difícil. Eu tive que colocar alguns posicionamentos mais fortes para que eles pudessem me enxergar com as minhas características de mulher”, declara Audrey.

Por ter trabalhado com muitos homens no meio jornalístico, Audrey revela que essa experiência ajudou bastante a estar hoje na política. A vereadora diz que não deixa que casos de machismo ocorram em cima dela e, caso presencie tal circunstância, já interrompe. “Todo dia é uma situação nova que você precisa lidar”.
MUITO MAIS QUE O PRECONCEITO
Porém, não só o preconceito impede este problema político. Fatores institucionais como o sistema eleitoral e o financiamento de campanha pelos partidos, também são obstáculos que dificultam a ingressão da mulher na política.
O cientista político Rafael Moreira acredita que os próprios partidos têm sido uma barreira para a participação das mulheres na política. Entretanto, outros tentam enfrentar esse problema. “Tem partidos que abrem espaço para mais candidaturas de mulheres nas eleições, colocando mais dinheiro. Alguns partidos têm mudado um pouco esse comportamento”, disse Rafael, ressaltando que essa desproporção de homens e mulheres se estende tanto em partidos de esquerda quanto de direita.
Já a cientista política Beatriz Rodrigues Sanchez explica que esse fator social vem desde a infância, no qual as meninas não são estimuladas a serem protagonistas nas discussões e, sim, responsáveis pela tarefa doméstica. Em sua opinião, essa divisão sexual do trabalho acaba contribuindo para a exclusão das mulheres na política.
Ela acredita que uma das maneiras de evitar esse machismo seria a distribuição igualitária dos recursos entre candidatas e candidatos. Além da ampliação da lei de cotas para mulheres na política com a reserva de cadeiras dentro dos parlamentos e não apenas de candidaturas.
Esse preconceito também pode influenciar na hora do voto do eleitor. Para Beatriz, ainda há a ideia de que as mulheres ainda são menos competentes do que os homens para ocupar cargos públicos. A cientista política considera que o impeachment da presidenta Dilma Rouseff em 2016, só mostrou o quanto a opinião pública brasileira reproduz diversas formas de discriminação e violência contra as mulheres.

Rafael compartilha do mesmo pensamento, e diz que se fosse um homem naquela situação, o tipo de crítica seria totalmente diferente. “Quando uma mulher é colocada numa situação de poder, espera que ela reproduza muito o que um homem faria”.